Esforço de erradicação do Aedes consumiu 40 anos de campanhas, diz historiador
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Esforço de erradicação do Aedes consumiu 40 anos de campanhas, diz historiador

Pablo Pereira

21 Fevereiro 2016 | 19h08

As campanhas para erradicação do mosquito Aedes aegypti, inseto transmissor de febre amarela, de dengue, chikungunya e zika vírus, ocorridas no século passado, consumiram 40 anos de combate intenso em uma campanha continental. Usando o poderoso inseticida DDT, hoje proibido, médicos, sanitaristas e técnicos de saúde pública começaram as batalhas em 1918 quando a Fundação Rockefeller bancou a campanha, depois intensificada em 1947 nas três Américas até os anos 60. O Brasil ficou livre do mosquito entre 1958 e 1967.

A dificuldade do combate nesta guerra ao inseto antropofílico é contada em pesquisa do historiador Rodrigo Cesar da Silva Magalhães (leia abaixo), feita para a Fiocruz como doutorado em História das Ciências e da Saúde. Magalhães leciona história no Colégio Pedro 2º, no Rio, e na semana passada, em entrevista gravada por Skype, comentou a trajetória do temido mosquito.

O pesquisador conta que a campanha continental de erradicação foi um sucesso na América do Sul. Mas isso não aconteceu no sul dos EUA, onde o Congresso negou pedido de verbas feito pelo então presidente John F. Kennedy e acabou com a campanha. Sem adversário nos EUA e resistente a inseticidas no Caribe, de lá o mosquito voltou a infestar os países ao sul que haviam se livrado dele em 1958, como o Brasil.

O historiador lembra que estudo sobre genética do mosquito, feito por cientistas brasileiros do IOC/Fiocruz e da Universidade de Yale, publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases em 2013, aponta o caminho da reinfestação no Brasil.

Para o pesquisador, o governo brasileiro deveria aproveitar a experiência da erradicação conseguida com a campanha continental e liderar outra vez um movimento internacional contra o inseto.

Abaixo, confira a a classificação científica do mosquito e a cronologia do inseto, segundo o estudo do pesquisador, atualizado com a crise da zika.

Descrição científica:

Ramo: Arthropoda (pés articulados)

Classe: Hexapoda (três pares de patas)

Ordem: Diptera (um par de asas anterior funcional e um par posterior)

Família: Culicidae

Gênero: Aedes.

– O aegypti do nome remete ao Egito, local de origem do mosquito. O inseto teria sido trazido ao Brasil por navios ainda durante o período do tráfico de escravos. Diferente dos pernilongos, com os quais pode ser até confundido, ele, porém, tem hábitos próprios. Por exemplo: é antropofílico, ou seja, prefere sugar sangue humano. Gosta de viver nas casas e tem hábitos diurnos, enquanto o pernilongo gosta mesmo de picar em fim de tarde ou à noite.

CRONOLOGIA

 1762 – Descrito pela primeira vez o mosquito Aedes aegypti, então denominado Culex aegypti. O nome definitivo, Aedes aegypti, foi estabelecido em 1818, após a descrição do gênero Aedes. Mas há textos, até os anos 1920, que o nomeiam também como Stegomya fasciata.

1779 – David Bylon descreve surto de dengue em Java. Por muitos anos seria conhecida como febre quebra-ossos.

1787 – Britânico Benjamin Moseley aborda “doenças tropicais” no estudo Treatise on Tropical Diseases and on the Climate of the West Indies.

1879 –  Britânico Patrick Manson, estudando o parasito da filariose descobre que os mosquitos tinham um papel fundamental na transmissão da doença. Surgem as expressões “hospedeiros intermediários” (inseto) e “hospedeiro definitivo” (humanos). É considerado o pai da medicina tropical.

1881 – Médico cubano Carlos Finlay propõe a hipótese de que a febre amarela era causada por um germe que passava por transformações fora do corpo humano, no mosquito Culex, antes de infectar o homem.

1894 – Manson propõe que, como no caso da filariose, um mosquito ou outro inseto hematófago extraía o parasito da malária do sangue humano.

1898 – Britânico Ronald Ross (funcionário do Indian Medical Service) desvenda o ciclo do parasito da malária das aves nos mosquitos do gênero Culex, seguindo a trilha da hipótese de Manson.

1901 – Médico militar americano Walter Reed confirma, em Congresso Panamericano, em Havana, a tese do cubano Carlos Finlay sobre a presença do mosquito no ciclo de contaminação.

1901 – General americano William C. Gorgas lidera em Havana a primeira campanha antimosquito, atacando larvas em água parada e colocando mosquiteiros para isolar doentes de febre amarela.

