Pandemia do coronavírus é “evento extremo”, marca de uma nova Era, avaliam cientistas
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Pandemia do coronavírus é “evento extremo”, marca de uma nova Era, avaliam cientistas

Pablo Pereira

11 de novembro de 2020 | 14h24

Com a disseminação mundial do coronavírus, que atinge 50 milhões de pessoas e já matou cerca de 163 mil no Brasil nos últimos oito meses, cientistas estudam o impacto da expansão da doença, que permanece fora de controle, e a pandemia já é considerada um “evento extremo” no planeta, assim como a ocorrência da fome, de secas e de inundações. São fatos globais que a ciência aponta como sinais do início de uma nova Era, o Antropoceno.

Nos últimos 90 anos, a Terra teve uma elevação de população de 2 bilhões de pessoas, em 1930, para os atuais mais de 7 bilhões. Esse crescimento, com reflexos nas fronteiras agrícolas para produção de alimentos, causou impactos florestais gigantes. Em 2002, o cientista holandês Paul J. Crutzen, Nobel de Química (1995), abriu um debate internacional sobre o surgimento de um novo tempo, o Antropoceno, ou seja, um período no qual a intervenção humana passou a alterar o ambiente em larga escala, de acordo com estudos de marcadores geológicos como as explosões nucleares, acidez oceânica, aquecimento global e outros estudos internacionais sobre a redução nas calotas polares. Neste processo, 1950 é considerado momento importante por causa das explosões nucleares. Em 2019, congresso de cientistas sobre o novo conceito obteve mais de 80% de concordância com a nova denominação.

Olhando esse quadro, as cientistas sociais Sônia Regina da Cal Seixas e Leila da Costa Ferreira, da Unicamp, publicaram  em outubro o artigo “Mudanças climáticas e covid 19: perspectivas futuras para enfrentamentos de eventos extremos”. Avaliam que o crescimento da infecção pelo vírus Sars-cov-2 é um fato da mesma categoria de potentes mudanças climáticas provocadas na natureza pela ação humana.

“A pandemia do coronavírus pode ser vista como um evento extremo”, afirmou Sônia Regina da Cal Seixas, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam/Unicamp), uma das especialistas que assina o artigo e que aceitou conversar com o Blog sobre o impacto da expansão da doença.

“Acreditamos que a pandemia da covid 19 é o grande desafio que estamos enfrentando como humanidade“, resume o artigo, assinado também pela cientista social Leila da Costa Ferreira, autora de uma dezena de livros sobre a questão ambiental e professora titular de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, além de coordenadora associada do Nepam-Unicamp. A seguir, trechos da entrevista conjunta das cientistas ao Blog.

Há um debate científico sobre o surgimento do Antropoceno, um período no qual mudanças climáticas e outras alterações provocadas pela ação humana nos últimos 150/200 anos, inclusive com marcadores geológicos das explosões nucleares da Segunda Guerra. Cientistas, reunidos em congresso em 2019, já concordaram com essa ideia. O que essas mudanças no Planeta têm em comum com a epidemia do novo coronavírus? 

Leila da Costa Ferreira, cientista social/Foto: Antonio Scarpinetti/Unicamp

Leila da Costa Ferreira – Para nós, cientistas sociais, o termo Antropoceno não é um conceito. O primeiro ponto é que há uma grande controvérsia na comunidade científica se existe ou não uma passagem do Holoceno para o Antropoceno.  Vou tentar ser breve. Mas o fato é que há toda uma discussão nas ciências em geral sobre se nós estamos realmente vivendo uma nova Era geológica ou não. Primeiro ponto: como cientista social, eu não acho que isso é um conceito e sim uma ideia-chave, que é muito interessante para a gente começar a discussão. É uma ideia-chave que nos coloca em uma situação que a sociedade humana é hoje um ator fundamental de transformação da sociedade contemporânea. Agora, para nós, qual é a grande crítica? Quem seria essa sociedade humana? Há diferentes grupos sociais, diferentes modos de produção, é discussão muito forte. A própria Sociedade Internacional de Geologia ainda está discutindo se há ou não um “Antropoceno”. Como cientista social, é uma ideia-chave muito forte, muito interessante. Uma das hipóteses é a de que o Antropoceno se inicia no final do século 19, início do século 20, com a Revolução Industrial. Tem a ver com o colonialismo, com o uso generalizado do petróleo, comércio em escala mundial e com a agricultura em escala planetária. Mas isso é discussão; não há consenso. O que os cientistas sociais entendem é que é muito interessante que a gente coloque este debate para discutirmos mudanças climáticas, risco, pandemias, uma série de eventos extremos, como está no artigo.

Está claro para vocês a ligação entre o humano e o animal, ou seja, a real existência de um humano, o paciente 1, infectado pelo vírus que estava no bicho?

