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Depois da classe média, o barulho é da periferia vestida de MTST

Nas manifestações do ano passado o que se via era classe média bombando protestos. Desta vez é a periferia vestida de sem-teto

Pablo Pereira

17 Julho 2014 | 19h33

Em 1995, quando o tucano Fernando Henrique Cardoso começava o primeiro mandato de presidente da República, o Movimento dos Sem-Terra (MST) decidiu apertar o cerco sobre terras que eles chamavam de latifúndio improdutivo. Abriu-se então no país uma forte disputa fundiária com a reação imediata dos proprietários rurais, empresas de agronegócios, seus representantes no parlamento, e entidades setoriais da agricultura.

O ambiente no campo derivou para a radicalização. Com centenas de invasões de terras pelo país, os fazendeiros se armaram para defender cercas e posses. E ficou famosa a sigla UDR. Foram anos de um confronto que deixou rastros de sangue com dezenas de lideranças dos sem-terra sendo mortos por pistolagem e ações de polícia, como nos casos dos massacres de Corumbiara (Rondônia), em 1995, com 9 mortos, e de Eldorado dos Carajás (Pará), em 1996, com 19 assassinatos. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) tem levantamentos dessa época tensa que mostram outras dezenas de mortes motivadas por disputas fundiárias.

Daquele ambiente sombrio nasceu a ideia de um outro enfrentamento. A pressão urbana por terrenos das periferias das cidades, ou seja, uma abordagem nova na organização popular para forçar decisões sobre moradias. Era o embrião do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), criado em 1997.

Pois agora, depois de 17 anos, os sem-teto ligados ao MTST aparecem com força de mobilização em São Paulo.

Outro dia, o Estado entrevistou um dos líderes dessa empreitada urbana do movimento que se espelha nas ações dos sem-terra. Guilherme Boulos, 32 anos, um professor que se diz marxista, defende um projeto de organização que vai além da conquista da casa própria para baixa renda.

Ele acredita que chegou o tempo de botar pressão no que ele chama de “ocupações” de áreas reservadas para “especulação imobiliária” como forma de ampliar espaço político por mudanças sociais mais para a esquerda. E o faz na esteira da pressão dos movimentos sociais deflagrada em junho do ano passado e que se prolongou nos dias que antecederam a Copa do Mundo. Boulos faz o discurso, aberto e claro, da busca de apoio popular para um governo socialista. Concorde-se ou não, é direto e reto.

Nesta quinta, 17, os sem-teto que entraram na sede da construtora Even, na Marginal do Pinheiros, saíram comemorando acordo que lhes permite mais 15 dias num terreno da empresa transformado em acampamento, o Portal do Povo.

Depois de uma pausa para a Copa, o país volta aos dias das ruas protestantes. Porém, com uma diferença. Se nas manifestações do ano passado (primeiro reprimidas, depois liberadas) o que se via era gente de classe média bombando protestos, desta vez a coisa é diferente. Quem faz barulho e incomoda nas ruas é a periferia. Vestida de sem-teto.

Leia a reportagem sobre Boulos no

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Abaixo, trechos da entrevista na TV Estadão.

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