O jogo pesado das relações internacionais
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O jogo pesado das relações internacionais

Pablo Pereira

29 de fevereiro de 2012 | 12h03

O episódio da suspensão da compra dos aviões da Embraer pelos EUA, com as pressões políticas internas norte-americanas batendo direto no Brasil, lembrou-me a leitura do livro “Missões Silenciosas” (Bibliex, 1986), do general Vernon Walters, que foi adido militar de Washington no Rio no início dos anos 60. Então coronel, Walters, que era amigo do presidente Castello Branco, com quem servira na Segunda Guerra, recebeu uma mensagem escrita de Washington pedindo sua interferência para libertação de três norte-americanos presos em Brasília por contrabando.

A pressão, segundo Walters, era forte. No livro, o militar se diz constrangido, uma vez que os sujeitos haviam confessado o crime não só às autoridades brasileiras, mas também à embaixada dos EUA. A ordem, no entanto, era para que ele usasse sua proximidade com Castello para libertar os contrabandistas a pedido de um senador americano, do mesmo estado dos criminosos. O político ameaçava boicotar uma votação no Congresso caso não conseguisse a libertação.

“Fiquei estarrecido com a atitude de um senador que condicionava seu voto de maneira tão singular, ao invés de considerar o que era realmente do interesse dos Estados Unidos”, escreve Walters. Mas, mesmo assim, foi a Castello fazer o pedido após de ter recebido uma segunda ordem, desta vez do próprio secretário de Defesa, Robert McNamara. Segundo o relato de Walters, depois de dizer ao presidente brasileiro que estava “constrangido” em abordar tal assunto, Castello pensou, e disse:

“- Walters, você é suficientemente perspicaz para não pedir, por iniciativa própria, que eu faça qualquer coisa menos digna. É evidente que lhe deram ordem para proceder assim e, se você concordou em falar comigo, é porque o assunto tem para os Estados Unidos uma importância especial que não percebi. (…) Dê-me um tempo para pensar”.

Walters ainda faz algumas considerações a respeito da “vergonha” que sentia diante do fato, afinal tratava-se de uma relação que, para além da liturgia dos cargos, abrangia também uma antiga relação pessoal forjada em tempos de guerra. “Esta foi uma perfeita demonstração de arrogância”, confessa ele no livro, referindo-se aos EUA.

Em seguida, porém, o general conta que “pouco depois, os prisioneiros ‘fugiram’ para um aeroporto isolado, onde, como que por acaso, um avião os esperava, tirando-os do Brasil. Nunca soube se essa fuga teve ou não qualquer ligação com meu pedido”. E acrescenta: “De qualquer forma, não foi uma atitude de que possa orgulhar-me”.

Coisas das relações internacionais.

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Vernon Walters com Jacqueline Kennedy no aeroporto de Roma, em 1961 Foto: Reprodução

 

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