As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Eco universal de uma cidade

Pablo Pereira

30 de maio de 2010 | 16h08

A cidade de São Paulo mantém, desde sempre, as portas abertas para os de fora. É uma das suas virtudes, construída à revelia de governos e cultivada pela inexorável atração exercida sobre os “estrangeiros”, sejam eles de língua portuguesa ou não.
Outro dia, olhando um quadro de Lasar Segall, no qual ele se pinta um moreno brasileiro, lembrei de uma de suas cartas ao artista russo Wassily Kandinsky, com quem manteve correspondência nos anos 30.
Kandinsky já era um grande pintor, morava em Paris. Segall também já era artista maduro, e vivia em São Paulo – para onde migrou após viver na Europa convulsionada do início do Século.
“Meus filhos crescem bem aqui no Brasil, nesta atmosfera feliz, talvez o único ambiente onde se pode ainda respirar livremente”, escreveu Segall, em alemão, em abril de 1939, em resposta a uma carta do amigo, recebida um mês antes.
Segall e Kandinsky divergiam sobre os rumos da arte e do mundo naqueles tempos. Kandinsky dizia, na carta endereçada a São Paulo, que procurava fugir da insanidade política fechando-se em seu ateliê francês para pintar; Segall não conseguia essa abstração.
Mas, como observa Vera D´Horta, que cuida do acervo do artista no museu da Vila Mariana, o que havia era uma “discordância cordial”. Vera D´Horta tratou do tema em belo ensaio publicado na Revista da História da Arte e Arqueologia, da Unicamp. E mostrou traduções das cartas e postais.
Como a cidade, os dois amigos também eram do tipo “aqui sempre cabe mais um”. Kandinsky acompanhava de longe as dificuldades da vida de um outro amigo, Victor Rubin. E pedia por ele a Segall. “O senhor não poderia levá-lo para o Brasil?”.
O “mulato” lituano já havia oferecido a própria casa para Rubin recuperar a existência. Mas o amigo não aceitara. O arranjo solidário, no entanto, não ficou no vazio. A filha dele, Nora Rubin, viveu na cidade, protegida por Segall, por muitos anos. “Transmiti suas recomendações a Nora. Ela é secretária de um professor americano na universidade daqui”, informou o pintor – que se fez paulistano – a Kandinsky.

 

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: