Índios de Roraima recebem apoio de ONGs e dinheiro estrangeiro
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Índios de Roraima recebem apoio de ONGs e dinheiro estrangeiro

Pablo Pereira

05 Fevereiro 2015 | 18h34

“Os povos makuxi, wapixana, ingarikó, taurepang e patamona vivem numa terra chamada Raposa Serra do Sol, no norte do Brasil, na fronteira com a Venezuela e a Guiana. É uma região de beleza espetacular de montanhas, florestas tropicais, savanas, rios e cachoeiras”. A idílica descrição das terras indígenas de Roraima é de texto do site da ONG Survival, que tem sede em Londres, uma das principais organizações internacionais de apoio a tribos brasileiras envolvidas na mais polêmica disputa fundiária nacional das últimas três décadas.

Seis anos depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar a demarcação contínua da Raposa e mandar retirar fazendeiros não-índios das terras dos ianomami, Roraima mudou de perfil econômico e social, tem cerca de 46% de sua área coberta por reservas de 11 etnias que vivem em 94 comunidades, e se transformou em “modelo” de ação de ONGs brasileiras e estrangeiras, que repassam recursos para projetos nas comunidades.

“Somos um movimento global de apoio aos indígenas”, afirma Sarah Shenker, da ONG Survival, que tem sede em Londres, em entrevista ao Estado, por telefone. “Nosso trabalho é gerar atenção para as ameaças contra os índios e pressionar o governo por soluções e proteção”, disse Shenker. A Survival, que acompanhou o processo judicial da demarcação de terras contínuas da Raposa Serra do Sol, não é a única ONG internacional interessada na empreitada. Entre as organizações mais presentes em Roraima há fundações estrangeiras e agências de governos nacionais.

Os principais exemplos de ONGs com trabalho forte no estado são a Cafod, entidade ligada à Igreja Católica da Inglaterra; Fundação Tebtebba, ligada à indígena filipina Victoria Tauli-Corpuz, consultora da ONU para direitos indígenas; além de representações dos governos da Noruega, Alemanha e EUA; mais fundações, como a norte-americana Ford Foundation, estabelecida no Brasil desde 1962, e a Rainforest Foundation Noruega, atuante no Brasil desde 1989. Na esteira da decisão do STF, a área da Raposa aumentou a população nos últimos anos. Em 2009 havia 19 mil índios na área, segundo o procurador da Justiça de Roraima, Edson Damas da Silveira.  “Hoje o Conselho Indígena de Roraima (CIR) dá conta de que cerca de mais 6 mil indígenas voltaram”, afirma o procurador.

Segundo a porta-voz da Survival em Londres, a situação de insegurança dos indígenas brasileiros e a ausência de políticas claras de proteção dos povos pelo governo federal são prioridade na agenda de vigilância da ONG sobre o Brasil. A Survival tem programas de acompanhamento das realidades nas aldeias e reservas de povos como ianomami e macuxi, em Roraima, mas também atua com os guarani do Mato Grosso do Sul, e os awa guajá, do Pará e Maranhão, além de trabalhar em outros continentes.

De acordo com a ONG, que defende abertamente a causa indígena, o trabalho não envolve repasses diretos de dinheiro. A ONG britânica funciona como uma plataforma de divulgação internacional das demandas. Para Shenker, quando um povo indígena brasileiro começa a ser integrado aos não-índios, ocorre um processo desigual. “Eles vão viver em periferias, em situação precária, e são vistos como seres inferiores”, afirma. Ela acredita que o primeiro passo para melhorar a situação dos índios “é o respeito por eles”. Em segundo lugar, os não-índios devem, segundo ela, se habituar a ouvir dos índios qual o modo de vida eles preferem para suas comunidades.

Dinheiro europeu

Mas se a Survival não mexe com euros, libras, coroas e dólares, outras organizações se encarregam de garantir a verba para as comunidades. “A Noruega vem firmando parcerias de longa duração com várias associações indígenas e organizações não governamentais indigenistas no Brasil. O foco tem sido o apoio institucional, muitas vezes em conjunto com atividades de monitoramento, planejamento e capacitação”, explica  Aud Marit Wiig, embaixadora da Noruega.

