Fugindo da crise, brasileiros buscam vida melhor no Canadá
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Fugindo da crise, brasileiros buscam vida melhor no Canadá

Pablo Pereira

10 Fevereiro 2016 | 10h40

Insatisfeitos com a economia e com medo da violência urbana dos grandes centros, brasileiros tentam se salvar olhando para fora do país. Nos últimos meses, escritórios especializados em imigração na British Columbia (BC), oeste do Canadá, registram aumento de até 40% na procura por informações sobre como abandonar o Brasil para tentar a vida na fronteira gelada da América do Norte. E os registros do Consulado Geral do Brasil em Vancouver mostram que o número de brasileiros na região subiu de 5 mil, em 2013, para 6.800. Em todo o país, o Itamaraty estima haver 39,3 mil brasileiros – eram 36,6 mil em 2013 e 25,1 mil em 2012.

“O movimento de consultas sobre imigração subiu cerca de 40% no segundo semestre, em relação aos primeiros seis meses de 2015”, afirma a empresária brasileira Marilene Quintana, consultora de imigração de Vancouver. De acordo com a empresária, os interessados são profissionais especializados com formação superior que planejam mudar de vida e de país.

Canadá

Estabelecida na BC (foto acima) há quatro anos, depois de ela própria ter migrado de São Bernardo, região do ABC paulista, a consultora afirma que a mudança de país não é um processo barato, a decisão exige tempo para amadurecimento e a burocracia pode demorar até um ano – e deve ser assim mesmo porque trata-se de decisão naturalmente delicada, que requer persistência e recursos financeiros.

“Entre taxas do governo canadense e os trabalhos profissionais de um especialista o processo pode variar entre 4 a 6 mil dólares canadenses (CAD)”, avalia a consultora. E a pessoa tem ainda de comprovar a posse de no mínimo CAD 12 mil em conta bancária, valor suficiente, segundo as autoridades da imigração, para se manter no país por pelo menos três meses.

Mas a empresária pondera que, uma vez tomada a decisão final e conquistada a autorização de residência, há ganhos que fazem a diferença não somente na qualidade de vida, mas também nos investimentos. Com escritório, que acaba de ser expandido para atender ao aumento da demanda, na região central (Downtown) de Vancouver, ela cita como exemplo o mercado imobiliário. E compara os preços de imóveis da cidade com os do Brasil.

A consultora explica que os brasileiros entram em uma lista e o governo canadense é quem faz um convite para a imigração. O domínio do idioma inglês, no caso da BC (francês, no caso de Quebec), é fundamental para alcançar a pontuação mínima necessária, em torno de 450 pontos, para o início do processo. “Mas o que se nota nas consultas é que não é aquele brasileiro que espera passar um tempo fora para depois retornar”, afirma Marilene Quintana. “É gente que quer mesmo deixar o Brasil”.

Para o brasileiro Marco Castro (foto abaixo), que também trabalha com imigração na BC, o Canadá oferece uma excelente qualidade de vida e é boa opção de negócios. Morador de Vancouver há 20 anos, ele concorda com o aumento nas consultas de interessados na imigração.

Marco Castro Vancouver

Mas Castro pondera que a procura de hoje não tem relação com as alterações recentes do câmbio, que é mais favorável no Canadá do que o dos EUA – o dólar canadense nas última semana de janeiro estava na casa dos R$ 2,80 enquanto que o americano batia nos R$ 4,00. “O brasileiro quer mesmo é se mudar e aí câmbio não entra nesta conta”, diz. Segundo ele, o perfil do migrante brasileiro é de adulto com curso superior em busca de estabilidade. Castro conta que a clientela dele se concentra em São Paulo e Nordeste.

De acordo com o consultor, que administra um cartório em Vancouver, um dos tipos de profissionais mais procurados atualmente no mercado de trabalho canadense, além de profissionais liberais como médicos, engenheiros, especialistas em tecnologia da informação, é de gente com experiência em cozinha e gastronomia. “Um bom chefe de cozinha é ouro por aqui”, diz ele.

Advogada

A advogada Danielle  Roseno é um exemplo dessa migração de profissionais qualificados. Com família em São Paulo, desiludida com a situação brasileira, ela migrou. Em Vancouver, Danielle mantém um blog com informações sobre a decisão de ir embora do Brasil. Ela conta que se decidiu pelo Canadá após episódios de insegurança pública. Ela e o marido já estão no país há seis meses.

No meio da transferência e da fase de adaptação à nova realidade, Danielle chegou a pensar em abandonar a carreira e mudar de ramo profissional no Canadá. Mas já não pensa mais assim. Ela planeja aproveitar a formação brasileira em direito e complementar a experiência com estudos adicionais na área canadense. “Nós queremos é ficar aqui, sim”, afirma.

Estudantes

Segundo o embaixador Ernesto Otto Rubarth, Cônsul Geral do Brasil em Vancouver, “há também uma população flutuante de estudantes brasileiros que passam até 6 meses e então retornam ao Brasil”. Ao todo, conta Rubarth, a nuvem de brasileiros que circula na região tem por volta de 10 mil pessoas. É comum quem anda no excelente sistema público de transportes da cidade, todo integrado com ônibus, trens e barcos, como o Sea Bus, que leva de Downtown para North Vancouver, ouvir português falado por grupos de jovens em período de intercâmbio.

