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Férias, cidades, onças e ursos

Pablo Pereira

10 Novembro 2011 | 22h06

Os paulistanos têm, mais e mais, se arriscado fora dos limites da grande cidade que se ergueu sobre taipa e pedregulho, cresceu de repente, no Século 20, varou várzeas e rios e tornou-se um emaranhado de quase 100 mil ruas e mais de 11 milhões de viventes. Milhares deles “vazam” da megalópole nos finais de semana, esbaforidos, em todos os rumos, em busca de compensações telúricas para seus dias de reclusão urbana na faina da sobrevivência.

E, na caçada ao descarrego, o paulistano não usa somente as boas estradas como modernos varadouros que levam ao conforto das férias e feriados. Também nos aeroportos, com destinos cada vez mais distantes, nota-se acúmulo de gentes que vão, ansiosos, e que voltam, revigorados.

Só pelo aeroporto de Guarulhos, de janeiro a setembro, segundo a Infraero, passaram 13.635.799 pessoas em embarques e desembarques domésticos. E outros 8.537.775 fizeram embarques e/ou desembarques em voos de (ou para) outros países. São mais de 22 milhões de operações. Para ajudar na comparação, no país inteiro, considerando todo o movimento dos aeroportos, a Infraero registrou 119.746.166 de operações domésticas e 13.608.785 de operações internacional. É gente à beça viajando de avião.

Tem sido assim, de maneira geral, desde que uma parte importante da população começou a amealhar mais renda, lá nos anos 90 – lembram da empregada do ex-presidente Fernando Henrique, uma senhorinha que foi passar as férias na Europa? Pois então! Já faz anos que se viaja como nunca antes neste país. Desde os tempos nos quais a Grécia, coitada, atraía como paraíso afrodisíaco de águas claras e muita história.

Pois, agora, para quem deseja ir ao exterior, está com grana, mas quer evitar o conturbado berço da velha democracia, lá vai uma sugestão. Devidamente testada e aprovada. Mas cuidado: é preciso ter sangue frio. Na verdade, é preciso ter muito sangue quente. Trata-se de uma maravilha canadense chamada Vancouver.

Nos últimos anos, essa tem sido uma das melhores, quando não é a melhor, cidade do mundo para se viver, segundo o ranking anual da revista The Economist. E quando falei de testada, é isso mesmo. Eu mesmo testei. Já faz meses, mas parece que foi ontem. Andei pelas montanhas com neve à altura das canelas, numa das mais excitantes paisagens que já vi – e pisei. E me apaixonei.

Noves fora a elevada qualidade de vida, o transporte público de fazer inveja e o alegre clima de estudantado – como na velha vila paulistana imperial, que abrigou maravilhosos festeiros, barulhentos, irreverentes, gente que hoje é venerada, como Castro Alves, Fagundes Varela e tantos outros intelectuais – a cidade canadense oferece ainda um inesquecível cheiro silvestre, de mar e mato. Tudo geladinho.

No parque do Ibirapuera deles, que fica no alto de uma montanha chamada Grouse Mountain, essa pureza toda é alimento para humanos e ursos. Isso mesmo. Há ursos selvagens vivendo em harmonia com as pessoas. E, para além daqueles que moram no parque, protegidos, há outros, soltos, que descem dos bosques e frequentam as ruas da cidade em áreas tranquilas. Já imaginaram o que é viver assim? Criar os filhos com essa perspectiva?

Outro dia, quando uma onça foi encontrada em uma casa aqui nos arredores da Serra da Cantareira, lembrei de Vancouver. São belos acontecimentos esses encontros dos racionais maquinados com os que estão em puro estado natural. Como cá, lá os bichos deles produzem uma espécie de fascínio. Os deles, ainda mais instigantes, principalmente para as crianças: nesta época eles entram no sono da hibernação. Tente explicar isso para um menino!

Tudo isso me veio à cabeça quando recebi, por e-mail, outro dia, as primeiras fotos da verdejante Grouse sendo pintada de branco. Era a primeira neve da temporada. Uma festa da natureza.

Bueno, se já chegamos até aqui nesse papo de recuerdos, uma última “viajadinha”: será que aqui, na antiga vila jesuíta, quando as onças passeavam nas matas do Caaguaçu – que vinham até o Trianon -, o carrancudo capitão-do-mato não se emocionava ao ver a cidade se enfeitar com a brancura da geada?

Duvido!

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