“Em 2014, foi repassado o equivalente a 24 milhões de coroas norueguesas a associações e organizações indígenas e ONGs indigenistas no Brasil: algo em torno de R$ 8 milhões. Desse total, aproximadamente R$ 1.3 milhão foi repassado para parceiros atuando no estado de Roraima”, diz a diplomata (abaixo,  a integra da entrevista).

Para a deputada federal de Roraima, Maria Helena (PSB), o ritual dos recursos externos para comunidades é bem conhecido. Ela lembra que já esteve na embaixada da Noruega acompanhando indígenas que tentavam conseguir dinheiro estrangeiro. Mas a deputada, segundo relata, saiu da audiência com as mãos abanando.”A embaixadora disse que a Noruega já ajudava muito com recursos para a politização dos índios”, conta a parlamentar.

O financiamento para ONGs e projetos indígenas pelo governo norueguês começou na década de 80 e ganhou força um ano antes da decisão do STF. “Para o Brasil, o orçamento para 2009 soma 20 milhões de coroas norueguesas, o equivalente a R$ 6.5 milhões”, segundo documento da embaixada da época. Os recursos foram repassados para ONGs brasileiras e associações indígenas.

Na lista de beneficiados pela Noruega, segundo documentos da representação norueguesa, estavam Apiz (Associação do Povo Indígena Zoró – Pangyjej), Apoinme (Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo), Cimi (Conselho Indigenista Missionário), CIR (Conselho Indígena de Roraima), CTI (Centro de Trabalho Indigenista), Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), HAY (Hutukara Associação Yanomami), Instituto de Pesquisa e Formação em Educação Indígena, Instituto Indígena Brasileiro Para Propriedade Intelectual, Instituto Catitu – Aldeia em Cena, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, ISA (Instituto Socioambiental), Opan (Operação Amazônia Nativa) e VNA (Vídeo Nas Aldeias).

Em março do ano passado, para comemorar os 30 anos de atuação da Noruega no apoio aos índios brasileiros, a embaixada promoveu ainda a exposição “Povos Indígenas no Brasil 1980/2013 – Retrospectiva em Imagens da Luta dos Povos Indígenas no Brasil por seus Direitos Coletivos”, na Praça do Museu Nacional da República, em Brasília. O material foi mostrado, a seguir, também em São Paulo.

Rei na selva

A situação dos índios brasileiros e sua cultura de selva despertam atenções até na Casa Real da Noruega. Na Fundação Rainforest, daquele país, entidade que também é conhecida na região, a ideia de ampliar direitos dos índios recebe garantias do próprio rei Haroldo 5º. “Trabalhamos para reconhecer novas terras indígenas e proteger as existentes”, afirma documento da Fundação Rainforest. “Nossos projetos abrangem educação bilíngue, manejo de recursos naturais em terras indígenas, desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis e melhoramento de lei florestais e da situação jurídica de povos indígenas”, diz o documento, divulgado em português. Em 2013, a ONG protagonizou visita de Haroldo 5º à aldeia do chefe ianomami Davi Kopenawa. O rei recebeu presentes da comunidade, e achou a viagem uma maravilha.

De acordo com levantamento de 2014 da Funai, oficialmente o Brasil tem 53 autorizações de projetos de pesquisas em execução em áreas indígenas, nos quais há 71 brasileiros e 10 estrangeiros em operação. Segundo a Funai, em Roraima há quatro projetos em terra indígena.

Barreiras

Mas moradores de Boa Vista costumam contar que é comum na cidade o trânsito de “gringos” interessados no acesso às riquezas naturais preservadas nos milhões de hectares de florestas e cerrados, que no estado é terra chama de “lavrado”. Somente na Raposa há cerca de 10 milhões de hectares sob controle indígena. E fazendeiros da região argumentam que trabalhar e fazer negócios no estado, como tomar empréstimos em banco público, por exemplo, tornou-se tarefa carregada de burocracia.

