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Manias pela Angélica acima

Pablo Pereira

12 Dezembro 2010 | 19h10

Cada qual com sua mania, o gosto, não se discute. A frase do poeta, cantada em português pelo espanhol Juan Manuel Serrat, em disco antigo, me veio à cabeça outro dia ao subir a Avenida Angélica, cortando o bairro de Higienópolis de Santa Cecília à Consolação. Lembrei de Serrat porque como um antigo observador da cidade, Paulo Cursino de Moura, carrego o hábito (ou mania) de tentar saber o por quê do nome das ruas.

Pois, subindo a Angélica, com a minha mania, lembrei que por ali viveu a fazendeira Maria Angélica de Souza Queiroz Aguiar Barros (1842-1922), uma brava matriarca de família cafeeira, que empresta também nome a outra via do bairro, a Alameda Barros. O casarão da família ficava exatamente na esquina das duas vias. Dona Maria Angélica, que também tinha fazenda em Descalvado (SP), foi dona de chácara de 25 alqueires na subida da colina dos bons ares – morro que há um século foi consagrado a Higeia, a deusa grega da saúde e da limpeza.

Foi de dona Angélica, que por ali deu ordens por muitos anos, a curiosa e ousada iniciativa de importar vacas holandesas para ter leite em abundância em São Paulo. De maneira que, por muitos anos, houve gado leiteiro vagando pelo pasto do lugar onde hoje há o agitado Higienópolis, com seu recente e requintado shopping center, restaurantes de boa mesa e grandes e elegantes apartamentos. Naqueles tempos, a propriedade de dona Angélica se chamava Chácara das Palmeiras – daí também vem a conhecida “Rua das Palmeiras”, que margeia o famigerado Minhocão.

Mas, voltando à Angélica: até 1907, a avenida se chamava Rua Itatiaia, como nos conta o cronista Paulo Cursino de Moura (1897-1943) em suas “Evocações da Metrópole” (1932). Ao escrever sobre o bairro, Cursino se desmancha em elogios à matriarca. Ele a conheceu andando em “trecho da Alameda Barros”. Ao terminar sua crônica, Cursino faz uma ode às mães paulistanas e diz que “Porisso (sic), evocar, quando diante de nós uma placa azul escreve um nome que é um símbolo, é tocar no que a alma tem de mais sublime.”

Quando aborda o assunto em seu “Os palacetes paulistanos”, a historiadora Maria Cecília Naclério Homem também lembra que dona Angélica teve outras atitudes – manias, digo eu – pouco comuns para a sua época: loteou as terras da chácara e começou a vendê-las na contramão do usual. Levava o terreno quem desse a menor oferta, explica a autora, que acaba de publicar sua segunda edição (Martins Fontes, 2010) de estudo sobre “outras formas urbanas de morar da elite cafeeira”, ilustrada com fotos e plantas de palacetes, cenas de famílias, imagens de interiores e objetos, e mapas da cidade antiga.

Mas a angelical velhinha vestida toda de preto, de cabelos brancos e doce olhar, que Cursino encontrou na rua em domingo ensolarado e que a historiadora retrata como mantenedora de ampla família e benfeitora de entidades assistenciais, não era moleza – tinha lá seu jeito. “Autoritária e dona de princípios morais e religiosos muito rígidos, existia dificuldade no relacionamento entre mãe e filhos, bem como com os criados domésticos, os quais frequentemente ela confundia com escravos”, relata a autora.

 Bem, cada um é cada qual, disse o poeta espanhol. Ainda hoje há quem assim se comporte. E não se pode olvidar que se tratava de tempos anteriores à aparição de Fátima.

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