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Nas ruas, a indecência de uma miséria consentida

Pablo Pereira

02 de fevereiro de 2021 | 13h09

A revista alemã Der Spiegel publicou na semana passada, dia 26, uma reportagem sobre a trágica situação de brasileiros afetados pela miséria agravada pela pandemia. O relato jornalístico, que deu voz a gente que foi morar na rua no mais terrível desamparo após a perda do emprego provocada pelo avanço descontrolado da covid-19 no País, é de uma tristeza imensa e revoltante.

Tristeza, sim, pois resume o sofrimento de milhares de pessoas obrigadas à penúria, sem renda suficiente para sustentar a família, para se alimentar, morar, tomar um banho. Gente sem perspectivas de trabalho decente e nem poupança exatamente na hora da pior crise de uma doença sem cura e em expansão. Mais de 14 milhões de pessoas sofrem no desemprego, segundo os dados do IBGE no encerramento do ano de 2020. Boa parte desse pessoal foi literalmente para a rua na gestão brasileira da pandemia.

Revoltante, também, ao revelar como um país com lideranças medíocres pode levar seu povo ao fundo do poço e mantê-lo lá, por meses, anos até, privado do acesso às oportunidades de vida melhor por políticas desastradas e interesseiras.

O dramático quadro brasileiro apresentado aos leitores da revista europeia, infelizmente, é conhecido de mais tempo no Brasil. Não só pelo abnegados voluntários que doam pão e sopa aos atuais desempregados aglomerados em barracas no gramado das praças. Ou solitários e famintos na calçada da padaria, ironicamente uma instituição da alimentação paulistana.

Esse ambiente de sofrimento é largamente sabido, há anos, pelas autoridades do Legislativo e pelos governantes, que têm, eles, sim, farto café na mesa diariamente e salários garantidos todo mês pela máquina da arrecadação compulsória de impostos. É de uma desfaçatez monstruosa. Um descalabro exercido por uma sociedade que faz de conta que não vê a miséria. Usa-a, beneficia-se dela. Mais revoltante, ainda, porque é ignorada igualmente por um grupo fundamental no jogo de poder da República: o Judiciário, que deveria agir, mas se mantém calado.

Um exemplo: no dia 14 de fevereiro de 2020, portanto um mês antes do estouro da pandemia no Brasil, o Estadão publicou reportagem que descrevia a dureza desta realidade, agora revisitada pela publicação alemã. Sintetizava ali, vai fazer um ano, as trevas vividas por gente forçada ao desamparo – não nos fundões distantes da castigada Manaus, mas, sim, nas ruas de São Paulo, a unidade federativa mais endinheirada do País. Àquela altura, lamentavelmente, os abandonados já faziam parte da paisagem urbana. Chamava-se ali a atenção principalmente para as mães que são obrigadas a criar os filhos na rua lutando por eles como se estivessem na escuridão da mitológica caverna de Platão, aquele pensador que inspira republicanos.

E os privilegiados sabem que foi dali, das entranhas da obra do filósofo grego, de 2.400 anos atrás, que ganhou força na humanidade o debate sobre o que são justiça e injustiça. Conceitos tão presentes no cotidiano dos eminentes operadores do direito nas cortes, da Amazônia aos pampas, passando pela escola do Largo São Francisco.

O que se vê, porém, é um sistema de valores que está prontinho para, implacável, aplicar religiosamente as leis quando esses egressos do subterrâneo platônico emergem alucinados pela privação, vivida da infância à maturidade, em busca da luz. Observadores da atualidade costumam explicar isso tudo, como faz o americano Cornel West, por exemplo, como a sociedade que prolonga uma proposital e vergonhosa falta de decência.

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