“Abrir uma empresa é normal”, diz o arrozeiro Genor Faccio, presidente da Associação dos produtores do cereal de Roraima.”Mas o problema é tocar a empresa. Aí começam as barreiras de documentos de posse de terras, crédito, exigências. Te matam no cansaço”, reclama Faccio.

Um dos ícones das reclamações de roraimenses, barreira que está sendo questionada em processo na Justiça de Roraima, fica na BR 174, a cerca de 500 quilômetros ao sul de Boa Vista, no posto fiscal de Jundiá, quilômetro 73 (abaixo, em fotos de José Patrício/Estadão). Lá os índios da reserva waimiri atroari controlam o trânsito na rodovia. Eles esticam uma corrente que atravessa a estrada e impede a passagem das 18h30 às 6h30 num trecho de 125 quilômetros no rumo de Manaus.

corrente fechada/José Patrício/Estadão

“Só passa emergência e ônibus”, disse um indígena, na semana passada, pouco antes de levantar a corrente e interromper a estrada. 

Clóvis Faria e o filho, Rafael/José Patrício/Estadão

“Os caminhões com perecíveis podem passar até 22h”, emendou o camioneiro Clóvis Faria, que dias atrás, acompanhado pelo filho, Rafael, transportava uma carga de bananas na direção do Amazonas. “Quem chega depois da hora tem de dormir aqui pra seguir viagem de manhã”, emenda Estácio Araújo, de Boa Vista, também carregado e à espera da luz do dia para atravessar a reserva.

ONGs brasileiras

Entre as ONGs brasileiras mais atuantes no estado estão CIR e a Hutukara, duas entidades cujo comando é dos índios. No CIR trabalha, por exemplo, a advogada Joênia Batista de Carvalho, uma índia waipixana que ficou famosa durante o julgamento do caso da Raposa por sua atuação na causa no STF. De origem indígena, ela era um símbolo do sucesso da luta de um povo da floresta por uma integração digna com a sociedade não-índia. Procurada pelo Estado no CIR, em Boa Vista, e também em casa, para uma entrevista, alegou compromissos para não atender. O líder Mário Nicácio, também dirigente da entidade, igualmente não retornou aos pedidos de entrevista.

Mas não são somente organismos dirigidos diretamente por  indígenas que atuam em seu favor em Roraima. O ISA e o Cimi, ONGs apoiadas pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), também fazem parte do rol de times que conhecem bem os meandros das questões fundiária, cultural e jurídica indígenas, além de dominarem os caminhos dos financiamentos de projetos e repasses de verbas internacionais para as comunidades.

Dólares

Também com forte presença na área, a Fundação Ford do Brasil, que tem sede no Rio, por sua vez, atua com dinheiro vivo. E não esconde essa política. Em 2014, a Fundação repassou, somente para o CIR, de Boa Vista, US$ 200 mil. De acordo com Aurélio Vianna Jr., coordenador do apoio aos indígenas na Fundação, o valor é doação para projeto de qualificação de indígenas na Universidade Federal de Roraima (UFRR).

A Fundação Ford manda verbas também para o Cimi. No ano passado, foram US$ 250 mil para programa de  expansão de direitos comunitários sobre recursos naturais. Na representação Norte do Cimi, que fica em Manaus mas atende Roraima, a informação é a de que a entidade não recebe recursos públicos, portanto, não usa dinheiro do Fundo do BNDES. A ONG informa que trabalha com formação de lideranças, direito indígena e políticas públicas para o setor. Mas o Cimi não fala sobre doadores ou valores que recebe, embora reconheça que a maior parte dos recursos para o apoio a programas com índios tem origem na Europa.

Vianna lembra que a Fundação é uma entidade filantrópica, que além de financiar ações que reforçam “direitos indígenas” e “programas ligados à mulher” por meio da ONG indígena de Roraima, oferece também apoio a outras iniciativas. Ele lembra que o próprio BNDES opera na região como uma das principais agências de financiamento e repasses de recursos de doações internacionais por meio do Fundo Amazônico.

