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Enchentes. Só pode ser praga antiga

Pablo Pereira

17 Fevereiro 2011 | 12h16

Há muito tempo li uma fábula que explicava as fases da lua. Havia uma ave enorme, cabeçuda, pescoço pelado, coleira de plumas, que quando a lua estava cheia, no céu, linda, voava até lá e ia comendo pedaços daquela gigantesca melancia branca até a lua ficar um fiapo entre as estrelas. Faz tempo, mas ainda lembro que havia no livrinho até o desenho do bicho, barrigudo, deitado, aguardando a lua crescer novamente lá no alto, atrás da janela.

Bom, o tempo passou. A vida não pode mais ser vista assim. É pau puro. Há muitos transtornos no caminho. E alguns deles, como as fases da lua, se repetem. Ontem, após quase três horas dentro de um carro na cidade, mais uma vez, conflagrada pela enchente, pensei: a única explicação razoável para o que acontece com as chuvas em São Paulo talvez esteja numa historinha singela – como a fábula da ave e a lua. É isso! E lembrei daquele Debret, de 1827, que mostra soldados colonizadores, no meio da selva, matando índios botocudos a tiros de bacamarte.

Essa água toda, que a nossa engenharia moderna não consegue domar, deve ser das lágrimas dos massacrados. Só pode ser praga. Algum cacique, antes do último suspiro, deve ter dito: “Jamais habitarão essas terras em paz. Os céus vos castigarão”. Não há outra explicação. Não é possível que não seja isso.

 Nossos engenheiros estudados, chefiados por espertíssimos políticos amparados por rios de dinheiro da enorme máquina de arrecadação na administração pública, já deveriam ter conseguido soluções, já teriam construído reservatórios profundos, bacias em margens alargadas suficientes para guardar as águas das chuvas e evitar perdas e danos – e até mortes de pessoas.

 Se até hoje não conseguiram – e a gente já sabe que as enchentes virão, como as fases da lua – só pode ser por que são mesmo lágrimas dos céus, praga da brava, coisa antiga.

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