Macapá, sem água nem luz, um povo esquecido por Brasília
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Macapá, sem água nem luz, um povo esquecido por Brasília

Pablo Pereira

13 de novembro de 2020 | 11h31

O governo federal é um desastre. Classifica doentes e mortos por covid com termos homofóbicos e até acabou de “declarar” guerra aos EUA. Há governantes que defendem torturadores, alguns generais já vazaram, presidente e vice não se entendem e gente que, dois anos atrás, achava esse governo a última bolacha do pacote, hoje está em silêncio depois dos absurdos revelados pela mortandade na pandemia, entre outras insanidades praticadas contra princípios básicos da convivência e dos direitos humanos.

Atenção: na pandemia não são 242 mortes, como na boate de Santa Maria (RS), ou 272 pessoas que perderam a vida no estouro da barragem de Brumadinho. São 164 MIL pessoas mortas pela maior crise de saúde pública no país em um século, uma calamidade que já dura oito meses sendo tratada como se fosse um fato da vida normal. É um escândalo.

Agora, depois da eleição dos EUA, como parece que vai acontecer assim que o presidente eleito Joe Biden confirmar a vitória no dia 14 de dezembro para assumir a Casa Branca, a situação de isolamento desse “governo” brasileiro tende a ficar pior. Já brigaram com a Argentina, com a China e, agora, com os EUA. Chocante.

Mas, como diz o ditado popular, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. No caso do apagão no Amapá dos últimos dias, outro exemplo da lamentável ineficiência administrativa federal, é preciso observar que esse abandono daquele eleitorado repete uma coisa que vem de anos. Estive em Macapá em 2013. O Estadão publicou a reportagem que está aí abaixo no dia 1 de setembro daquele ano.

Quem governava no Palácio do Planalto? Era o PT e seus aliados, adversários da turma atual. Conferindo os dados eleitorais do TSE de 2002, 2006 e 2010, vê-se que Lula e Dilma tiveram, a cada rodada, quase o dobro dos votos dos oponentes (Serra, Alckmin e Aécio) no Estado.

Porém, depois de TRÊS mandatos – 2003-2013 -, a situação em Macapá, como mostrou a reportagem, era de dar pena: um angustiante desamparo de milhares de pessoas na pobreza, sem água encanada dentro de casa, vivendo entre poços e fossas, alguns furados um ao lado do outro. 

Macapá tinha, em 2013, cerca de 400 mil habitantes. Pasmem: 97% da área da capital estadual não tinha rede de esgoto, como mostram os dados da época – 60% da cidade não tinha água encanada! Produto abundante na região, a água era vendida à população por caminhão-pipa.

A reportagem do Estadão mostrou que o prefeito da época, Clécio Luís (Psol)  – que depois foi reeleito, em 2016, pela Rede-, dizia que saneamento era de competência do Estado. O governador de então, João Capiberibe (PSB), alegava que o dinheiro fora liberado, mas nada acontecera. O governo federal, por meio do BNDES, liberara recursos, mas nada de obras.

Não foi surpresa nenhuma, portanto, que o povo daquele canto do mapa tenha escolhido, em 2018, o direitista Bolsonaro (46%) contra o esquerdista Haddad (29%). Afinal, foram anos e anos à espera de soluções básicas da vida cotidiana que não aconteceram. Pois, outra vez, mesmo com a mudança de rumo político, Brasília falhou com o Estado do Amapá e sua gente. Agora a crise é geral: sem água, sem luz e ainda com uma epidemia de coronavírus sufocando e matando.

“É um povo esquecido”, nas palavras de uma moradora, que em 2013 lamentava tamanho descaso do governo central.

O país é ou não é um vexame?

 

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