Livro relata conflito étnico e fundiário
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Livro relata conflito étnico e fundiário

Pablo Pereira

18 Janeiro 2011 | 20h49

Acabei de ler o livro The Last of the Tribe (Scribner, 2010), do jornalista americano Monte Reel, ex-correspondente do jornal The Washington Post no Brasil. Ele conta a história de um índio da quase extinta tribo dos kanoê, que vive isolado nas matas de Rondônia, protegido pela Funai e pressionado por proprietários rurais que contestam a presença indígena na área. E lutam para impedir que as terras de suas fazendas sejam transformadas em reserva. É um processo judicial de anos, que envolve indigenistas, índios, fazendeiros, governo federal e Justiça.

O escritor americano relata, numa toada jornalística, o caso do índio Pur’, sobrevivente de uma tribo isolada. Reel ouve as partes envolvidas na disputa, cita depoimentos e relaciona fontes históricas. A pendenga pode ter finalmente um desfecho em 2012, seja para o lado do índio/Funai, seja favorecendo os fazendeiros. Editado nos EUA, o livro oferece uma leitura interessante do Brasil profundo, seus centenários conflitos fundiários e étnicos.

Lembro que, em 1995, ainda repórter do jornal O Estado de S. Paulo, estive por lá com o então colega fotógrafo Marcos Mendes, acompanhando uma expedição da Funai. Passamos três dias caminhando na mata até o encontro com um casal de índios do Vale do Guaporé, últimos viventes de uma tribo amazônica.

A presença daqueles seres humanos por lá abriu uma enorme polêmica sobre a propriedade da terra na região e também sobre a idoneidade de cientistas e funcionários do governo que trabalhavam no caso. Eram os tensos dias seguintes ao episódio da desocupação trágica de uma fazenda em Corumbiara, em agosto de 1995, quando uma dezena de pessoas morreu num confronto entre PMs e sem-terra. 

Passaram-se 15 anos e a questão principal, que é a posse daquela área reivindicada por indigenistas, ainda não está decidida. A história já rendeu um filme, Corumbiara, do diretor Vincent Carelli, premiado em Gramado com o Kikito de melhor filme em 2009. O filme levou dez anos para ficar pronto. Os fazendeiros nunca aceitaram a ideia de que havia índio nativo vivendo em suas terras. Argumentaram, e o livro de Reel traz essa posição, que os índios foram levados para a área pela Funai. Os funcionários públicos, obviamente, negam essa prática.

 Na foto abaixo, de Marcos Mendes (AE/setembro de 1995), índios kanoê catando as pragas que nos infestavam. Era uma demonstração de hospitalidade.