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Os alemães deles e o nosso, Fried

Pablo Pereira

17 de julho de 2010 | 21h10

Muito se falou recentemente sobre a Seleção Alemã de futebol, multiétnica, que ficou com o bronze na Copa da África jogando uma bola redondinha. Choveram elogios à moderna composição do time, que surpreendeu ao usar diversos jogadores de origem estrangeira na disputa esportiva mais nacionalista do mundo. Havia no grupo até um brasileiro, Cacau. Fez bem o técnico deles em escalar o que tinha de melhor sem olhar para a origem do craque. Na hora de a bola rolar, em qualquer atividade humana, vale é a qualidade.

Nos antigos campos paulistanos, essa “novidade” da mistura apresentada pelos alemães já foi bem conhecida. Houve aqui um meio-alemão famoso, Arthur Friedenreich, 1,75 m, esguio e rápido, goleador. Nasceu no bairro da Luz e lutou na guerra por São Paulo, Era filho de seu Oscar Friedenreich, alemão, e de dona Matilde, brasileira, filha de escravos, como lembra Marcos Guterman em O futebol explica o Brasil (Editora Contexto).

Friedenreich, que faria aniversário neste domingo, 18, era garoto que ia mal na escola e bem nos gramados. Foi ídolo do futebol dos primeiros 30 anos do Século 20 e sua história pode ser encontrada em clubes da cidade, como Pinheiros (antigo Germânia), Athletico Paulistano, onde dá nome ao campo e tem estátua, e no São Paulo.

Quando a Copa do Mundo for disputada nos gramados brasileiros, em 2014, o país estará comemorando 100 anos da primeira participação de Fried na Seleção brasileira. Foi num jogo contra o time do Exeter City, da Inglaterra, e no qual o centroavante paulistano deu, literalmente, seu sangue pelo Brasil: perdeu dois dentes numa disputa de bola. Na semana passada, o Instituto Martius-Staden (SP) criou espaço para homenagear “El Tigre” Friedenreich. A CBF também guarda imagens (foto acima) dessa epopeia do jovem teuto-brasileiro que encantou torcidas quando o esporte bretão ainda engatinhava por aqui, trazido por Charles Miller. No meio de brucutus que recorriam à força bruta do rúgbi no controle da posse da bola, Fried criou o drible curto e rápido, refinando o trato da vovó da jabulani.

(Texto publicado em O Estado de S.Paulo) 

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