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Insetos, cavalos farsantes e ameaças à democracia

Pablo Pereira

08 de novembro de 2019 | 10h44

Aproveitando folgas acumuladas, fui terminar de ler dois livros. O primeiro, “Planeta dos Insetos”, de Anne Sverdrup-Thygeson, de 2018, traduzido pela Editora Matrix. Sempre tive interesse por insetos e curiosidade em saber o que escrevem sobre esses minúsculos de “seis pernas, quatro asas, duas antenas”, que é o que basicamente os separa de outros bichos, além de terem o esqueleto por fora, olhos nos joelhos e na genitália, nariz na ponta das antenas, e de usarem os cheiros como o usamos o WhatsApp. Esses seres estão no planeta há 479 milhões de anos – são de antes dos dinos, explica ainda a professora de biologia da Noruega.

Antes da ocorrência de conclusões apressadas sobre minhas leituras, porém, devo contar que não é de agora que aprendo muito com o comportamento dos animais. Muitos anos atrás, já havia eu conhecido estudos sobre o terrível hábito das abelhas turuçu de pilhar as colônias de outras fabricantes de mel. Elas podem ser até “ladras violentas!” alertou o cientista Paulo Nogueira-Neto, capítulo 32, pág. 354, no “Vida e Criação de Abelhas Indígenas e Sem Ferrão” — que li tem mais de 20 anos. E há lá também as abelhas caga-fogo (ou tataíra), assassinas. Atiram nas outras um líquido corrosivo que queima até pele humana! Ou, ainda, as bonitinhas Apis mellifera que, às vezes, são agressivas e atacam para matar e saquear os ninhos das nativas abelhas sem ferrão.

Observador-amador do comportamento dos bichos, encontro no ambiente deles, descrito por especialistas, atos corriqueiramente vistos entre a chamada espécie superior, os humanos: ataques, agressões, mortes, roubos e furtos. Há sobre o mundo dos insetos até uma discussão (bem a propósito!) de pesquisadores profissionais que notaram baratas vivendo em deliciosas colônias de mel. São “invasoras”, acusam autores; são prisioneiras, rebatem outros, como o próprio Nogueira-Neto, para quem essas nojentas dos esgotos entram na casa das abelhas quando são pequenas e depois, tendo crescido, não conseguem mais sair. Tornam-se parasitas do mel!

Mas o pesquisador brasileiro acredita que essas invasões e ameaças entre os insetos só ocorrem quando as colônias violadas estão “fracas”. Sem proteção, agressores e indesejados se aproveitam — e as comunidades se ferram, para usar aqui uma expressão bem Brasil-humanoide!

Voltando à bióloga da Noruega: foi divertido encontrar no livro também “Um exame de bailarinas”, “Uma formiga em Manhattan”, “Insetos como faxineiros”. E o caso do Trogoderma glabrum, a larva da juventude, além da hilária comparação de abelhas com o cavalo alemão Hans, do início do Séc. 20, que “sabia” matemática — e cujo dono, Wilhelm van Osten, chegou a se convencer que seu equino era tão inteligente quanto ele. Van Osten morreu aborrecido com seu cavalo pois, submetido a testes por outros cientistas, “clever Hans” revelou-se uma “farsa”. O caso era, na verdade, truque de condicionamento do animal.

Essas coisas todas me lembraram que barata em colmeia, equino farsante ou eventuais tubarões “inteligentes” são como notas de 3 reais, ou Terra plana, enfim, enganação. E são um perigo! Agora, claro, há ameaças bem mais horríveis e urgentes do que as situações que encontro olhando insetos em dias de folga.

Ameaças que aparecem, por exemplo, no segundo livro lido (da Zahar), que tem, logo na abertura, a citação da fábula “O javali, o cavalo e o caçador”, de Esopo, aquela história de uma aliança feita para matar um javali e na qual um cavalo aceita freio e rédeas – terminado o serviço, vê-se dominado pelo ferro na boca e pela esperteza autoritária daquele que o monta. Bem atual para o Brasil, o livro lançado nos EUA em janeiro passado usa pensamento milenar para analisar ameaças de atos de gente do nosso tempo. Escrito por dois professores de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, colaboradores do The New York Times, tem título mais do que alarmante: “Como as democracias morrem”. 

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