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Lagartas, borboletas, Romano e Carlota

Pablo Pereira

15 Outubro 2011 | 12h44

O pensador Affonso Romano de Sant’Anna escreveu no excelente Sabático, editado por Rinaldo Gama (abaixo, os links), citando McLuhan, a metáfora da lagarta e a borboleta. Perfeita para esses tempos de revolução tecnológica e de imensas dúvidas sobre o futuro breve.

Trata o professor Romano de Sant’Anna do aumento na produção brasileira de livros, uma avalanche deles tira a indústria livresca do marasmo nos últimos anos. Mas aí vem a questão do pensador: e os leitores? Lá está, no artigo publicado na contracapa do Sabático, a argumentação, que não transcreverei aqui.

Lendo, lembrei de imediato da professora venezuelana Carlota Perez, estudiosa dos impactos da tecnologia no mundo (Technological Revolutions and financial capital – The Dynamics of Bubbles and Golden Ages, UK, 2002), que deu cores atuais ao que pensa no encontro sobre Web 2.0, encerrado na quinta-feira em Nova York.

Dizia ela que estamos, sim, bem no centro de uma virada tão violenta na civilização, o que ela chama de revolução tecnológica global, que os atuais líderes mundiais não conseguem pegar o sentido da coisa. E perdem precioso tempo.

Estão, segundo ela – e para sua irritação – tentando controlar as coisas da mão para a boca, por meio de ferramentas obsoletas, como controle de déficit público e regras de fluxos de capitais, tudo isso com o foco na visão nacionalista ocidental. E não enxergam o futuro e as profundas transformações, já em curso, atropeladas pelas trocas nos modos de produção, criadas na vida moderna a partir da família chip. Governantes e políticos parecem as lagartas de McLuhan olhando a sensacional borboleta e pensando: Não, não. Eu não quero me transformar naquele monstro.

Como dizem os paulistanos jovens, “meu, se liga”, o mundo mudou. A economia mudou. A vida mudou. Antes de morrer, Steve Jobs ensinou a moçada: “Stay hungry, stay foolish”. E os jovens, lá fora, repetem: “Hei, I have butterflies in my stomach”.

É preciso se atracar com os desafios, sentir o frio na barriga, manter a fome de saber, estar aberto à inocência e dar asas à inovação, criar! – em vez de agarrar-se à escuridão da ignorância e dos truques do velho remediar.

No caso do Brasil, a vida tem mudado para melhor. Milhares e milhares de pessoas entram todo dia no consumo. Alvíssaras! Passamos os últimos 40 ou 50 anos sonhando intensamente com isso. Houve a noite escura da política do autoritarismo, depois a angústia da demora na criação e distribuição dos recursos e, hoje, o principal inimigo (enorme) que se apresenta é um ornitorrinco manco: cara de corrupção, braços de fisiologismo, cérebro de oportunismo e coberto, óbvio, pela chaga da pobreza, infeliz herança que nos fere fundo desde os tempos de Nabuco. Mas, apesar disso tudo, os dias já são agora outros. Estão claros, prometem frescor.

E já que o assunto aceita o poliglotismo, muchachos, adelante! A agenda mundial tem de mudar. Como ensina a global-cidadã Carlota Perez, as bolhas econômicas são seguidas de explosões. É preciso inversões massivas na inovação tecnológica para entrar de vez no novo mundo. É preciso sair do cassino financeiro; o dinheiro precisa gerar conhecimento.

O atual sistema de produção de bens e a distribuição de riquezas faliram – vejam as ondas de desconforto. Carlota tem razão. O problema é que Obamas, Dilmas, Sarkozys, Merkels, seus colegas – e seus financiadores -, continuam como lagartas a pensar na borboleta como um monstro.

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Leia o artigo de Affonso Romano de Sant’Anna

Saiba mais sobre  Carlota Perez

Ouça Carlota Perez na Web 2.0