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Madrugadas de Ingemar

Pablo Pereira

12 Junho 2015 | 19h48

A febre ameaçando os 39 do termômetro, a cabeça parecendo um balão, ouvidos entupidos, nariz ardendo por dentro e uma tosse de arrebentar o silêncio da madrugada. A rave do gripado me rendeu mais de uma semana de insônia. Na noite mais terrível, lá pelas 4h, sem pregar o olho por causa da tosse seca, sem posição na cama, sentindo cada osso da cabeça a latejar, o jeito foi recorrer ao escurinho da sala na companhia do cachorro.

Na penumbra, ele levantou a cabeça, como se dissesse um “Lá vem você!”, mastigou as barbas, longas e brancas, e deu um suspiro (ah, que suspiro!). O que eu não daria para ter aquele suspiro, absoluto, profundo, restaurador, sem desandar naquela barulheira indecente!

No hospital, haviam dito que era uma gripe “que complicou”, que a cidade está cheia de casos, coisas da época. É no que dá a mania do povo de ficar empurrando, empurrando, para ver se aguenta o tranco, se fazendo de forte, retardando a ajuda médica. Trata-se agora a inflamação dos brônquios, a malha fininha do pulmão que permite a troca do gás usado pelo novo, um dos segredos da vida.

Pelo que entendi do atendimento, enquanto sonhava com um balde de água fria pra enfiar a cabeça e suportava a agulhada no braço, depois da injeção na veia e da inalação, com o tempo o veneno dos remédios da receita vai abrir caminho para o ar, e aliviar o sufoco. A tosse é o sintoma do sofrimento pulmonar. A radiografia na parede de luz mostrou que, por dentro, pareço São Paulo em dia de chuva: várias (muitas, muitas) vias sem passagem.

Desta vez, os meus truques de infância, que sempre deram certo, tipo escalda-pés, lençol, manta e acolchoado, tudo amontoado, para forçar suador, não funcionaram. Fugir de vento encanado, não tomar muito quente nem muito gelado, abusar das frutas e do suco de laranjas, ficar de cama mais tempo pela manhã, também não tiveram o menor efeito.

Depois da temporada das dengues, é mesmo bravo o bicho da gripe que anda por São Paulo. Tem o rastro esticado. As gripes de antigamente, que duravam uma semana, não existem mais. Neste ano, disseram, sofre-se por mais tempo, até duas semanas.

Eu consegui ouvir até os canais dos meus pulmões. Sentia quando o ar descia, até onde chegava, e quando subia, num chiado. A febre, indo e vindo. E quando volta, volta mais alta, mais quente, mais doída. Tentei ler, não fui adiante. Ouvir música, com fones para não atrapalhar mais a casa, também não consegui. A tosse, incessante, transformou-me num sujeito barulhento, inoportuno e improdutivo.

Irritado, isolado num silêncio urbano dos tempos de Ida Pfeiffer (A Capital da Solidão, do Roberto Pompeu de Toledo), àquela altura eu só queria dormir…Dormir!

Vida boa tinha meu parceiro schnauzer ali, no sofá, enchendo o peito e soltando, descansando como um lorde alemão. Naquele lusco-fusco, andando daqui pra lá, lembrei-me do Ingemar, do filme do Lasse Hallstrom (Minha vida de cachorro). O menino que buscava nos cachorros o socorro para as angústias.

Ingemar, enfim, o meu conforto.

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