Maria Moura, a cozinheira que sobrevive no meio do caos da Cracolândia
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Maria Moura, a cozinheira que sobrevive no meio do caos da Cracolândia

Pablo Pereira

16 de janeiro de 2012 | 21h34

“Maria, tem comida?”, disse um homem magro, barbado, agitado, que atravessou correndo a rua Dino Bueno, Centro de São Paulo, na direção da calçada onde Maria Moura Soares estava diante da porta de casa. “Ainda tem”, respondeu ela. “Mas é 5”. O homem, que saiu do meio do grupo que se aglomerava na rua Helvétia, coração da Cracolândia, tirou do bolso duas notas de R$ 2, entregou, e disse que depois voltaria para pegar o almoço e aí pagaria o restante.

Maria Moura, como gosta de ser identificada, tem 46 anos, mora na região há 11 e convive com a droga na porta de casa há pelo menos dois anos. Nos últimos dias, ela acompanha bem de perto a operação de combate ao consumo de crack na área.

Conhecida da vizinhança pela fala fácil e o tempero da marmita, a cozinheira fornece comida caseira, serviço que lhe garante o sustento de 7 crianças, 3 filhos e quatro netos, na pequena casa, quase na esquina mais agitada do bairro. Ela atende a todos com discurso envolvente de comerciante. “Aqui em casa eu tenho mesa e quatro cadeiras para servir o almoço”, afirmou. “Vai comendo e vai saindo, dando lugar a outro”, resumiu Maria Moura, explicando o negócio.

No almoço da última sexta-feira, após a correria da manhã dos viciados na pedra, espantados da Helvétia pela polícia para desobstrução da via, o “restaurante caseiro” de Maria Moura servia peixe frito, peito de frango e costela (de vaca) ao molho, com arroz, feijão e salada. “Prato feito é R$ 5, comercial (bandeja) é R$ 7”, dizia ela. E acrescentava “a Tubaína é R$ 2 e o copo de suco, R$ 1”.

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Maria Moura Soares na cozinha de casa/Foto Evelson de Feitas/AE

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Naquele dia, Maria Moura colocou a comida no fogo mais cedo. Teve de sair para levar o filho ao médico às 14h. “Meu menino faz tratamento na Santa Casa. Ele está com um problema no ouvido. Com a graça de Deus, vai ficar bom”, contou a baiana, da região de Feira de Santana. Ela sobrevive da renda da cozinha e de um arrendamento de um bar, que fica na esquida, ao lado da casa.

“O problema desse pessoal aí tem uns dois anos”, disse Maria Moura. “Agora, com essa operação, eles vão se tratar”, afirmou ela. Nos últimos meses, os “nóias”, como os chama Maria Moura, dormiam na calçada diante da porta dela. E havia muito lixo espalhado na rua. “Agora está mais limpo. Vai ser bom pra eles. O pessoal da saúde está encaminhando eles. E aqui agora está mais tranquilo, tem muita polícia, e o pessoal da Prefeitura”, declarou.

Maria Moura contou ainda que sofre na própria carne com a situação da droga. Uma filha e um filho dela estão presos, depois de se envolveram com a pedra. Mãe natural de 7 filhos, ela ainda teve coragem para criar filho de outros. “São 8. Um é de criação”, explicou, lembrando da família que deixou na Bahia, onde vivem a mãe dela e irmãos. “Isso aqui não era assim”, lamentou.

A vida dura de Maria Moura piorou ainda mais nos últimos meses. Ela pagava R$ 2 mil de aluguel pela casinha de dois quartos, sala, banheiro, e pela área do bar existente ao lado. “Mas faz 3 meses que parei de pagar o aluguel”, disse ela. Da porta de casa, que mantém trancada por dentro por temor de invasâo contra as crianças, Maria Moura assistia a tudo sob tensão.

Na tarde da quinta-feira, agentes de saúde contavam 18 pessoas na lista dos viciados que procuraram ajuda para banho, corte de cabelo ou atendimento médico. Na esquina da casa de Maria Moura, carros de polícia estacionados. Outros, circulando, além de motos e agentes da Guarda Metropolitana andando pela vizinhança.

Segundo um dos coordenadores do serviço social da Prefeitura, seis pessoas haviam concordado em receber internação naquela tarde – três deles menores de idade. Jonatan, de 11 anos, Abraão e Felipe, de 16, foram encaminhados para o Caps 1. Os três adultos que aceitaram ajuda foram levados para a AMA da Sé. Um era do Guarujá.

“Aos poucos eles nos procuram”, diz um dos funcionários encarregados do contato na rua. Olhando um grupo de cerca de 60 pessoas, que se aglomeravam na quadra da Helvétia, entre Dino Bueno e Barão de Piracicaba, ele não parecia muito animado.

“É uma situação muito difícil”, disse, observando a movimentação do grupo agitado. Atrás dele, caminhões continuavam a recolher o lixo retirado dos imóveis abandonados que eram usados como moradia pela turma do cachimbo. “Já saíram daqui 69 toneladas de lixo, contando as 3,5 toneladas que estavam nas ruas”, afirmou outro funcionário. “Mas ainda tem casarão aí que nem foi mexido”, completou. Maria Moura, na calçada, atenta, vigiava tudo.

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