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No IML de Recife, a realidade da morte e do serviço público

Pablo Pereira

02 Julho 2016 | 16h02

Passei quatro dias fazendo plantões no IML de Recife. Da manhã à noite, com sol ou chuva, acompanha-se ali o drama humano do contato direto com a morte, em geral de maneira violenta ou por causas desconhecidas e suspeitas. O sofrimento nos rostos, a constatação clara das fraquezas e das mazelas mais temidas da vida e o desamparo das perdas são presenças constantes na rua do cemitério de Santo Amaro. Nos dois quarteirões de lojas funerárias de um lado da rua e dos andares de gavetões e capelas de velórios de outro, tudo tem algo a ver com o fim. Na esquina está o prédio do IML, onde legistas e técnicos passaram mais de uma semana fazendo laudos sobre o corpo do empresário Paulo César de Barros Morato, homem encontrado morto em circunstâncias misteriosas na terça-feira, dia 21, depois de iniciar uma fuga da Polícia Federal (leia reportagem no Estadão deste domingo).

A PF caçava uma turma que lavou mais de meio milhão de reais, dinheiro usado para irrigar uma rede de apoio a políticos, de 2010 e 2014, principalmente do ex-governador Eduardo Campos. O então candidato presidencial morreu no acidente de avião em Santos em 13 de agosto de 2014. O avião em questão foi pago, segundo as investigações da PF, pelo dinheiro que passou pelas contas de testas de ferro e laranjas manejadas por um grupo do qual faziam parte o empresário envenenado com mata-ratos num motel da periferia de Olinda e por pelo menos outros quatro que estão presos.

À espera da conclusão dos laudos na portaria do IML foi possível ver que a presença de imprensa até contribuiu com a gente que usa aquela repartição. O governo mandou dar um tapa na fachada, pintar até os muros. De repente, tudo ficou bem clarinho. Mas só por fora. Por dentro, a coisa era bem escura. Um equipamento quebrado, por exemplo, empurrou parte dos exames de Morato para o IML da Paraíba, onde foi constatada a presença do chumbinho nas vísceras do morto. Os servidores resmungam aqui-e-ali contra as condições de trabalho.

Denunciada essa necessidade da transferência do material pelo sindicato dos policiais, o governo correu a justificar que a tal máquina estava em manutenção e que um servidor, por conta própria, pegou a estrada até João Pessoa para fazer o trabalho. Ossos do ofício, que poderiam não existir. Mas se o Estado é campeão da patética calamidade da microcefalia de bebês por causa da zika, como esperar que haja atenção de autoridades com aquele setor? Não há recursos nem para a devida atenção com a saúde, com a vida. Por que haveria para com o IML, com a morte?

Neste caso dos laudos do empresário enrolado com corrupção, na verdade, delegados, agentes, burocratas, peritos criminais e peritos papiloscópicos já batiam cabeça desde a noite do dia 22 na inusitada cena da suíte número 2 do motel Tititi. Encontrado o corpo de Morato, o cenário foi violado, foi um entra-e-sai do quarto que quando o povo da polícia científica chegou, já era. Nada estava preservado.

Como miséria pouca é bobagem, na tarde de quinta-feira havia lá 18 cadáveres aguardando liberação. Pela portinhola dos fundos, por onde funcionários entregam os corpos às famílias, saía um carro funerário atrás do outro. E uma funcionária ouvia, contrariada, reclamações de agentes funerários zelosos para entregar aos clientes o melhor serviço – queriam corpo mais bem arrumado dentro do caixão. Mas, com aquela fila, de que jeito?

Um enterro em Recife, segundo vendedores de caixões e cerimônias que ficam pela rua, pode custar de R$ 800 a R$ 12 mil, de acordo com o interesse ou luxo desejado pelo freguês. Basta o responsável pela retirada do cadáver entregar a ele o atestado de óbito – e aguardar. O documento é obtido na sinistra porta pela qual, de tempos em tempos, sai um funcionário do IML com um papel na mão chamando “familiar de fulano está aí”. O resto da tarefa, do registro em cartório à preparação do corpo, das coroas e transporte ao túmulo, é com o pessoal das lojas.

Pode ser até menos burocrático, parecer consolo, mas não é mais fácil para as famílias. E demora. Há gente que fica por lá perambulando dias à espera da liberação do documento com a causa mortis. Em geral, pessoas de aparência humilde, que dependem do serviço público até na hora bruta, se acumulam no pátio. E a toda hora chega mais carro de polícia carregando mais uma história da violência brasileira, mortos e vivos.

