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Falta administrador, mas ainda tem sabiá e maritaca

Pablo Pereira

25 de janeiro de 2012 | 10h32

No cinema, quando quer informar ao espectador que o que ele está vendo se passa num ambiente de cidade grande, o diretor costuma usar o truque sonoro das sirenes de ambulância de fundo. E o sujeito logo entende que a coisa ali é barra pesada, que trata-se de um modo de vida urbano com toda a complicação que dessa realidade advém.

São Paulo é assim. Complexa, gigante, com muitas sirenes e interesses de todos os tipos. Ricos, pobres, remediados, desamparados, todos convivendo num espaço que vem sendo adensado há 458 anos, completados nesta quarta-feira, sendo que seu crescimento vertiginoso – o que em parte explica muitas das atuais mazelas – ocorre a partir da década de 1940, quando a cidade tinha 1,3 milhão, e salta, em seis décadas, para 10,4 milhões (2000) e 11,2 milhões (2010), segundo os números do IBGE. É muita coisa.

Não é que o movimento criado por toda essa massa seja o culpado pelas dificuldades da vida na terceira maior aglomeração urbana do mundo (a cidade é polo atrativo e também influencia seus vizinhos, criando uma mancha que forma uma megalópole). Não. Essa montanha de gente, que é vítima cotidiana da violência, do trânsito, do abandono, das enchentes, fez riqueza e pagou seus impostos, encheu o caixa do poder público com seu suor. Produziu muito e em diversas áreas.

Tornou-se centro criador de um modo de vida de ponta no país. Atraiu imigrantes no passado como atrai investimentos no presente. A cidade tem um orçamento municipal de R$ 38,7 bilhões. Tem ciência top, gastronomia nota 10, arte fina, indústria avançada, emprego qualificado – e pelo menos três clubes de futebol com equipes de alto desempenho (São Paulo, Corinthians e Palmeiras). Ah, e tem a Lusa (de Antonio Manuel Leria, Flávio Gomes e Luiz Carlos Duarte)!

O que faltou foi produzir administrador público competente, honesto e com visão de estadista, gente com olho estratégico e sem a carga pessoal dos interesses de grupelhos ou partidos, à esquerda ou à direita.  Faltou foi gente de espinha ereta para administrar os conflitos, que se acumulam nesse mundão paulistano, pensando na cidade.

Deslumbrados pela importância da caneta que têm às mãos, os gerentes de São Paulo sentam-se naquela cadeira muito famosa, no Vale do Anhangabaú, com os olhos no estrelato de uma outra cidade, Brasília, e não em Sapopemba, Cracolândia  – ou nas águas do Ashton Kutcher.

Porém, mesmo com todas essas amarguras, o cachorrão vai adiante. E ainda oferece ambientes absolutamente bucólicos para se viver em diversos bairros. Dos elegantes e sofisticados aos mais simples e acolhedores. Há até locais nos quais se nota o barulho dos aviões, mas é raro o nervoso alerta das sirenes. E é possível, sim, curtir, não muito longe do Masp, a voz de sabiás e maritacas.

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