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O triste turismo sem vergonha do Brasil

Pablo Pereira

12 Novembro 2013 | 12h39

Outro dia estive no Rio de Janeiro para uma reportagem sobre o empresário Eike Batista. O Rio é um belo lugar. Mas, como muita coisa no Brasil, anda pelas beiradas em muitos quesitos. Na recepção do hotel, em Copacabana, ouvi uma coisa triste. Era um grito que dizia muito sobre a realidade do mais famoso cartão postal brasileiro. Um rapaz chamava turistas europeus: “Favela tour, favela tour”!

O guia de passeio recolhia interessados na visita a um “ponto turístico” carioca. Chovia e o Cristo Redentor estava escondido. O Pão de Açúcar, idem. Praia, sem chance. Então lá foram eles, na van, curiosos como crianças no caminho do zoológico.

Foram ver os pobres brasileiros que vivem na miséria das montanhas encobertas pelo descaso de uma sociedade sem vergonha, corrupta, chinfrim, ruim, perversa, um povo que mantém aquele nervo exposto há décadas.

Duvido que a miséria mostrada aos turistas da Rocinha e do Alemão seja indispensável para a alma da cidade de Machado de Assis. Duvido que a pobreza e o desamparo sejam parte necessária da criatividade do samba, da perspicácia, da arte de viver devagar, daquelas milhares de criaturas que há gerações são obrigadas à penosa existência nas “comunidades”.

Recuso-me a crer que os “cariocach” dos morros não tenham inspiração para compor e cantar a magia que lhes emprestam aquelas paisagens maravilhosas, cortadas por colinas, mar e lagoa, se lhes for garantido o acesso aos bens de consumo das casas do asfalto.

Como na violenta e também desigual metrópole paulistana ou na distante capital nacional das fossas, Macapá, são vítimas de uma inominável preguiça geral e de uma letárgica e criminosa omissão de governos e mais governos. Formam uma enorme massa de gente usada bastante como moeda eleitoral, na maior cara de pau. E que vive a servir de bicho de gaiola para turistas.

Há por aí a discurseira oficial dos “nunca antes neste país” e de outros “entendidos, letrados”. Mas ainda falta muito, muito mesmo, para que o país possa encher a boca para se dizer uma democracia!

“Favela tour, favela tour”!, gritava o homem.

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