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Oposição mais forte, o recado de julho nas urnas

Pablo Pereira

27 de outubro de 2014 | 09h50

O eleitor deu seu recado claramente na política nacional brasileira. O governo Dilma/Lula tomou um susto na campanha. Neste domingo, 26, foi no sufoco que conseguiu manter o poder. Nos próximos quatro anos, terá de se recriar para resolver gargalos importantes no país, como controlar o custo de vida e construir saídas para uma significativa massa que quer mais do que renda subsidiada, sem falar da urgente necessidade de combate, sem tréguas, à corrupção, às mamatas e aos parasitas – vide investigações na Petrobrás.

País pobre tem disso: altos índices de carência por serviços públicos, corrupção à solta, gente sofrida e altíssima dependência de atos do governo arrecadador. O país está evoluindo? Sem dúvida. E bastante! Mas o passivo ainda é muito grande. E as novas expectativas crescem na medida da melhora nas condições de vida de uma enorme faixa de gente que entrou no consumo – e quer mais e mais. Ficou claro na urna que os movimentos das ruas não eram brincadeira. A expressão disso é a votação obtida por Aécio Neves, 51 milhões de eleitores.

O projeto tucano não ganha o Palácio do Planalto. Mas desde Fernando Henrique que não reunia tanta força política. No final do primeiro turno, o governador eleito do Paraná, Beto Richa (PSDB), disse, ainda na noite de sua reeleição, em Curitiba, que Aécio Neves teria a capacidade de voltar a unir a militância da Oposição em torno de si. Não deu outra. Ainda não foi suficiente para retornar ao poder, mas foi por cerca de 3 milhões de votos  – 54,5 milhões contra 51 milhões – num universo de 142 milhões habilitados (105 milhões de válidos, 30 milhões na abstenção, com 7 milhões de brancos e nulos).

Aécio perdeu, mas saiu fortalecido. Era um líder regional; é hoje um líder nacional com um discurso claro. E a Oposição parlamentar ao governo federal não vai dar moleza ao Planalto na tribuna do Congresso. Pesos-pesados tucanos, como José Serra, Aloysio Ferreira Nunes (SP), Tasso Jereissati (CE) e Álvaro Dias (PR) – além do próprio mineiro Aécio, estarão vigilantes no Senado. A  bancada governista encolheu e Dilma estará ainda mais na mão dos aliados para formar base parlamentar, principalmente no PMDB, partido do vice Michel Temer.

Dilma foi bem no Rio e em Minas – a terra recém governada por Aécio-, e no Nordeste. Nos últimos dias, acompanhei a campanha e eleição no Ceará, belo lugar, de gente simpática e alegre, com cerca de 6,2 milhões de votantes, um bom espelho do humor do Nordeste, região na qual o projeto de Dilma/Lula tem vantagem sobre Aécio/FHC. Mas também nesse universo regional o recado é bem claro.

Na capital e região metropolitana de Fortaleza, o discurso de Oposição local é forte. E foi carreado para a candidatura do senador Eunício Oliveira (PMDB), que obteve 46% dos votos do estado – 67% da votação na capital -, depois de ameaçar com vitória ainda no primeiro turno. Aécio teve fraco desempenho no Ceará – ficou com cerca de 23% dos votos; Dilma tem mais de 76% do eleitorado. Mas o descontentamento com o governo Cid Gomes, aliado de Dilma, é visível na região de maior renda. Como no resto do país, os vencedores cearenses vão ter de rebolar para atender às demandas dos pobres e das classes médias em expansão. 

Pesquisas. Se no primeiro turno houve dúvidas sobre as pesquisas eleitorais dos dois principais institutos, Datafolha e Ibope, agora eles acertaram na pinta. A variação para presidente em relação ao que saiu das urnas é de até um ponto percentual, ou seja, a confirmação dos levantamentos das intenções de voto captados na véspera. No caso do Ceará, a pegada foi a mesma. O governador eleito, Camilo Santana (PT), teve 53%, também um ponto de diferença em relação às pesquisas.

Parabéns aos envolvidos (nas pesquisas).

  

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