“Niède está tomando uma rasteira”, diz morador que há 21 anos ajuda a cuidar do patrimônio
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“Niède está tomando uma rasteira”, diz morador que há 21 anos ajuda a cuidar do patrimônio

Pablo Pereira

28 Agosto 2016 | 11h50

Nos anos 90, quando a arqueóloga Niède Guidon articulava a formação do Parque Nacional da Serra da Capivara, um garoto de 14 anos andava nas terras do avô em busca de caça dentro da caatinga que envolve o povoado de Mocó e os estranhos morros e desfiladeiros na BR 020, sudeste do Piauí. Mario Afonso Paes Landim, o Marinho, hoje tem 37 anos e é um ferrenho defensor da arqueóloga e da obra dela na região.

Ele conta que o sobrenome não tem parentesco de sangue com os Paes Landim do vizinho município de São João do Piauí, que têm dinheiro e representação política em Brasília com o deputado federal José Francisco Paes Landim (PTB). Ocorre, segundo Marinho, que um antigo empregado da família do deputado foi autorizado pelos patrões, em priscas eras, a pedir crédito no comércio da cidade. Depois desse aval nominal, explica Marinho, o homem terminou por incorporar a alcunha dos ricos ao nome. “Isso é muito comum por aqui. Daí que vem o nosso Paes Landim. Mas é outra família”, argumenta Marinho.

Quando o avô de “Marinho Paes Landim” teve as terras desapropriadas para a formação do parque, nos anos 90, o adolescente viu no conhecimento que tinha da região uma oportunidade para mudar de vida. Há 21 anos ele é vigia e guia de visitas no Parque Nacional da Serra da Capivara, onde recebe um salário líquido em torno de R$ 2.200, considerado bom rendimento para a isolada São Raimundo Nonato. A cidade tem 33 mil habitantes e fica a 303 quilômetros de Petrolina, em Pernambuco, e mais de 500 quilômetros da capital do Piauí, Teresina.

Marinho conhece cada palmo da área na qual está um dos símbolos da preservação do PNSC, a Pedra Furada, uma rocha que se ergue separada do complexo de penhascos, desfiladeiros e montes de seixos do tempo muito antigo, quando ainda havia muita água no sertão e que compõem o cenário pré-histórico do lugar. Por ali paleoíndios inspirados desenharam seu modo de vida nas paredes, vistos por turistas estrangeiros e também por excursões de colégios de São Paulo, que todos os anos levam turmas para conhecer aquele pedaço ancestral do Brasil.

Pedra Furada

“Eu cresci ali e conheço tudo”, diz Marinho, lamentando a atual situação de abandono do parque. “Foi a doutora Niède quem levou os meninos de Mocó para estudar no Diocesano e quem preparou muita gente na Fumdham”, conta. Ele afirma que “o pessoal da cidade”, que há décadas convive com os projetos científicos, sabe que agora “a doutora Niède está tomando uma rasteira”.

 

“Parque dá emprego, mas é pouco”, critica comerciante

Defendida na manhã da última sexta-feira, 26, em uma passeata que reunia funcionários demitidos do PNSC, além de um grupo de cerca de 30 guariteiras que estão sob ameaça de ir para a rua na próxima semana, mais 34 guardas de portaria que não recebem salário desde abril, a arqueóloga Niède Guidon, porém, também tem críticos entre os moradores de São Raimundo Nonato. “Ela faz esse barulho todo ano, quando começa a faltar dinheiro para os projetos dela”, afirma o comerciante José Neiva Ribeiro de Souza.

Segundo o comerciante, que tem banca de comércio popular no Mercado Central da cidade, “esse dinheiro todo reverte lá pra ela”, afirma. “Não vejo tanto benefício pra gente da cidade”, declara. José Neiva afirma que os recursos do governo federal, cerca de R$ 380 a R$ 400 mil mensais, repassados para a Fumdham, “talvez nem devessem mais ir para esse parque”. Segundo ele, “o parque dá emprego, mas é pouco. E os turistas que chegam aqui não compram uma camisa, um vestido aqui”, argumenta.

O pessoal da indústria do turismo, porém, discorda. Na sexta-feira, um hoteleiro da cidade calculava que o parque e o Museu do Homem Americano da Fumdham atraem cerca de 50% da ocupação anual do estabelecimento dele, que fica no centro. “Se fechar, vai dar prejuízo sim”, explicava.

São Raimundo Nonato é uma comunidade que sobrevive do comércio e serviços movimentados principalmente por verbas públicas. De acordo com o IBGE, “o valor do rendimento nominal médio mensal dos domicílios urbanos é de R$ 1.781,63.” O vendedor de produtos agrícolas do Mercado Central, Ronilvo Afonso de Carvalho, defensor do parque e de Niède Guidon, conta que “o que se come em São Raimundo é tudo de fora, da Bahia e Pernambuco”. E emenda: “É a seca”.

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