1901 – O brasileiro Emílio Ribas lidera campanha de combate às larvas de mosquito transmissor da febre amarela.

1903 – Os brasileiros Emílio Ribas e Adolpho Lutz lideram nova campanha em São Paulo. No Rio, as brigadas sanitárias de Oswaldo Cruz atacam varíola, peste bubônica e a febre amarela. Adolpho Lutz se oferece como cobaia para comprovar a contaminação da febre amarela pelo mosquito.

1905 – Americano Joseph H. White lidera campanha contra a febre amarela em Nova Orleans.

1908 – Antonio Gonçalves Peryassú, pesquisador do então Instituto Soroterápico Federal, que ganharia o nome de Instituto Oswaldo Cruz (IOC) no mesmo ano, fez descobertas sobre o ciclo de vida, os hábitos e a biologia do Aedes aegypti.

1911 – Sucesso das campanhas leva Gorgas a falar em desaparecimento da febre amarela.

1913 – Criada no dia 14 de maio, em Nova Iorque, a Fundação Rockefeller, entidade filantrópica mantida pelo magnata do petróleo John D. Rockefeller.

1915 – Fundação Rockefeller recruta o general Gorgas para meta de erradicar a febre amarela das Américas.

1916 – Criada a Campanha Mundial de Erradicação da Febre Amarela da Fundação Rockefeller. O lançamento da Campanha ocorre em 1918. Novas campanhas contra o mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença,  serão feitas nos anos 20,  30 e 40. Fundação Rockefeller promove campanhas também contra a ancilostomíase (1916-1925) e malária (1938-1942). São Paulo registra casos de suspeita de dengue, embora sem confirmação laboratorial.

1927 – Geraldo Horácio de Paula Souza assume a função de técnico da Seção de Higiene da Liga das Nações. Desta data até 1929, o médico brasileiro visitou diversos países da Europa e do Norte da África, dedicando-se principalmente ao diagnóstico e ao combate à febre amarela e à malária.

1932 – Descoberta da febre amarela silvestre no Vale do Canaã, no Espírito Santo.

1934 – O americano Fred Soper apresenta em Buenos Aires a ideia do combate continental da febre amarela. Soper ficou conhecido como o arquiteto  da erradicação do Aedes aegypti.

1937 – Max Theiler, da Fundação Rockefeller, descobre a vacina contra a febre amarela, que vinha sendo estudada desde 1931. Theiler, Hugh Smith e outros pesquisadores desenvolveram um vírus atenuado e seguro da febre amarela a partir de uma cepa que eles chamaram de 17D.

1940 – Criado no Brasil o Serviço Nacional de Febre Amarela (SNFA).

1941 – O médico boliviano Nemésio Torres Muñoz, diretor do Serviço de Febre Amarela da Bolívia, escreve carta para Fred Soper, com cópia para Lewis W. Hackett, chefe do recém criado Escritório Regional da FR para o Rio da Prata e Região Andina, com sede em Buenos Aires, propondo a erradicação continental do Aedes aegypti. Mas a ideia não avança.

1943 – Fred Soper lidera na Europa campanhas contra o mosquito anopheles, transmissor da malária.

1944 – Albert Sabin isola e identifica o vírus da dengue.

1947 – Brasileiro Heitor Praguer Fróes é nomeado diretor do Departamento Nacional de Saúde (DNS). Fróes propõe e articula a implantação da campanha para a erradicação do Aedes aegypti das Américas.

1947 – Campanha Continental para a Erradicação do Aedes aegypti é liderada pela Organização Sanitária Pan-Americana, que, em 1958, passaria a ser chamar Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), dirigida pelo americano Fred Soper. Base é a aplicação do inseticida DDT, com fumigações.

1958 – Erradicação do Aedes aegypti no Brasil. O Brasil e mais 10 países do continente são declarados livres do Aedes aegypti na 15ª Conferência Sanitária Pan-Americana, em San Juan, Porto Rico. Eleito novo diretos da OPAS, o chileno Abraham Horwitz, substitui Soper. Horwitz muda a orientação de programas verticais, como as campanhas de erradicação de Soper. Horwitz defende que as condições sanitárias de um determinado país ou região dependem do nível de desenvolvimento alcançado por ela.

1961 – Vários países da América Latina e do Caribe são certificados como livres do Aedes aegypti, tais como: Brasil, Bolívia, Honduras, a zona do Canal do Panamá, Chile, Costa Rica, Guiana Francesa, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai. O programa de erradicação também encontrava-se bem avançado na Colômbia, na Argentina e no México.

1963 – Em mensagem de 7 de fevereiro ao Congresso dos EUA, o presidente John F. Kennedy trata do problema da febre amarela nas Américas e da Campanha Continental de Erradicação do mosquito, adiantando que a proposta de orçamento do governo federal para o ano de 1964 previa a alocação de fundos para o início das atividades de erradicação do mosquito no país.