Relatório do Fundo registra, efetivamente, recursos da Noruega no valor de US$ 108,8 milhões no período de 2009 ao ano passado, enquanto que as doações do governo alemão relacionadas no Fundo somam US$ 28,3 milhões em quatro anos. E entre os projetos que recebem recursos do Fundo estão terras indígenas de Roraima.

Vianna Jr. destaca ainda que a Fundação que representa não opera somente com índios. Tem projetos financiados também em comunidades carentes de não-índios. No Pará, por exemplo, programa de capacitação técnica da Associação Comunitária de Quilombos do estado recebeu US$ 200 mil da Ford. Para o ISA, segundo relatórios da Fundação, projeto de pesquisa sobre políticas públicas foi agraciado com US$ 400 mil em 2013, além de outros repasses para projetos de sustentabilidade na região. E a Fundação atua também em áreas urbanas de comunidades não-índias urbanas, como ONGs que trabalham em favelas do Rio.

“Esquemão”

Para o antropólogo  Edward Luz, ex-consultor da Funai, que vive em Anápolis e já trabalhou  em processos de demarcação de terras indígenas, as ONGs brasileiras e internacionais se beneficiam dos recursos de um “esquemão de demarcações” de terras no País. “Há uma elite intelectual na antropologia brasileira que reza pela cartilha de uma política indigenista de fora”, disse Luz ao Estado. “Esses antropólogos foram treinados por 40 anos sob interesses geopolíticos de outros países, influenciaram na construção do princípio constitucional de 1988 (artigos 231 e 232) e hoje exercem o controle desta política indigenista brasileira”, afirma Luz.

“Qualquer crítica ao modelo dessa turma é tachada de argumento de direita, coisa de militar golpista”, afirmou. O que há no Brasil, declarou, é “uma galera da antropologia vendendo mitologia enquanto as novas gerações de índios querem melhorias de vida, querem computador, celular, andar de carro, vestir calça jeans, como todos os jovens da idade deles”.

“Enquanto os estudiosos, que eu chamo de ‘antropólongos’, com ONG em maiúsculo, manipulam a política indigenista baseados na ‘redenção do mundo pelo retorno ao passado cristino’, temendo  a ‘modernização perigosa’ e pregando o ideal da sociedade índia, povos indígenas brasileiros são impedidos de produzir, explorar as riquezas de suas terras, e a viver na miséria”, sustentou Luz, emendando que conhece mais de 30 comunidades indígenas.

Para o ex-consultor da Funai, boa parte do dinheiro das ONGs internacionais é consumido exatamente pelas ONGs. “Os índios que querem viver no isolamento existem, sim, como é o caso dos korubo, no Amazonas. Mas são uma minoria. Nos povos contatados, a resistência vem dos mais velhos, e dos técnicos das ONGs. A juventude não pensa assim”, declara. “Isso sem falarmos das mulheres, que são submetidas a abusos de toda ordem sem que os homens sejam punidos”, acrescenta.

Para o antropólogo, quando alguém “ousa” denunciar o comportamento agressivo nas comunidades “é porque não entendeu a cultura deles, é preconceituoso” ou quer prejudicar os indígenas. “O Brasil se cala diante dos abusos cometidos contra as mulheres e as crianças indígenas”, ataca.

No extremo norte de Roraima, trabalhando em Pacaraima, cidade que já deveria ter sido desocupada por estar dentro das terras da reserva São Marcos, a policial Ione Farias parece ser voz solitária diante de abusos cometidos  contra mulheres. Ela diz que lá a violência contra as mulheres é frequente.

“Nós usamos a Lei Maria da Penha”, conta a policial. “E há sim agressões a mulheres em área indígena”, enfatiza. “Mas aqui não tem essa de ser índio, não. Vamos lá dentro e prendemos o agressor, que para a Colônia Penal, de Boa Vista”, disse a policial. “A própria comunidade nos apoia”, acrescenta, argumentando que o consumo de álcool está por trás de muitos dos abusos. “E há também os crimes de estupro de menores. Temos aqui de 3 a quatro registros por mês”, emenda.