No setor de análises e laudos de corpo de delito, presos escoltados andam algemados dos carros de polícia às salas de vistoria na parte interna do complexo. Na última quarta, dois rapazes, ladeados por policiais grandes e de roupas pretas, caminhavam devagar arrastando correntes nos pés e com mãos às costas ornadas com brilhantes algemas. Estavam à espera de peritos para, eventualmente, depois seguirem para alguma cadeia superlotada – tipo cemitério para vivos. Este, aliás, outro cenário dantesco – que até o STF já reconheceu como inconstitucional no país.

E  há ainda uma sala somente para os exames de traumatologia, ao lado do setor de liberação dos cadáveres. Em geral, também cheia de gente esperando por um papel.  Do lado de fora, na calçada, As tias de café de térmica e quitutes faturam com a lentidão do dia. Vendem de cocada a cachorro-quente. Café de copinho é R$ 0,30. Cocada, R$ 0,50; o hot dog, R$ 5, dependendo dos ingredientes, que, afinal, nestes tempos de crise todo mundo é filho de Deus.

Indignados com parte da situação, principalmente da categoria dos policiais que lá trabalham, sindicalistas criticam a administração pública estadual. Defendendo os funcionários, dizem que a cúpula da Secretaria de Defesa Social (SDS) compromete o caso Morato e a imagem da Polícia Civil de Pernambuco.

Nota divulgada neste sábado, 2, diz que “a partir das denúncias sobre ingerências na atuação da Polícia Civil de Pernambuco no caso P.C. Morato, uma sucessão ‘de trapalhadas’ aconteceu na condução e divulgação do caso. No dia seguinte a ocorrência, o Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (Sinpol-PE) recebeu a denúncia de que a equipe de peritos designada para dar continuidade a perícia papiloscópica, iniciada na noite anterior, foi impedida de realizá-la”. O sindicato pede a demissão do secretário de Defesa Social de Pernambuco, Alessandro Carvalho. “Estamos lutando por uma polícia que não investigue apenas ladrões de galinhas, mas também investigue e prenda os ‘capas pretas’, responsáveis pela corrupção, que é o maior mal que nosso estado e o nosso país têm enfrentado. Ela precariza os serviços públicos e desvaloriza seus servidores”, diz na nota o presidente do Sinpol, Áureo Cisneiros.

O governo se defende dizendo que tudo não passou de uma falha de comunicação entre as equipes investigadoras da Polícia Civil e que há exploração política no caso. Na PF, o discurso é o de se aguardar o trabalho da polícia civil pernambucana. E o superintendente da PF em Pernambuco, Marcello Cordeiro, não vê necessidade de entrar no caso, pelo menos por enquanto. Morato, segundo Cordeiro, era operador que conseguia coletar CPFs e documentos de “laranjas” para esquentar o dinheiro.

 

A Justiça já bloqueou R$ 1.654.600,00 nas 18 contas investigadas. Até agora as contas mais endinheiradas são de empresas – R$ 820.832,00 em uma e R$ 250.518,00 em outra. Mas entre as contas de pessoas físicas há uma com R$ 450.522,00. E há também contas, como a de um dos presos, nas quais a PF deu com os burros n’água: o saldo é de R$ 7,11. E em pelo menos uma das contas de Morato o valor encontrado foi de R$ 0,03.

Para a PF,  a conta raspada não causa surpresa. Nos últimos meses, o esquema estava funcionando à base de dinheiro vivo, por fora do sistema bancário. Nos bastidores, investigadores que acompanham o caso apontavam, na semana passada, o suicídio como a causa mais provável da morte do empresário.

Porém, quem conhecia bem Paulão, como era chamado pelos amigos de Tamandaré, onde teve um pequeno comércio de telefones celulares e morou pagando aluguel, a história não bate. E a hipótese do suicídio soa estranha. Obeso, Paulão tomava remédios para hipertensão e diabetes, alguns encontrados com ele no motel. Mas um dos principais amigos, o padre Arlindo Júnior, conhecido da família, se nega a acreditar no suicídio. E rejeita as alcunhas de “testa de ferro”, “laranja”, “chefe de esquema”. Para o padre, que o conheceu desde criança e em 2009 fez o casamento dele na Igreja Matriz de São Pedro, em Tamandaré, Paulão “era um homem alegre, um batalhador”.

(Texto atualizado sábado, 2, 20h)

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