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Maio, tempo de ternos e chapéu

Pablo Pereira

16 de maio de 2010 | 17h14

Quinta-feira, 13, 6h15, temperatura em 11 ºC. Sexta-feira, 14, 6h15, 14 ºC, com garoa. Esse maio geladinho lembra o clima dos dias nos quais a metrópole não passava dos limites do Tietê, era cercada por chácaras e chapéu era acessório obrigatório. Eram os tempos do forte crescimento, desde a chegada de levas e levas de imigrantes europeus e asiáticos em busca da vida nova. E, por muitos anos, esse povo, satisfeito, encontrou na cidade ambiente semelhante ao das terras de onde vinha – com termômetros chegando a até 0 ºC.

“Nas madrugadas límpidas e calmas, debaixo de temperaturas próximas ou iguais a 0 ºC após as invasões de massas frias, pode produzir-se a geada”, conta em seus escritos o geógrafo Aroldo de Azevedo, que nos anos 1950 se debruçou a estudar as variações da temperatura paulistana.

Já naquela época os especialistas em clima se preocupavam com as alterações ambientais provocadas pela ocupação do solo. “No conjunto, pode-se observar que a área mais densamente construída é 1ºC a 1,5 ºC mais quente do que os espaços suburbanos ou rurais”, explica Azevedo, que dirigiu um grupo de geógrafos em 1958.

A turma de Azevedo tinha noção do perigo do crescimento sem planejamento. E foi aos relatos de Auguste de Saint-Hilaire, John Mawe, Lucas R. Junot, José Setzer, Salomão Serebrenick, Ernani Silva Bruno, historiadores, técnicos e observadores empíricos da região, em busca de dados sobre o tempo e outras nuances climáticas. Encontrou ricos depoimentos sobre frio, geadas e garoa. Hoje essas informações não valem mais. O chapéu quase sumiu e a área urbana da metrópole já é ameaça às serras, no Norte e no Sul.

 

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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