“O Consulado está bem preparado para atender a essa demanda e hoje temos aqui uma preocupação também em apoiar uma iniciativa de educação e o ensino do português como língua de herança para as crianças daqueles que estão vivendo aqui”, avalia Rubarth. Nas eleições de 2014, os brasileiros inscritos para votar no Consulado de Vancouver eram 2.450. O número de brasileiros que obteve residência permanente na BC, porém, ainda é baixo – apenas 205 no ano de 2014 (160 em 2013).

O diplomata brasileiro, que está há três anos no posto, lembra que houve forte fluxo de brasileiros para trabalhar em mineração e nas empresas de energia da província de Alberta. Mas ele alerta que a queda no preço internacional do petróleo está afetando exploradoras de óleo e gás de Alberta e pode haver desemprego na região atingindo os brasileiros.

Negócios

A migração para a região oeste canadense só não é maior porque há hoje uma concentração dos negócios brasileiros na costa leste do Canadá, região de Toronto. A preferência pela cidade do outro lado do país, que a consultora Marilene Quintana trata como a “São Paulo que deu certo”, somada com a barreira alfandegária americana que impede o acesso direto de passageiros e produtos brasileiros ao lado oeste, são entraves para o desenvolvimento do comércio do Brasil na BC.

Mas essa situação também pode começar a mudar a partir de abril quando novas regras americanas para imigração devem entrar em vigor. Espera-se um regime de autorização online de vistos americanos, o que deve facilitar as viagens e beneficiar os negócios.

Novo caminho

De acordo com o embaixador, que tem jurisdição também sobre as províncias de Alberta e Saskatchewan, Yukon e os Territórios do Noroeste, a nova rotina na alfândega dos EUA pode significar a abertura de caminho do Brasil para a Ásia diretamente por Vancouver.

O diplomata, que já trabalhou na representação brasileira na Coreia do Sul, avalia que ainda não há um volume suficiente de comércio para garantir a existência de voos diretos do Brasil para Vancouver, mas revela que há interesse de empresas de logística canadense em criar na cidade, o maior porto do país no rumo da Ásia, um ponto de apoio para o trânsito de passageiros e produtos brasileiros para China, Japão e Coreia.

Rubarth declara ainda que há também interesse de negócios no sentido inverso. O Canadá quer investir mais na mineração de cobalto no Brasil, além de contatos com capital chinês que hoje opera no Canadá e tem planos para ingressar em obras de infraestrutura no Brasil. “O Brasil está barato”, argumenta o Cônsul.

Burocracia

Mas o embaixador admite que há dificuldades legais a serem removidas no processo de ampliação dos investimentos do capital internacional no setor mineral. A regulamentação do setor minerador no Brasil, que tem tramitação arrastada no Congresso, ainda atrapalha os negócios. Diante da burocracia na aprovação para mineração, o dinheiro termina migrando para países como Chile e Peru.

Por outro lado, segundo Rubarth, o empresariado brasileiro também ainda não descobriu o potencial local de negócios da British Columbia, área que tem alto poder aquisitivo e uma classe média com hábitos de consumo focado na qualidade de vida oferecida por Vancouver, um paraíso que tem praias no verão e estação de esquis no inverno.

“Eles aqui estão muito voltados para o comércio com os EUA e a Ásia. Mas Vancouver tem potencial de negócios, por exemplo, para consumo de produtos naturais brasileiros como os sucos de frutas”, explica o embaixador. Segundo o diplomata, o Brasil poderia aproveitar-se do fato de a cidade se planejar para aparecer ao mundo como uma cidade “verde”, com uma preocupação de vida saudável da sua população, que está em torno de 2 milhões de habitantes na região metropolitana.

Balança

O movimento comercial brasileiro com BC está hoje na casa dos CAD 1,5 bilhão de dólares por ano, sendo que  cerca de CAD 750 milhões estão no setor da exportação de adubos e fertilizantes para o Brasil, principal item da relação bilateral. “Vivemos hoje uma situação de equilíbrio na balança comercial entre os dois países”, resume Rubarth. No país todo, o comércio geral está na casa dos CAD 5,5 bilhões e o estoque de investimentos brasileiros no Canadá, segundo o embaixador, anda na casa dos CAD 18 bilhões.

“Mas esse investimento está muito concentrado no lado leste, em Toronto”, explica. “Deveríamos olhar mais para esta parte oeste do país também”, argumenta. “O Brasil hoje exporta commodities, como açúcar, café, ouro”, conta o diplomata. Mas há espaço para crescer em pesquisa, educação, tecnologia e outros produtos. “Eles aqui valorizam muito também esse setor de games e tecnologia da informação, com centros de startups”, diz, ressaltando que há espaço para investimentos brasileiros em parcerias de negócios com centros formadores de profissionais, como a Universidade da British Columbia (UBC).

De acordo com dados da Câmara de Comércio Brasil Canadá (CCBC), a expectativa dos empresários brasileiros é a de exportar para o Canadá principalmente produtos alimentos e bebidas, além de cafés especiais, mármore e granito. Em São Paulo, a CCBC planeja para julho a visita de investidores canadenses a fazendas de café no Brasil.

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A imagem acima foi feita por mim em fevereiro no mirante quando subia para a Cypress. Para ver mais da Cypress Bowl Rd no Google Maps

(Texto atualizado em 17/02)

 

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