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Paraguai caça PCC e Comando Vermelho em roças de maconha

Reportagem publicada neste domingo no O Estado de S.Paulo mostra região de plantio de maconha. Abaixo, veja vídeo com entrevista do ministro Luis Rojas, comandante das operações conjuntas com PF do Brasil

Pablo Pereira

31 Agosto 2014 | 18h50

ASSUNÇÃO – Enquanto o debate sobre a legalização da maconha aparece na campanha eleitoral de presidente da República, refletindo mudanças legais nos Estados Unidos e no Uruguai, uma força-tarefa policial internacional arrasa

Documento

, o principal fornecedor para o Brasil, e caça cerca de 40 brasileiros de facções criminosas, como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). Neste ano, pelo menos 1.800 hectares de plantações de maconha e 270 toneladas da droga pronta para o consumo foram destruídos e 13 cidadãos brasileiros capturados em solo paraguaio.

As informações são de um documento do governo paraguaio, obtido pelo Estado, com balanço de 24 operações de um grupo especial de agentes criado por Brasil e Paraguai, com apoio dos Estados Unidos, para combater o narcotráfico na fronteira dos Estados do Mato Grosso e Paraná, no Brasil, e Amambay, Canindeyú, Caaguazú e Alto Paraná, no Paraguai. O alvo principal é a maconha.

“Lamentavelmente, o Paraguai é um dos principais produtores de maconha do mundo e o principal fornecedor da droga para o Brasil”, afirmou na semana passada Luis Alberto Rojas, ministro da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) do Paraguai. Ele é encarregado de comandar a força especial que localiza lavouras, destrói as plantações e manda traficantes brasileiros de volta pela Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu.

 

“Sabe-se que 80% da maconha plantada no Paraguai vai diretamente para o Brasil”, declarou o chefe da Senad.

Nos últimos 5 anos, 132 brasileiros foram presos na região de fronteira entre os dois países, acusados de ligação com a produção e a distribuição da erva, em operações conjuntas da Senad com a Polícia Federal do Brasil, em parceria com a Drug Enforcement Administration (DEA), órgão de repressão às drogas do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Destes, 35 foram expulsos, devolvidos às autoridades brasileiras.

Operações. O documento revela que 35 dos traficantes procurados no Paraguai são ligados ao PCC, organização criminosa que atua nos presídios de São Paulo. Os outros 20 são do CV, facção do Rio. O relatório foi apresentado em reunião entre os comandos operacionais da força-tarefa do Brasil e Paraguai, em Assunção, no começo deste mês.

É um relato das ações de repressão aos traficantes, entre elas as Operações Nova Aliança, executadas durante os anos de 2012 e 2013. Os dados de 2014 vão até o último dia 11, véspera do encontro em Assunção.

“Temos por aqui ainda outros membros de quadrilhas menores do Brasil”, explicou Rojas. De acordo com as investigações do grupo de inteligência do convênio Senad/PF, líderes das organizações criminosas brasileiras Terceiro Comando Puro (TCP) e Primeiro Grupo Catarinense (PGC) também são procurados no Paraguai.

Segundo Rojas, o governo nacional aperta o cerco contra o narcotráfico porque o país é considerado “um problema” na região. “Meu país cometeu vários erros nesse tema. Não investia um centavo no combate, mas agora há uma decisão política de enfrentamento do tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, contrabando e falsificação”, afirmou o chefe da Senad.

O chefe dos caçadores de maconha argumenta que o mercado da droga no Brasil aumentou a demanda por áreas para plantio do lado paraguaio nos últimos anos. Atualmente, explica, quadrilhas cruzam a fronteira para plantar dois tipos de droga. “A marijuana grande, que permite duas safras anuais, e um novo tipo, mais baixo, que rende três colheitas por ano”, disse. Mostrando mapas onde há cultivo da maconha nos municípios de Capitão Bado, Pedro Juan Caballero, Ciudad del Este e Salto del Guairá, ele afirmou que a guerra aos traficantes tem apoio também do DEA americano. “A ordem é expulsar os criminosos que vieram para o Paraguai cultivar marijuana para o Brasil”, afirmou.

Um dos relatórios, com resultados de oito das operações Nova Aliança, mostra que de 2012 a março deste ano foram destruídos cerca de 29 milhões de pés de maconha em 2.878 hectares. O custo da força-tarefa foi de US$ 452,9 mil, US$ 261,9 mil pagos pela PF. O dano provocado no narcotráfico seria de US$ 264,8 milhões no período.

Operação prendeu quadrilha que traficava para Israel

A Operação Nilo, investigação conjunta entre Senad e Polícia Federal brasileira, teve também a colaboração do governo da Bolívia. Nos dias 14 e 15 de abril, a força-tarefa capturou 12 pessoas, entre elas um brasileiro, e desarticulou uma quadrilha de traficantes internacional com ramificações no Brasil, na Bolívia, no Paraguai e em Israel.

Cinco criminosos foram presos em Israel. Outros cinco caíram no Paraguai, um traficante foi detido na Bolívia e outro no Brasil. O líder da gangue era o boliviano Juan Carlos da Rosa, que foi preso em Santa Cruz.

No dia 7 deste mês, agentes da Senad prenderam em Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu, o brasileiro Ricardo Munhoz, fugitivo de cadeias de São Paulo e Santa Catarina. Condenado por agir na região de Camboriú, Munhoz é acusado no Brasil de tráfico de armas, corrupção de menores e formação de quadrilha.

Quatro dias depois, outra investigação levou a José Benemário de Araújo, de Campina Grande, também preso em Ciudad del Este. Com pena de prisão de 73 anos no Brasil, Benemário era um dos chefes do Comando Vermelho na Favela de Manguinhos, no Rio. Ele foi entregue à polícia do Rio na Ponte da Amizade na madrugada do dia 11.

Integração. A ofensiva antidrogas, apoiada pelo Brasil, pode ajudar a fortalecer a integração econômica entre os dois países. “Temos registrado aumento na procura de empresas brasileiras por espaços para se estabelecer no Paraguai”, disse Marcelo Borges, encarregado de Defesa, Segurança Pública e Combate aos Delitos Transnacionais da Embaixada do Brasil.

Os principais atrativos para empresas, segundo o diplomata, são a oferta de mão de obra, a baixa carga tributária e o preço da energia. Borges explica que o governo paraguaio faz um esforço para criar ambiente de segurança jurídica ao combater o narcotráfico e a lavagem de dinheiro. “O Paraguai é nosso parceiro importante no combate à criminalidade”, disse.

Em janeiro, seminário em Assunção reuniu empreiteiras como Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão e Camargo Correa, além dos bancos Itaú e Banco do Brasil, para discutir parcerias público-privadas no Paraguai.

Senad atuou na captura de Abdelmassih

O sucesso das operações antidrogas em parceria com a Polícia Federal, a Senad terminou por ser também peça-chave na prisão do ex-médico Roger Abdelmassih, que vivia clandestino com o nome falso de Ricardo Galeano, cidadão paraguaio, havia três anos. A pedido da PF, Abdelmassih, condenado a 278 anos de cadeia por crimes sexuais em São Paulo, foi seguido, preso e expulso do Paraguai por policiais da equipe chefiada por Luis Alberto Rojas.

“Nosso trabalho é de combate ao tráfico de drogas, mas também de lavagem de dinheiro e outros crimes”, explicou o ministro paraguaio. Rojas comemora os números da parceria com o Brasil, que está para ser encerrada em setembro. Fontes do Itamaraty asseguraram, porém, que os convênios de combate às drogas e ao crime organizado devem ser renovados. 

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