1963 – O senador democrata William Proxmire, do estado de Wiscosin, propõe corte do orçamento das despesas do programa de erradicação do Aedes aegypti dos Estados Unidos, de Porto Rico e Ilhas Virgens. O senador argumenta que a febre amarela não existia nos Estados Unidos e que, por este motivo, ela não se constituía em um problema de saúde pública para o país.

1966 – Em Washington, Miguel Bustamante, Subsecretário de Saúde e Assistência do México, pressiona o governo norte-americano, acusando-o de não estar cumprindo com as suas obrigações concernentes à Campanha Continental de Erradicação do Aedes. O México sofria ameaça de reinfestação do mosquito.

1967 –Fim do período da erradicação do mosquito. A campanha continental sofre duro golpe quando Brasil reporta à Organização a reinfestação de seu território pelo Aedes aegypti, depois de 9 anos livre do inseto. O mosquito havia sido encontrado na cidade de Belém, na região norte, o que confirmava suspeitas de que a espécie estava se deslocando do norte para o sul do continente, reinfestando, pelo caminho, uma série de países que já tinham conseguido erradicá-la. Tal constatação intensificou as acusações das Repúblicas americanas de que os Estados Unidos não estavam honrando o compromisso de erradicar o Aedes aegypti de seu território e que, por este motivo, o país se constituía no principal foco de reinfestação de todo o continente.

1968 – O Programa de Erradicação do Aedes aegypti dos Estados Unidos é transferido para a Administração de Controle do Meio, do Departamento de Proteção do Consumidor e de Higiene Ambiental. A direção da agência, no entanto, jamais foi uma entusiasta do programa, abandonado sem maiores arrependimentos.

1969 – Cirurgião-Geral do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, William H. Stewart, comunica à direção da OPAS que o Programa de Erradicação do Aedes aegypti nos Estados Unidos seria encerrado, sem planos para retomá-lo.

1972 – O veneno DDT (Dicloro – difenil – tricloroetano) é proibido nos EUA. Nascem a ideia de atenção primária à saúde e a noção de “saúde para todos no ano 2000”. A necessidade de uma redistribuição e recursos de assistência básicos influencia as condições de saúde nos países em desenvolvimento e provoca a ruptura em relação às iniciativas anteriores. O mosquito Aedes aegypti se alastra no continente. Surgem epidemias brasileiras de dengue.

1976 – Dengue está presente em diversos locais do Brasil.

1981 – Dengue reaparece com força, mais de 10 mil casos, em Boa Vista, Roraima.

1986 – Epidemia com mais de 1 milhão de casos de dengue no Rio.

1987 – Dengue aparece nos municípios de Guararapes e Araçatuba, em São Paulo.

1991 – Dengue se instala em 59 municípios de São Paulo.

2002 – Epidemias atingem Rio e Niterói e há registros de casos nos estados de São Paulo, Bahia, Ceará, Goiás e Amazonas.

2014 – Na França, a empresa Sanofi Pasteur anuncia a publicação de resultados de estudo da fase 3 da vacina contra a dengue em 5 países da Ásia com eficácia de 56,5% em crianças de 2 a 14 anos após vacinação em três doses.

2015 – Infestação de mosquitos Aedes atinge índices alarmantes. Números de infectados por dengue é recorde no País, principalmente em São Paulo, provocando mortes de crianças e idosos. Cientistas orientam ações do poder público no que chamam de “controle integrado” do mosquito e tentam descobrir formas de evitar a espécie com mosquito transgênico e reversão sexual. Instituto Butantã e Fiocruz trabalham em testes com vacina. Butantã aguarda autorização para a fase 3 (testes clínicos) da vacina tetravalente de dose única. A partir de agosto, 17 mil pessoas devem ser vacinadas na fase 3. A previsão é a de que a vacina do Butantã esteja pronta para 2017/2018. Nas casas infestadas pelo Aedes aegypti, técnicos da saúde combatem criadouros pelo modelo do início do século 20, com larvicidas, e ajuda da população.

2015 – Anvisa anuncia a vacina da Sanofi contra a dengue. Aparece no Brasil a ligação com uma nova doença, a zika, também transmitida pelo mosquito. São relatados centenas de casos de bebês com microcefalia suspeitos de contaminação pelo vírus zika, transmitido pelo mosquito.

2016 – Surgem os primeiros estudos mostrando a presença do vírus zika no cérebro de crianças vítimas de microcefalia.

…………

Fonte: 

. Tese (Doutorado em História das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro, 2013, Ministério da Saúde, Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo/Drauzio Varela