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Papa Francisco e as demandas do passado e do presente

Pablo Pereira

24 de julho de 2013 | 17h14

Outro dia, entrevistando o escritor e produtor de filmes Francesc Escribano sobre sua obra (livro e filme) a respeito de Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, ouvi do autor catalão, que o religioso, igualmente nascido na Catalunha, gostou da escolha do nome Francisco pelo papa argentino Jorge Mario Bergoglio. “Francisco não é só um nome; é um programa de vida”, disse Escribano acerca do papa que está no Brasil. Citava o bispo que adotou o combate à pobreza no sertão brasileiro como missão.

Independentemente da fé de cada um, não há como ignorar a abrangência e o impacto desse momento da Igreja, certamente nunca antes vivido na América Latina. São tempos com variáveis especiais como a guinada à esquerda dos eleitorados da região, a crise econômica mundial e a Era da comunicação global instantânea.

Só para lembrar, Dom Pedro Casaldáliga é hoje, aos 85 anos, um dos principais ícones do que foi nos anos 70 e 80 o movimento da Igreja chamado de Teologia da Libertação, veio viver no isolamento rural no Brasil em 1968, defendendo causas sociais quando não existia celular e os ares da ditadura já turvavam o cenário político nacional.

Pois aquele ideário de justiça social, de defesa dos menos favorecidos, dos abandonados pelo Estado, dos índios, dos colonos, dos pobres nas favelas urbanas – que lhe rendeu ameaças de morte e o levou ao Vaticano para ser repreendido pelo então bispo Joseph Ratzinger, depois escolhido papa Bento 16 -, reaparece agora com força nos discursos da Santa Sé. É linha central do papado de Francisco.

Pode-se dizer que a Igreja Católica quer estancar a evasão de fiéis que migram para as religiões evangélicas e enfraquecem as suas paróquias. Pode-se pensar igualmente que os pensadores do Vaticano querem defender dogmas cristãos ameaçados por modernidades e pela velocidade do fluxo de informações alucinante que toma a globosfera. E que buscam na juventude a renovação de sua existência milenar. O mais correto, a meu ver, é pensar que criou-se nos últimos anos um canal pelo qual essas visões – a perda de fiéis e o questionamento dos dogmas – se juntam e são olhadas com a lupa vaticana.

Nesse quadro, demandas sociais como acesso a serviços públicos de qualidade, igualdade de oportunidades na educação e saúde, fim da roubalheira dos administradores públicos, garantia de renda, emprego, oportunidade de mudança de patamar social, liberdade de expressão, que eram, aos olhos da guerra ideológica dos 60/70, imediatamente taxadas como extremismos insuflados por agentes esquerdizantes contrários ao desenvolvimento nacional, hoje fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas que lotaram ruas e ruas com manifestações.

Pois em nome do combate a protestos por essas demandas sociais já se fez política rasteira no Brasil, com polícia e repressão. Reagindo a essas vontades, a própria Igreja, em determinados momentos, colocou-se contra a militância popular – como na tentativa do Vaticano de enquadrar o bispo do Araguaia.

Para ficarmos somente no Brasil, hoje se vê que a criação de uma nova classe média amplificou reivindicações do pessoal alijado do consumo, e submetido ao segundo plano em tantas outras áreas, por décadas, e que é levada às ruas pela irreverência da juventude, coisa muito conhecida das regiões empobrecidas das regiões metropolitanas. E se vê também que essa massa emergente entoa num só coro palavras de ordem e carrega bandeiras que antes eram vistas como contestação “comunista” – lembram das acusações ao bispo do Araguaia e àqueles que trabalhavam contra a ausência do Estado e por mais igualdade?

A esta altura do campeonato, julho de 2013, não há como ignorar que a visita do jesuíta franciscano, a primeira de Francisco de Roma, aponta para uma preocupação social da Igreja Católica como não aparecia no cenário internacional havia muito tempo. Pode-se dar o nome que se quiser para este período de Francisco e à peregrinação dele em busca do fiel jovem.

Mas não há como negar que as demandas sociais defendidas por bispos como Casaldáliga, e para as quais muita gente (católica, inclusive) torceu o nariz por muito tempo – e que ainda hoje são tão presentes na dureza das periferias -, revive na Igreja de Francisco.

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