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Onde tem jornal tem história

Pablo Pereira

04 de junho de 2012 | 14h49

Outro dia, olhando os originais de páginas do Estado, publicadas na web pelo Acervo Estadão, uma sensacional contribuição à cultura e a história brasileira, enveredei pelo fascinante Século 19 e embrenhei-me na releitura do livro “Republicanos libertários” (Civilização Brasileira, 2000), de Renato Lopes Leite.

O Acervo Estadão oferece à luz da internet uma espetacular coleção de páginas desde 1875. Sua primeira página digitalizada data de 4 de janeiro daquele ano.  É um deleite para quem tem gosto pela consulta direta ao relato jornalístico de uma época.  Há lá histórias de poder e períodos de escuridão de censura. E textos sobre o episódio  estudado por Renato Lopes Leite.  Como onde tem jornal sempre tem história, e uma história puxa outra, fui ao livro e a o “libertário” calado pelo poder imperial.

Com vasta remissão documental, o livro de  Lopes Leite é também uma delícia. Nele se passam antecedentes relevantes de fatos relatados em uma outra pesquisa de dar gosto que é o trabalho do jornalista Oscar Pilagallo mostrado em “História da Imprensa Paulista – jornalismo e poder de D. Pedro I a Dilma” (Três Estrelas, 2011).

No livro de Renato Lopes Leite (sobre o de Pilagallo tratemos em outro post) vemos detalhes do que foi no País uma das primeiras graves investidas contra um jornal e seu redator – ocorrida há 190 anos.

Trata-se do episódio da prisão e expulsão do jornalista João Soares Lisboa, um português republicano que escrevia no jornal Correio do Rio de Janeiro pregando voto direto para Constituinte e fim da escravidão. Fazia isso 60 anos antes da abolição – em plena convulsão dos meses que antecedem ao 7 de setembro de 1822, cuja imagem o pintor Pedro Américo eternizou,  e que vem a ter o bairro do Ipiranga como cenário.

Pois João Soares Lisboa tinha, em sua luta “libertária” de quase dois séculos atrás, aliados como Frei Caneca (Joaquim do Amor Divino Caneca) e Joaquim Gonçalves Ledo. Com eles formalizou no texto “Representação do Povo do Rio de Janeiro”, de maio de 1822, publicado pela Tipografia de Silva Porto, no Rio, seu apoio à Constituinte. É documento com princípios republicanos para um Brasil federativo, com voto livre.

Esse manifesto de João Soares Lisboa e seus colegas foi de imediato rebatido por monarquistas no documento “Reclamação do Brasil Parte XIV”, organizado por José da Silva Lisboa, posteriormente nomeado Visconde do Cairú, que com o grupo de José Bonifácio de Andrada terminou por vencer a queda de braço política junto a D. Pedro 1 naquele momento delicado da formação nacional.

São momentos tensos da história de 1822, ocorridos exatamente nesta época do ano, meses de maio e junho. E com desdobramentos trágicos para o radical João Soares Lisboa. Ele foi acusado pelo próprio Imperador de “crime de injúria atroz”. Julgado por um dos primeiros júris populares do País, foi absolvido.

Mas em 22 de outubro, portanto pouco depois da declaração da Independência, como explica o pesquisador Lopes Leite, Soares Lisboa teve seu jornal fechado e foi acusado de conspiração. Foi para o degredo em Buenos Aires. Voltou ao Rio no ano seguinte, e novamente foi preso.

Lopes Leite lembra que Soares Lisboa publicou seu jornal de dentro da cadeia até ser anistiado, em novembro de 1823, sob o compromisso de abandonar o Brasil para sempre. Mas resistiu. Em Pernambuco, aderiu à revolta da Confederação do Equador. E foi morto em batalha em 1824.

Veja texto do Estado sobre  “O primeiro processo de Juri de Imprensa sob D. Pedro I”

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