Música para formar cidadãos
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Música para formar cidadãos

Pablo Pereira

04 Julho 2018 | 17h06

A música como atrativo para o aprendizado da cidadania. Essa foi a receita adotada pelo grupo de educadores de um projeto social de São Paulo que reúne cerca de 200 crianças de 23 comunidades carentes da Vila Andrade, no Morumbi, zona sul da capital. Numa apresentação especial em junho, pelo menos 120 crianças e adolescentes da Dream Orquestra, iniciativa da Associação Morumbi de Integração Social (Amis), participaram da abertura de um espetáculo na Sala São Paulo, um dos principais palcos eruditos do País.

 

Orquestra de crianças e jovens da Amis Associação Morumbi de Integração Social na Sala São Paulo/ Foto: JF Diório/Estadão

 

“Há talentos musicais entre as crianças, mas a principal orientação nesta fase do nosso projeto é a educação de base”, afirma a maestrina Regina Hiromi Kinjo, que integra o projeto da ONG responsável pelo trabalho social. Ela argumenta que a convivência das crianças no projeto ajuda também no comportamento do grupo. “Hoje eles já entram e saem da sala sem correria”, explica a maestrina. Com 20 violinos, violas e violoncelo, instrumentos doados que foram recuperados e preparados para a turma pelo Ateliê de Luteria de São Paulo, o projeto da orquestra de crianças e adolescentes mantém também um coral.

Segundo a gestora da ONG, Ester Leão, de 60 anos, o projeto usa recursos da Lei Rouanet e serve de opção para crianças de áreas carentes de uma região. “Nós temos 13 projetos sociais na ONG, como dançaesportes e, entre eles, estão o coral e a orquestra, criada no ano passado”, conta a gestora. “Identificamos que nesta região do Campo Limpo, Capão Redondo, Vila das Belezas, não havia nenhuma iniciativa como aquela que há em Heliópolis, por exemplo”, diz. A comunidade de Heliópolis é famosa pelo trabalho do Instituto Baccarelli, que forma cidadãos no mesmo sentido, com resultados reconhecidos na comunidade internacional. Ester revela que buscou autorização no Ministério da Cultura para captar até R$ 391 mil pela Lei Rouanet, mas que chegou apenas ao valor de  R$ 120 mil no ano passado. A solicitação do uso do incentivo fiscal deve ser renovada para o próximo exercício, diz ela.

“Nossa ideia é prosseguir e já estamos com 190 crianças. Há carentes, mas também outras crianças do bairro fazem parte”, declara Ester. Ela lembra que a ideia foi inspirada exatamente na atuação do Instituto Baccarelli, que conta com a regência do renomado Isaac Karabtchevsky. Ester diz ainda que além da maestrina Kinjo, a equipe dela tem os músicos Eliézer Motta e Jucivan Alves dos Santos, coordenador do projeto, que já passaram pelo Baccarelli. Segundo Ester, a ideia que está em andamento no Morumbi tem o apoio da Igreja Batista da região.

Durante a abertura do espetáculo da Orquestra New Life Symphony e da Orquestra de Câmara do Mackenzie, na Sala São Paulo, os pequenos se apresentaram orientados pela maestrina. Muitos deles nunca tinham entrado num espaço como aquele. “Foi uma oportunidade que a gente normalmente não teria”, diz a técnica em imobilização hospitalar Maria Luiza Ferreira de Carvalho Medrado, de 35 anos, mãe de Raul, de 8 anos, um dos integrantes do coral, que acompanhou o filho na apresentação. Ela conta que está desempregada e que os ingressos para os pais assistirem à estreia foram distribuídos pela ONG. Raul estuda na 8ª série da EMEF Francisco Rebolo, escola do bairro.

Para o adolescente Eduardo de Oliveira de Sá, de 12 anos, que está aprendendo a tocar violoncelo, a visita à sala de concertos foi “muito legal”. Ele nunca tinha ido ao local e gostou da oportunidade de tocar e cantar no coral. “Eu toco violoncelo e gosto também do saxofone”, explicou o garoto no dia seguinte à apresentação. Estudante da 7ª série do colégio Porto Seguro, morador da Rua Chicó Gomes, ele costuma frequentar as aulas de música duas vezes por semana, às terças e quintas -feiras, por uma hora, durante a tarde.  Eduardo contou ainda que o irmão dele, Gustavo, de 8 anos, também está no projeto, e toca violino. A mãe deles, Vera, explica que a família incentiva a participação dos meninos na orquestra. “Eles gostam de lá e, se depender de mim, vão continuar com a música. A gente incentiva sim”, afirma Vera.