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Produção cai e estado aumenta servidores

Desde 2009, quando o STF determinou a saída de fazendeiros da Raposa Serra do Sol, a produção agrícola de Roraima desabou. “A gente plantava 22 mil hectares de arroz até 2009. Isso caiu para 9 mil em 2010. Estamos recuperando, mas está longe do que era”, diz Genor Faccio, da Associação dos Arrozeiros, um dos retirados da área. A exportação agrícola do estado, que em 2006 foi de US$ 16,4 milhões, caiu em 2009 para US$ 12,6 milhões, chegou a US$ 15,1 milhões (2012), mas despencou novamente em 2013 ( US$ 8 milhões).

Porém. se os indicadores econômicos mostram cenário complicado na contratação de servidores a coisa vai de vento em popa. O número de funcionários públicos explodiu. Na Prefeitura de Boa Vista, que tem 315 mil dos 496 mil habitantes do estado, o quadro saltou de 2.452 servidores em 2006 para 3.930 em 2010. E fechou 2013 com 5.100, alta de 59,1% sobre o ano anterior. No governo estadual, que tem 16.171 servidores, o aumento foi de 10,9% – sobre 2012. Os repasses da União eram de R$ 1,8 bilhão (2009) e chegaram a R$ 2,4 bilhões (2013).

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Atuação de ONGs aponta ausência do Estado, diz procurador

Para o procurador de Justiça do Estado de Roraima, Edson Damas da Silveira, a presença de ONGs e instituições de apoio aos índios no Estado é uma consequência da ausência do Estado brasileiro nas comunidades indígenas. “Cabe a nós, autoridades, trabalhar para a aproximação do Estado brasileiro das comunidades e para suprir as demandas deles”, argumenta Silveira.

O procurador  (veja a entrevista) , que é especialista no tema indígena, lembra que a atuação das entidades e ONGs internacionais no Brasil é legal. “Desconheço a existência de processos judiciais ou investigações sobre eventuais irregularidades de pesquisa pirata de produtos naturais nas terras indígenas de Roraima”, afirma.

“Todos os pedidos de pesquisas ou acessos às terras indígenas são rigorosamente controlados pelos órgãos do Executivo, como Fundação Nacional do Índio (Funai), pelo Ministério Público e pelos próprios índios”, explica.

Edson Silveira ressalta que não há informações de denúncias formais de brasileiros interessados em estudar o ambiente indígena que tenham dificuldades adicionais em relação a projetos ou estudos conduzidos por pesquisadores estrangeiros em Roraima. “Se há algum caso, precisa ser denunciado para que o Ministério Público investigue”, disse o procurador.

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Entrevista com Aud Marit Wiig, embaixadora da Noruega no Brasil

EmbaixadoraAudMaritWiig/Divulgação

 

1. Por que seu país financia projetos em áreas indígenas no Brasil?

Em 1983, a Noruega criou uma linha específica de apoio aos povos indígenas. O Brasil foi o país-piloto escolhido para receber recursos dessa iniciativa, que se estende até os dias atuais. O compromisso maior do programa é contribuir com o Brasil para a promoção dos direitos humanos de seus povos indígenas, em conformidade com a Constituição do Brasil e dos tratados internacionais assinadas tanto pelo Brasil como pela Noruega; o mais importante sendo a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pela Noruega em 1990 e pelo Brasil em 2002. Na Noruega, as políticas públicas direcionadas às necessidades do povo indígena sami têm tido importantes avanços nas últimas décadas, a principal delas talvez sendo a criação do Parlamento Sami em 1989.

2. Quais as áreas de interesse da Noruega e por quê?

A Noruega vem firmando parcerias de longa duração com várias associações indígenas e organizações não governamentais indigenistas no Brasil. O foco tem sido o apoio institucional, muitas vezes em conjunto com atividades de monitoramento, planejamento e capacitação. A contribuição enfatiza o fortalecimento de atores locais para que estes tenham uma participação mais construtiva e efetiva nas políticas indigenistas nacionais. Para tanto, o programa busca: estimular o fortalecimento institucional dos parceiros para que estes desempenhem mais eficazmente o seu papel enquanto atores independentes, representativos e transparentes; apoiar processos de interação entre demandas indígenas e políticas públicas, contribuindo para que parceiros ampliem sua participação na defesa de direitos e no controle social; e promover equidades nas questões relativas a gênero.

