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Haddad-Erundina: a surpresa não está na saída; está na entrada

Pablo Pereira

20 de junho de 2012 | 08h39

Dizem os especializados que a política é a arte de olhar para a frente. Mas, às vezes, o passado volta e atropela tudo. Quem acompanha a história recente da política em São Paulo não deve ficar surpreso com a desistência da deputada Luiza Erundina (PSB) do cargo de vice na chapa de Fernando Haddad (PT). A novidade do caso Haddad-Erundina, o fato mais importante desde a decisão de José Serra (PSDB) de voltar a disputar a cadeira de prefeito, está mesmo é na aceitação do convite pela ex-petista.

Erundina teve uma forte presença no PT desde a formação do partido em São Paulo, do qual foi uma das fundadoras em 1980. Professora, militante do partido quando o PT ainda era um nada do ponto de vista eleitoral, mas carregava enorme peso político no País na luta pela redemocratização, ela foi eleita vereadora já em 1982. Depois, deputada estadual em 1986. E, pelo PT, chegou à Prefeitura em 1988.

Mas o grupo paulista do PT, na época comandado diretamente por Lula, que agora novamente dirige pessoalmente a campanha petista para a sucessão na cidade, trombou com a prefeita quando estourou o caso Lubeca, escândalo político que tinha no centro uma denúncia de propina de US$ 200 mil envolvendo um empreendimento imobiliário e dinheiro para campanha eleitoral para presidente da República. Erundina usou mão-de-ferro na ocasião e exonerou o então secretário de Negócios Jurídicos, Luiz Eduardo Greenhalg, à época braço-direito de Lula na sua já iniciada corrida em direção ao Palácio do Planalto. Greenhalg sempre negou qualquer participação no escândalo.

A posição da então prefeita deixou fortes cicatrizes na relação com o grupo Articulação, majoritário no PT. Mais tarde, em 1993, Erundina recebeu o troco. Foi perseguida no partido por ter aceitado fazer parte do governo de Itamar Franco, na crise da sucessão de Collor, como ministra da Secretaria da Administração Federal. Sem espaço no PT, teve de continuar sua luta política no PSB.

A surpresa, portanto, foi ela aceitar a costura para fazer parte da chapa de Fernando Haddad. Talvez Erundina apostasse, ingenuamente, num olhar adiante, amparada por uma renovação representada por Haddad. Mas… E a entrada de Maluf na cena, agora alegada pela deputada para retirar-se, pode ter sido só a gota d’água.

O tamanho do estrago dessa aliança mal arranjada, de ambos os lados, só poderá ser avaliado com exatidão no dia da eleição. Mas a próxima pesquisa de opinião sobre voto já deve apontar reflexos do conflito entre a cúpula do PT, que quer eleger Haddad a qualquer custo, e a  antiga militante – que carrega nas costas velhas marcas das práticas petistas de fazer política.

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