Sônia Regina da Cal Seixas, cientista social/Foto: Antonio Scarpinetti/Unicamp

Sônia Regina da Cal Seixas – A nossa leitura é pensar não do ponto de vista biológico, nem epidemiológico. Não somos epidemiologistas. Nossa leitura é de cientistas sociais que trabalham com a perspectiva ambiental. E que consideram as dimensões de mudanças ambientais como aquelas que vão mudar e construir novos modelos de zoonoses, alterar a forma de os vírus e bactérias, se estabelecerem no mundo. Todos esses organismos, existem e coexistem com os humanos. O problema é que nós, ao fazermos tudo isso que a Leila apontou sobre esse processo histórico de mudança, do ponto de vista da Revolução Industrial, da apropriação da natureza, nós provocamos alterações nos nossos, digamos assim, parceiros de habitat. E de onde nós partimos é que os cientistas do clima, um conjunto de cientistas, organizados em torno do IPCC, criado pela ONU, em 1988, avaliam trabalhos que vão permitir que a gente olhe para essas mudanças, como a Leila bem apontou a partir da concepção do Antropoceno. O elemento-chave para pensar esses processos de mudanças nos alertam o seguinte: olha, quando você aumenta a temperatura da Terra, pela ação humana, você vai mudar as condições e os padrões de vírus, de bactérias e de outros organismos vivos, além de provocar, também, os grandes eventos extremos, não só secas e inundações, mas a fome também. Esse conjunto de situações geológicas ou biológicas vai ter impacto na vida de uma forma marcante. O que nós pensamos, quando a gente fez a discussão no artigo, é que a pandemia pode ser vista como um exemplo de evento extremo. Desde 2007, os cientistas do IPCC – e fizemos questão de destacar no texto – deixam claro que a sociedade humana, com essas mudanças todas, provocaram impactos na saúde. Então, para nós, não há o “paciente 1”. O que tem é um conjunto de situações que se caracterizou, de uma maneira rapidíssima, e se alastrou pelo mundo. E, por isso, é considerada uma pandemia e, pela nossa leitura, é um evento extremo.

Leila – Você mencionou a questão do crescimento demográfico. Isso, para mim, é uma questão importante, mas é uma perspectiva muito neomalthusiana. Para nós, o problema não é a demografia. A questão não é população versus recursos. O problema é a distribuição populacional. Do ponto das mudanças climáticas, as áreas costeiras serão as áreas mais vulneráveis ao problema. Não tem a ver com o tamanho das populações. Lógico, o mundo não pode viver com populações como a China, a da Índia, mas o problema é a distribuição dos recursos naturais. Quem, afinal, tem acesso aos recursos naturais? Há outro debate, que estamos acompanhando, no caso dos países megadiversos, como é o caso do Brasil, nós poderemos ter uma inserção internacional, do ponto de vista ambiental, absolutamente impactante quando a gente entrar numa economia 4.0, do ponto de vista biotecnológico. Aí eu sugiro a você que leia os trabalhos do Carlos Nobre, por exemplo. O Brasil é um dos países mais megadiversos do mundo. Quando a gente puder cuidar adequadamente dos nossos ecossistemas, dos nossos biomas, a gente vai poder, não só do ponto de vista das epidemias, mas da economia, ter uma possibilidade de menor desigualdades sociais e melhor qualidade de vida. Poderemos ter uma outra inserção internacional ambiental inacreditável.

Sônia – É, porque, na realidade, o problema não é um número. O problema é que o número promove, junto com o modelo de economia neoliberal, uma desigualdade social planetária, que é o que a gente está vivendo. Vamos, cada vez mais, viver situações extremas como o de “refugiados do clima”, pessoas que estão fugindo de devastações, de secas, de inundações, de mudanças do padrão do uso e ocupação do solo, que impede a produção de alimentos em pequena escala, e também pandemias.

Essa referência ao “paciente 1”, na pergunta, foi para destacar se está clara a ligação dos bichos com os humanos. 

Sônia – Na realidade, os animais silvestres são hospedeiros de vírus patógenos. Essa relação que acontece nos padrões de hábitos alimentares pode ser a forma pela qual aquele hospedeiro natural, digamos assim, estende o vírus para o humano. É uma das teorias apontadas.

Leila – Na verdade, a questão do desflorestamento é fundamental. A gente só vai entender a gripe aviária, o ebola e outras pandemias, e a covid 19, quando a gente começar a ver que isso tem a ver com a devastação ambiental e mudanças climáticas. Há vários vírus na floresta que ainda desconhecemos. Esse vírus, sem o habitat natural, vai procurar outros hospedeiros. Outro ponto: as camadas polares, com o degelo, há milhares de vírus por lá. A gente não tem noção da extensão do número de vírus a partir desse degelo das camadas polares e do aumento do nível do mar. É aí que o nosso artigo entra. Como as mudanças ambientais locais e globais podem ter uma grande interferência nessa proliferação de novos vírus, inclusive a covid 19.

Sônia – Se há um aumento da temperatura, se há o degelo das calotas polares, e se há desflorestamento, com o homem circulando e agindo em tudo isso, então a nossa vulnerabilidade iminente, vai ser muito maior.

