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O drama dos sem-trabalho em Salvador, a capital do desemprego

Pablo Pereira

12 Junho 2016 | 11h40

Outro dia, mandado à Bahia, andei metido mais uma vez com a dureza da vida de brasileiros pobres e sacrificados. Passei dois dias percorrendo de manhã, tarde, noite e madrugada a rotina de gente que perdeu o emprego e tenta sobreviver num país de crise generalizada em uma das regiões de mais altos índices de desocupação forçada: a cidade de Salvador. Tentava entender aquele quadro regional. A bela Bahia de João Gilberto, Gil e Caetano teve uma relevante industrialização marcada no petróleo nos anos 70 (Aratu e Camaçari) e, mais recentemente, novo ciclo de investimentos principalmente no setor de carros e petroquímica. Hoje está com desemprego em 15,5%, segundo dado trimestral do IBGE. Isolada, Salvador tem taxa de 17,4% de desocupação. É a capital nacional do desemprego.

Salvador é uma cidade de serviços, disse, gentilmente, o professor Paulo Balanco, da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em uma breve conversa por telefone na semana passada. A região tem fraca acumulação capitalista, depende muito das verbas federais, explicou o professor. E tem dificuldades para criar volume de mão-de-obra qualificada, emendou, ressaltando a “alta informalidade no mercado de trabalho”. E essa informalidade mascara a realidade do mercado. Para Balanco, a região ainda carrega “uma herança perversa da escravidão”.

Ele recordou que no mais recente ciclo de expansão da economia, época de vacas gordas – em dezembro de 2012 o desemprego por lá esteve em 5,7%, o pleno emprego baiano -, houve uma explosão no comércio. Surgiram mais shoppings e houve até mudança de hábitos dos jovens. No campo, trocou-se o jumento pela moto. Na capital, o pessoal deixou de ir à praia para curtir ar-condicionado e passear nas lojas de grife. Agora, a crise mudou as coisas e fica mais clara a incapacidade regional de acomodação no mercado de trabalho.

O desemprego na Região Metropolitana de Salvador (RMS) estourou nos últimos meses chegando a 18,4% (no trimestre), a mais alta das seis regiões pesquisadas no País pelo IBGE. Nas contas de outro estudo, realizado pelo Dieese/Seade, a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), a taxa de desocupação é ainda maior – já bate em 23,4% em abril, a mais alta desde 2007, apontando, portanto, para uma retração de quase uma década no mercado de trabalho baiano. Na PED, o pesquisador entrevista também o trabalhador desocupado que procura emprego mas está fazendo bico pra se manter (desemprego oculto), mais aquele que já desistiu de buscar vaga formal ( desemprego por desalento).

A reportagem pode ser encontrada no Estado deste domingo, 12, ao lado do material da colega Naiana Oscar, que relata situação bem diversa em Blumenau, na não menos bela Santa Catarina.

Também gentilmente, o economista e professor da Faculdade de Economia e Administração da USP/Ribeirão Preto, Sergio Naruhiko Sakurai, aceitou comentar o assunto. Para ele, há claro impacto da crise econômica nacional sobre essa região da Bahia destacada nas pesquisas. Abaixo, trecho de respostas do professor da FEA de Ribeirão Preto, enviadas por e-mail.

Há diferenças regionais relevantes (quais?) entre o mercado de trabalho da RMS e o das demais capitais, como São Paulo, por exemplo, ou Recife e Fortaleza (Nordeste)?

Sakurai – Tomando como base o último boletim “Síntese metropolitana” do Seade-Dieese, em abril de 2016 a taxa de desemprego foi igual a 18,6% no Distrito Federal, 13,6% em Fortaleza, 10,5% em Porto Alegre, 16,8% em São Paulo e 23,4% em Salvador. Mais importante do que isto, nota-se que em praticamente todas as regiões houve elevação da taxa de desemprego na comparação abril em relação ao mês imediatamente anterior (março) e em relação ao mesmo mês do ano anterior (abril de 2015). Há, portanto, um quadro generalizado de aumento do desemprego, muito embora algumas regiões estejam em situação mais difícil do que outras.

Por que ocorre essa taxa alta de desocupação em Salvador? É o que chamam de industrialização tardia na região?

Sakurai – Se este aumento do desemprego fosse específico de alguma região ou de algum mês, até poderíamos dizer algo diferente. Mas em um contexto de aumento generalizado no tempo e no espaço é realmente consequência do quadro de forte retração da atividade econômica.

Há impacto da atual crise da nacional, econômica e política.

Sakurai – Sim, certamente. Ainda não é possível dizer que a mudança de equipe econômica já mudou a percepção dos agentes, mas havia uma percepção bastante ampla de que a equipe econômica anterior não conseguia mais pensar em formas de recolocar a economia brasileira no devido lugar e, mais do que isso, que o governo anterior não tinha mais vigor político para conduzir a economia brasileira. Fica a percepção de que a falta de força política do governo anterior explica uma parte razoável do enfraquecimento econômico do País.

Em dezembro de 2012, a RMS chegou a ter taxas de desemprego de 5,7% (IBGE). Havia planos e grandes obras públicas e até um estádio, a Fonte Nova, novo para a Copa do Mundo. Qual o peso das obras públicas nesse processo de desemprego?

Sakurai – Eu acho que o fim destas obras pode explicar parte deste aumento do desemprego na RM de Salvador. Mas se fosse só por causa delas este efeito já deveria ter diluído significativamente e não deveríamos estar observando crescimento do desemprego nos dias atuais. Contudo, na prática, o que temos observado é realmente um aumento do desemprego, ou seja, a região parece estar em sintonia com o enfraquecimento generalizado da economia. O fim de obras públicas, inclusive as da Copa, não é fator suficiente para explicar tamanho aumento do desemprego.

Qual a saída para uma economia como esta em uma situação de pressão como a brasileira?

Sakurai – Em uma situação severa como esta que estamos passando, é preciso distinguir com clareza políticas que geram efeito paliativo momentâneo daquelas que resolvem definitivamente nossos problemas. É deste último perfil de políticas que estamos precisando – e não é de agora. Muito se fala de reformas importantes, como a trabalhista e a previdenciária, e elas são importantes, mas entendo que seja preciso repensar o próprio papel do setor público na economia brasileira – temos um governo muito grande, muito caro e muito fraco. As crises naturalmente geram custos sociais e econômicos grandes, mas elas também são oportunidades para que os problemas sejam realmente notados e as mudanças importantes sejam feitas, caso contrário, fica aquela permanente sensação de que “está tudo bem e portanto, não há nada que precise ser melhorado”. A nova equipe econômica me parece estar bastante consciente disto, mas isto não é suficiente. A própria sociedade também precisa estar e entender que, para voltarmos a crescer no futuro com nossa própria capacidade, vai ser necessário hoje adotar medidas “amargas” e assumir suas consequências.

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