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Luís Gama: olhaí, gente!

Pablo Pereira

16 Fevereiro 2010 | 12h55

Outro dia, de madrugada, assistindo aos desfiles de carnaval de São Paulo, lembrei de Luís Gama, poeta, escritor, jornalista e rábula, que viveu na cidade na segunda metade do Século 19. É uma das principais figuras do abolicionismo paulista, militou contra a escravidão e foi parceiro de escritos de gente importante naqueles dias, como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa.

Já falei aqui sobre esse personagem histórico da cidade, que teve trágica infância (foi vendido pelo pai) e rica superação pessoal, além de contribuição importante para a humanidade. Não me lembro de ter visto Luís Gama na avenida. Mas mesmo que já tenha sido homenageado, não seria demais fazer-lhe, como dizem os artistas, “uma releitura”.

Fica a sugestão para o próximo carnaval. E, abaixo, fragmentos do poema Meus amores, do seu Trovas Burlescas. Como lembra texto de

Documento

, um dos estudiosos de Luís Gama, o poema foi publicado no jornal Diabo Coxo, a 3 de setembro de 1865, e inserido nas Primeiras Trovas Burlescas a partir da terceira edição (1904)”:

Meus amores são lindos, cor da noite

Recamada de estrelas rutilantes;

Tão formosa creoula, ou Tétis negra,

Tem por olhos dois astros cintilantes.

.

Em rubentes granadas embutidas

Tem por dentes as pérolas mimosas,

Gotas de orvalho que o universo gela

Nas breves pétalas de carmínea rosa.

.

Os braços torneados que alucinam,

Quando os move perluxa com langor.

A boca é roxo lírio abrindo a medo,

Dos lábios se destila o grato olor.

.

O colo de veludo Vênus bela

Trocara pelo seu, de inveja morta;

Da cintura nos quebros há luxúria

Que a filha de Cineras não suporta.

.

A cabeça envolvida em núbia trunfa,

Os seios são dois globos a saltar;

A voz traduz lascívia que arrebata,

– E coisa de sentir, não de contar.