Leila – O caso de Wuhan, na China, é um caso muito interessante. O líder local quis esconder os dados do que estava acontecendo. Ele mesmo não sabia exatamente o que estava acontecendo. Mas a população local reagiu. E isso foi parar na OMS (Organização Mundial da Saúde). E a gente soube que começou lá. Essa utilização de animais silvestres pelos urbanos é um problema que nós vamos ter de prestar muita atenção, para além da covid 19.

Sônia – No caso do coronavírus, é um vírus de propagação extremamente rápida. Ele não tem as características de letalidade do ebola, por exemplo, mas mata também. Se tivesse, o número de mortes no planeta seria o triplo. O problema dele é a propagação muito rápida. Eu imagino que, para nós, no Brasil, com a ausência de uma política sanitária efetiva para a pandemia, está sendo um desastre imenso, como os dados de óbitos e contaminação nos apontam. Não é uma coisa simples, lidar com a dimensão do que estamos vivendo. Por isso é que defendemos, no artigo, o exemplo como esse da pandemia, que é diferente do ebola, gripe aviária, que foram endemias, mas não tiveram propagação global e rápida como a covid 19. Como chegou ao Brasil? Através de pessoas que se contaminaram na Europa. Foi muito rápido. Temos que aprender, se é que temos que aprender alguma coisa, é como lidar com esse tipo de situação, que vai ser mais comum daqui para a frente. Diante da ausência de políticas globais para lidar com isso e de posturas de governantes que são contrários a tudo isso por conta de uma pseudo defesa de um sistema econômico, enquanto as vidas estão sendo dizimadas. No nosso caso brasileiro, há 8 meses isolados para tentar nos proteger e proteger os outros. É gravíssimo. Mas a gente pode criar protocolos para lidar com isso no futuro. Precisamos interromper o ciclo devastador de negacionismo e de posições contrárias à importância crucial da ciência.

Leila – É isso. É crucial. Não dá para a gente entender essa questão sem entender a globalização. Globalização e risco têm uma afinidade eletiva que têm a ver com a covid 19 e outras pandemia que ainda não conhecemos. O nosso recado é esse: não é possível que a gente consiga sobreviver a esses governos de extrema direita, como Trump e Bolsonaro, que não aceitam essas situações. O Brasil é o país s mais megadiverso do mundo e isso nos permite pensar numa economia sustentável e mais equitativa para o século 21.

Sônia – Nós defendemos as nossas políticas ambientais. Que são sérias. O Brasil tem as leis ambientais  mais avançadas do planeta. O problema é que, nos últimos dois ou três anos, a gente tem vivenciado a destruição sistemática de nossas políticas ambientais. Os nossos biomas estão sendo destruídos. O que indica é que nossos governantes não têm interesse de que o meio ambiente seja preservado. Mas, sem isso, não temos saída.

Leila – Eu tenho viajado o mundo, acompanhado o debate. A gente foi exemplo mundial de políticas ambientais em vários níveis. Tanto do ponto de vista da conservação, quanto nas mudanças climáticas. A gente formulou e implementou uma estrutura ambiental inegável. Os cientistas participaram do processo. O Brasil é um exemplo no mundo. De repente, esse desgoverno, em dois anos, está destruindo tudo. É sinistro. Estão destruindo tudo o que foi feito em 30 anos e que era um exemplo internacional. Estamos perdendo o nosso protagonismo internacional em termos ambientais. Nós não podemos aceitar mais isso. Não podemos aceitar que a Amazônia, o Pantanal, e todos os outros biomas, a Mata Atlântica, o Cerrado, sejam destruídos por um desgoverno que está colado num agronegócio medíocre, ignorante, que não tem nada a ver com o que o mundo espera de nós. Eu espero, inclusive, que o Trump (presidente Donald Trump, dos EUA) não seja reeleito. Porque a eleição do Trump tem muito a ver com essa extrema direita no Brasil. Eu estou acreditando que o Trump não será reeleito e que tudo isso foi uma passagem dramática.

A sra. acredita que uma eventual mudança de governo lá nos EUA terá impacto imediato aqui?

Leila – Não há dúvida disso. O Biden (Joe Biden, candidato Democrata) fez acordo verde com a sociedade. Além disso, a vice dele (Kamala Harris) é muito interessante, é uma mulher. O Biden vencendo, será muito importante para o Bolsonaro não vencer aqui.

Sônia – Concordo com a Leila, mas gostaria de acrescentar um complemento aí. O acordo desse governo não é com os EUA; é acordo de pessoa-pessoa (Trump-Bolsonaro). Se houver mesmo a vitória do Biden, o que a gente espera que aconteça, acho que o impacto não vai ser tão imediato. Porque o Biden não vai conversar com esse governo, que tenta destruir políticas ambientais e de direitos humanos. Isso, por conta da tradição dos Democratas. Acho que a relação de impacto não será tão imediata. Ela vai ser construída ao longo do governo. Mas tenho certeza do impacto. É óbvio que os defensores dos direitos das mulheres, dos negros, dos gays, das políticas ambientais e de direitos humanos, poderão a voltar a ganhar forças.

 

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