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O monge Guido e o domingo em São Paulo

Pablo Pereira

21 Março 2010 | 10h05

Eles entraram pela grande porta lateral, de madeira, saídos do claustro, vestindo túnica rosa, a cor da alegria, cor do quarto domingo da Quaresma, na semana passada. Dois sacerdotes caminharam sem pressa até o altar. Na frente, um grupo, com roupas brancas, velas e incenso fumegante; atrás, outro, com vestes pretas e livros de cantos.

Eram esperados havia bem uns 30 minutos. A igreja, cheia. Gente em pé pelos corredores, se abanando, na manhã abafada. Cada movimento do cortejo, como uma procissão centenária, foi acompanhado pelos olhos atentos dos fiéis, em silêncio. Sob a solene e altíssima nave central da igreja, os religiosos iniciaram a missa das 10h, tradicional em dias como hoje.

A cerimônia lembra hábito das pequenas cidades bucólicas. Mas a cena ocorreu aqui pertinho, no centro antigo de São Paulo, no Mosteiro de São Bento. A igreja fica no Largo de São Bento, final do Viaduto Santa Efigênia. Foi construída há um século. Em 1600, o local abrigou a primeira palhoça religiosa dos monges neste solo, no alto da colina-mãe da cidade.

A missa do Largo de São Bento é mais do que um acontecimento dos católicos. É uma atração paulistana. No último domingo, caravanas assistiam à missa encantadas com o ambiente. Durante o ritual, os monges voltam no tempo em seus cânticos, viajam mil anos atrás, vão aos claustros da Toscana, ao beneditino, como eles, Guido D`Arezzo (955 a 1050 d.C.).

Foi na italiana Arezzo que Guido Monaco se dedicou ao alfabeto dos sons a partir dos apontamentos medievais e fundamentos gregos. E deu nome às notas. As sílabas de Guido (dó, ré, mi, fa, sol, la, si) são as iniciais do hino de São João, em latim:

UT queant laxis, (mudado para Dó)

REsonare fibris,

MIra gestorum,

FAmuli tuorum,

SOLve polluti,

LAbii reatum,

Sancte Ioannes. (SI)

Em português (segundo o site da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo): “Para que possam ressoar as maravilhas de teus feitos com largos cantos, apaga os erros dos lábios impuros, ó São João”. Hoje, a voz dos cantores voltará a encher a igreja com a música que o monge Guido ajudou a criar matutando sobre uma matemática de 1.500 anos. E com aroma de incenso.

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