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Filme sobre os garotos de Compton é uma pedrada

Pablo Pereira

25 Janeiro 2016 | 10h17

Um filme que conta um pedaço importante da história recente dos Estados Unidos e mostra como a comunidade negra americana viveu – e ainda vive –  no fio da navalha está hoje no meio de baita polêmica racial em Hollywood. É Straight Outta Compton, indicado para o Oscar de roteiro original, um filme-denúncia, obra que narra fatos reais e provoca sentimentos variados no espectador ao contar a história de um grupo de cinco jovens que anos 80 sonhava em fazer música e sofria com abusos da polícia.

Os personagens são hoje gente de peso, referências do rap como Ice Cube, Dr Dre, Eazy-E, DJ Yella e MC Ren, a rapaziada que formou inicialmente o grupo NWA, pioneira voz musical de protesto contra a violência racial. O filme cutuca com força a ferida social americana da discriminação e escracha uma época de confronto aberto entre a “autoridade” que espancava negros na rua e a sociedade marginalizada e revoltada. Décadas depois, permanece quase tudo na mesma situação. Aquele momento de arrepiar foi parte de um caldo de cultura que, mais tarde, terminaria por desembocar na então inimaginável eleição de um afroamericano para a Casa Branca.

Mas o filme mostra também os conflitos internos entre os próprios negros na indústria do hip-hop, suas disputas nada amigáveis – emboscadas, xingamentos, tiroteios. E, de quebra,  dá uma palinha de monstros da coisa toda como Snoop Dogg e até mesmo Tupac Amaru Shakur, considerado um dos melhores de todos, assassinado em 1996 numa trama até hoje não totalmente esclarecida.

O filme não deixa para trás os oportunistas picaretas e violentos que viram no sucesso inicial da NWA uma oportunidade para ganhar dinheiro no limite da marginalidade. A fita do diretor Felix Gary Gray, com roteiro de Andrea Berloff e Jonathan Herman, é uma pedrada!

Esta foi a época de ouro da criação desse gênero musical, o “gangsta rap”. Tempo de usar a letra das músicas e os shows para escancarar a barra pesada das ruas, reafirmar a resistência à discriminação e de servir de ponta de lança de um movimento de forte protesto, que marcou a cultura das periferias urbanas na América e se projetou para, por exemplo, as zonas pobres de São Paulo.

Depois dessa banda poderosa, porém, o rap não foi mais o mesmo. Nos EUA, exceto por umas poucas personalidades – Marshall Bruce Mathers III, o Eminem; e Shawn Carter, o Jay-Z – herdeiras dessa turma, só que com uma pegada mais social, o rap foi transformado num rame-rame de letras sobre o glamour do dinheiro, historinhas melosas de como pegar mulher gostosa e blá-blá-blá.

Este é um filme que merecia mais.

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