3. Qual sua avaliação dos resultados desses financiamentos? Há avanços nas comunidades?

A avaliação da Noruega é que, nas últimas três décadas, o apoio norueguês tem contribuído significativamente para o desenvolvimento e fortalecimento do movimento indígena no Brasil. Por sua vez, o fortalecimento desse movimento tem tido influência no reconhecimento de direitos indígenas pelo Estado brasileiro e no aprimoramento de políticas públicas voltadas aos povos indígenas.

4. Como a senhora avalia o tratamento pelo Brasil das comunidades indígenas?

O Brasil é um país de dimensões continentais, com uma variedade muito grande de povos, línguas e costumes. Houve grandes avanços no reconhecimento dos direitos indígenas, mas ainda há desafios, principalmente em relação à sua implementação. A equipe da Embaixada tem viajado extensivamente para se familiarizar com todas as regiões do Brasil. Os Oficiais de Programa que trabalham com o Programa de Apoio aos Povos Indígenas no Brasil visitam os parceiros regularmente. Eu tive a oportunidade de conhecer várias organizações parceiras do programa, bem como diversas lideranças indígenas.

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‘Paraguai do Norte’ atrai brasileiros na fronteira

Se por um lado a economia agrícola do Estado de Roraima sofreu um baque depois da decisão do Supremo Tribunal Federal, em dezembro de 2009, que determinou a demarcação contínua das terras da reserva Raposa Serra do Sol e a saída dos arrozeiros da região, nos últimos meses os roraimenses descobriram uma nova fronteira de comércio popular que tem atraído consumidores e comerciantes interessados em comprar e revender produtos a preços baixos.

Na cidade de Lethem, de cerca de 5 mil habitantes, na Guiana, a 125 quilômetros da capital Boa Vista pela Rodovia BR 401, uma invasão de brasileiros, moradores da região e turistas, faz a festa das lojas de produtos chineses de baixo preço. Irmã de fronteira de Bonfim, o último município de fala portuguesa na ponta da BR 401, a cidadela guianense recebe também lojistas que abandonam a cidade de Santa Elena, na Venezuela, a 340 quilômetros, e atravessam a ponte do Rio Tacutu para aproveitar as vendas de roupas, calçados, bolsas, perfumes, brinquedos, bicicletas, pneus e até ar-condicionado.

Em conta. “Roupas e calçados são coisas que saem muito mais em conta do que no Brasil”, disse a brasileira Larissa Santana, moradora da capital Boa Vista que frequenta as lojas em Lethem. Ao lado do marido, Daniel Carlos, Larissa contou que os descontos chegam a 80% em relação aos produtos vendidos no Brasil. E o pagamento pode ser feito em moeda brasileira.

Em janeiro, período de férias, controladores brasileiros da fronteira registraram a passagem de 2.500 carros por dia, aos sábados, principal data de compras em Lethem.

A fama das promoções e dos preços acessíveis tem provocado romarias não só de moradores de municípios de Roraima, mas até de Manaus, que fica a cerca de mil quilômetros pela BR 174, rodovia que atravessa Roraima e liga a região amazônica ao Caribe.

Com ruas de mão inglesa (tráfego invertido para motoristas brasileiros), o comércio de Lethem está longe dos volumes de negócios de uma Rua 25 de Março, José Paulino ou Brás, em São Paulo. Mas dá sinais que a aproximam de ambientes de livre comércio de fronteira como o das cidades paraguaias Pedro Juan Caballero e Ciudad Del Este.

E não são somente os consumidores com reais no bolso que estão mudando a paisagem de Lethem. Comerciantes também aproveitam a oportunidade para faturar na cidade guianense. “O movimento nos últimos meses cresceu cerca de 40%”, afirmou o comerciante Weverton Brito, ele próprio um brasileiro, morador da vizinha Bonfim, que atravessou a fronteira de Roraima para surfar na onda do lado de lá da ponte.

