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Leituras

Pablo Pereira

03 de junho de 2022 | 11h27

O colega Daniel Piza, que morreu prematuramente em 2011, aos 41 anos, talvez nunca tenha dito, nem escrito, mas sabia que fazer jornalismo era fundamental. Escrever era mais do que uma profissão para ele. No ofício, hoje ameaçado como exercício profissional, Daniel buscava conforto. Publicava reportagens e mantinha uma coluna na qual cultivava seu espaço criativo, como no bordão “Por que não me ufano”, que copiou de escritor Afonso Celso, numa crítica invertida do pensamento ufanista daquele autor Oitocentista, que também foi jornalista.

Por que lembrei do Piza? Não sei ao certo. Talvez porque tenha lido hoje a bela coluna do Marcelo Rubens Paiva sobre a Mona Lisa ou talvez porque sinta falta de saber o que estaria o Daniel escrevendo desse mergulho assustador do mundo nas incertezas da convivência e da ignorância.

Parece que nunca vamos emergir das sombras do livro de Platão, das trevas de doenças fora de controle, da vida vulnerável pelo contágio de pragas e de viroses sem remédio. Nem nos livrar do repugnante racismo, das guerras, do ridículo dos nacionalismos.

O que estaria escrevendo Daniel ao ler os livros do Scurati sobre o escroto e sanguinário ditador Mussolini, de um século atrás. Ou do peso dessa onda de autoritarismo na sociedade brasileira, governada por líderes que elogiam o comportamento dos cavalos e exercem ações políticas interessadas em arrancar o sustento pessoal da oportunidade de ganhar maços e maços e maços de dinheiro vivo proporcionado pelo retrocesso que se imaginava ter sido superado.

Daniel foi, enfim, um sujeito libertário, um crítico dessa realidade brasileira. Amava as letras, gostava de vê-las no papel, era fascinado por um certo brilhante Machado, que da escrita e jornalismo também fez o pão diário, como conhecemos na obra do próprio Daniel e também nos textos resgatados inteiros e a nós oferecidos pelo John Gledson. Foi isso: a boa leitura de Marcelo Rubens Paiva, de certa forma, me devolveu ao Daniel.

 

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