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Estupros. São Paulo tem surto de bestialidades medievais

Pablo Pereira

29 Julho 2016 | 14h14

Nestes tempos de debates acirrados sobre comportamentos sociais, uma estatística paulistana chama particular atenção para um modo de vida, embora receba menor destaque nos relatórios do governo. Em abril, São Paulo registrou 38 “estupros consumados” no Estado, 9 casos na capital. Em maio, o número de casos foi de 24 (Estado), 5 deles na capital. E em junho a doideira disparou. Foram 44 casos de estupro consumado no Estado, 14 deles na capital. Em média, um caso de violência sexual a cada dois dias na cidade. Os números da Segurança Pública não deixam dúvidas sobre a presença na cidade de intolerâncias e barbaridades.

Muitas das calçadas da cidade, que o poeta Álvares de Azevedo descreveu, em 1849, como mil vezes piores do que “as calçadas do inferno”, talvez não sejam mais um desastre generalizado  – embora o desleixo e a desarrumação ainda hoje façam parte da cena urbana. Todo mundo já viu por aí um desses improvisos nas ruas, atalhos, jeitinhos dos arruamentos lá do Século 19. A população até reclama, protesta, mas convive com essas imperfeições. Mas há coisas que são demais. Vamos combinar que surto de estupros é bestialidade medieval.

As mulheres não são figuras acanhadas e sem direitos como aquelas que o “exilado” poeta, azedo e preconceituoso, descrevia como “bestas xucras” de uma festa de aniversário, segundo nos ensina o Pompeu de Toledo n’A Capital da Solidão. Azedo, preconceituoso e machista, evidentemente. E, obviamente, nem que fossem elas de “irresistível fealdade”, como acrescentava o amargo poeta, tal coisa se justificaria. Nada justifica ataques sexuais. Maus tratos, agressões de gênero, preconceitos e generalizações são traços de um tempo equivocado, inculto e feio – atos que hoje são ilegais, dão é cadeia. Comportamentos discriminadores que devem ser combatidos. Ponto.

Ao olharmos esses dados atuais da criminalidade paulista, porém, nota-se que há gente neste grande palimpsesto (expressão do professor Benedito Lima de Toledo para São Paulo) que ainda vive na barbárie. Ainda há por aí um povo que anda “trotando, talvez relinchando”, se é que posso tomar emprestada expressão do português Eça de Queiroz ao comentar, com visível rabugice e má vontade, diga-se, o sucesso da atriz francesa Sarah Bernhardt com estudantes paulistanos há 130 anos. Não merecem desculpas.

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