Impostos. Proprietário do comércio, Brito disse que a chegada dos brasileiros a Lethem atraiu lojistas até de Boa Vista. “O imposto que se paga na Guiana fica em torno de 10% do preço da mercadoria. Isso baixa o preço para o consumidor. E os comerciantes estão vindo para cá aproveitar esse movimento”, afirmou o comerciante, contando que espera obter neste ano um faturamento mensal de R$ 800 mil.

A oportunidade na fronteira tem sido a saída para comerciantes que dizem enfrentar burocracia em Roraima após a demarcação de terras indígenas. Segundo eles, abrir uma empresa é “normal”, mas o problema é tocar o negócio, em função da exigência de documentos de posse de terras para obter crédito e empréstimos no banco, por exemplo.

“Isso aqui é o Paraguai do Norte”, emendou Richardson Thomé, também lojista que corre para se colocar no mercado guianense de olho nos reais dos compatriotas. Thomé, que tem negócios em Boa Vista, acaba de abrir uma loja de eletroeletrônicos na Guiana e já se prepara para ampliar o faturamento. Em um mês planeja vender também roupas e perfumes, que importa dos Estados Unidos. Segundo o comerciante, a expectativa de faturamento está em torno de R$ 200 mil por mês.

Os negócios não prometem ganhos somente para brasileiros, que compram ou que vendem. “Hoje há pelo menos dez lojas grandes de chineses aqui”, disse Thomé. “São chineses que tinham lojas e mercados em Santa Elena, mas fecharam lá”, contou o brasileiro.

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Gasolina é trazida da Venezuela

Parado à beira da BR 174, em frente à estação rodoviária de Pacaraima, cidade cravada na Terra Indígena São Marcos, no extremo norte do País, divisa com a Venezuela, um homem com um celular na mão controla o movimento dos policiais militares no posto na entrada da cidade, a 220 quilômetros de Boa Vista. Quando o carro com policiais sai do prédio da barreira de controle de Defesa Agropecuária, a cerca de 700 metros, para fazer ronda, o olheiro dá o sinal para liberar os carros estacionados para que sigam viagem rumo a Boa Vista carregados com gasolina contrabandeada da vizinha venezuelana Santa Elena Uiarén.

galões

“São os caroteiros”, diz um morador. Carotes são os galões que os motoristas levam cheios do combustível ilegal, comprado a R$ 0,80 ou R$ 1 por litro, dependendo do dia. “Com a saída dos arrozeiros, a cidade perdeu economia. E o contrabando virou meio de vida aqui”, disse um servidor público que acompanha a movimentação. Em Boa Vista, o litro está de R$ 3 a R$ 3,10.

Brasileiros de Pacaraima enchem um tanque com R$ 1 no mercado paralelo. Em Santa Elena, venezuelanos compram um litro por 25 centavos de bolívar. Muitos revendem o combustível aos caroteiros,  que atravessam a fronteira em carros velhos adaptados com reservatórios de até 350 litros.

A prática do contrabando se agravou na região nos últimos meses, quando autoridades venezuelanas apertaram o cerco aos brasileiros e começaram a pressionar seus compatriotas que comercializavam a gasolina. Vender gasolina para brasileiros hoje dá cadeia em Santa Elena.

“A venda desse combustível no Brasil é ilegal”, diz um policial, mostrando o pátio da Receita Federal com veículos adulterados detidos. “Quanto mais a gente pega caroteiro, mais eles aparecem. Aqui, uns 85% dos casos são de contrabando de gasolina”, afirma o policial. Desde setembro, pelo menos 20 motoristas foram presos naquele trecho.

Tanque extra

Na região, os veículos turbinados com tanques-reserva e galões escondidos também são conhecidos como carros-bomba. Não por fornecerem combustível barato, mas porque explodem na estrada. Nos retões da BR 174, livres de fiscalização da polícia rodoviária, entre Pacaraima e Boa Vista, a estrada é enfeitada por carcaças queimadas abandonadas. 

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(Textos da reportagem publicada no Estado, atualizados e ilustrados -em 5/02- com links de entidades e ONGs)

 

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