Covid-19 se alastra; sem remédio, ciência tenta entender a doença
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Covid-19 se alastra; sem remédio, ciência tenta entender a doença

Pablo Pereira

11 de maio de 2020 | 15h34

A pandemia no Brasil chega a um nível assustador. A curva de infectados e de mortos no País atinge níveis alarmantes quando se olha a linha de casos apontando para cima, como se o Brasil perseguisse os recordes dos americanos. Os dados publicados no Estadão mostram uma tragédia que, em dois meses, já matou mais do que 4o desastres de Brumadinho. Enquanto isso, cientistas correm atrás da doença para entender os mecanismos de infecção do vírus e tentar soluções de imunização ou cura.

A doença. Observando essa cadeia de fatos nos tecidos do pulmão, o médico espanhol Moisés Labrador, do Hospital Vall D’Hebron, de Barcelona, por exemplo, publicou na web trabalho sobre a fase inflamatória da doença, período no qual o organismo parece sofrer uma desarrumação geral de seu sistema imunológico. Lembrando: a Espanha é um dos ambientes de alto índice de presença do vírus. Essa desarrumação do sistema imunológico acontece a partir de rins e fígado, que estimulam a produção de substâncias de proteção do corpo – só que em quantidades descontroladas – que acabam por provocar danos, como tromboses e outras agressões no sistema circulatório, levando muita gente à morte.

Daí as conclusões de especialistas sobre os perigos da doença nas pessoas de idade avançada ou que tenham, mesmo jovens, problemas com a pressão arterial ou suas complicações cardíacas e cerebrais. Daí, alertas importantes como aquele feito pelo cardiologista brasileiro Fernando Bacal, no Estado, ainda em abril.

Daí também o raciocínio do médico intensivista Bruno Besen, do HC, segundo o qual o que a medicina consegue hoje, na luta contra o sars-cov-2, é tentar prolongar a vida do hospedeiro, com drogas que tratam complicações da inflamação, para permitir que o paciente sobreviva para ele próprio eliminar o vírus invasor.

E daí, também, uma das linhas de pesquisa de vacina. Como a entrevista do médico e professor da USP, Edecio Cunha Neto, que acaba de iniciar pesquisa com 100 voluntários brasileiros para uma vacina “segura e multifuncional”. De acordo com o professor da USP, há hoje cerca de 170 grupos de cientistas no mundo trabalhando em uma vacina para a covid-19. O grupo de cientistas do Incor, em conjunto com o Instituto de Ciências Biomédicas da USP e a Escola Paulista de Medicina da Unifesp, a coordenação do médico Jorge Kalil, opera para detectar anticorpos e linfócitos T (células de defesa do organismo) de pacientes que tiveram a doença para, com esse material de doadores infectados, descobrir, com segurança, uma forma de evitar a invasão celular.

Veja os principais pontos da entrevista com Edecio Cunha Neto (foto: Arquivo pessoal):

O PROCESSO
“Você pega um grupo de milhares de pessoas, trata metade com a vacina e a outra metade você não trata. No final, você observa se a parte que teve a vacina desenvolveu menos as infecções. Há um pequeno numero que está em fase acelerada, se beneficiando de vacinas contra Sars, como a vacina da Universidade de Oxford, mas só saberá se a vacina é eficaz ano segundo semestre. Porém, eles já começaram a produzir em alta escala. Porque eles apostam que, se o resultado foi positivo, querem implantar a vacina imediatamente, Pode ser uma aposta arriscada, mas eles podem fazer porque eles têm recursos. A produção de uma vacina dessa natureza, com esse tipo de vetor (parte da vacina que “carrega” os componentes do sars-cov-2), com vírus de outro resfriado, que dá em macaco, não é barata, mas eles já conseguiram uma quantidade grande de doações.”

A EFICÁCIA
“É pouco provável que a primeira ou segunda vacina seja altamente eficaz. O desenvolvimento de vacinas é imprevisível até a última etapa. Temos então estas cinco que já estão sendo testadas em humanos e sairão mais rápido, mas não se pode garantir que alguma dessas vai funcionar. No caso da vacina do HIV, de todas as que foram testadas até agora, nenhuma funcionou. Entre as 170 vacinas candidatas ao testes, existem diferentes princípios e métodos.”

O PROJETO PRÓPRIO
“Na nossa a vacina, queremos colocar dentro de uma partícula semelhante ao vírus (“Vírus Like Particle”, VLP, em inglês) as regiões do vírus que são reconhecidas pelo sistema imune de pessoas que tiveram a infecção muito leve e cuja resposta imune foi suficiente para controlar a infecção e evitar que ela progredisse. Nesta etapa, obtivemos o sangue de 100 voluntários que tiveram a covid-19 e vamos estudar os anticorpos e de células T contra o sars-cov-2, que podem matar as células que foram infectadas pelo vírus. O desenvolvimento da vacina daí por diante seguirá as etapas pré-clínica em animais, e clínica com suas fases. O grupo espera montar uma vacina para primeiro estudar em camundongos capazes de ser infectados e desenvolver doença, em seguida ir para o ensaio pré-clínico de segurança, para, somente depois, seguirmos para o ensaio clínico. A nossa abordagem é mais demorada, mas por outro lado é uma aposta para gerar uma resposta imune focada em partes do vírus, que a gente sabe que teve sucesso.”

AS PARTES DO VÍRUS
“Vamos usar partes do vírus. Nesta primeira etapa estamos estudando quais as partes do vírus que o sistema imunológico das pessoas reconheceu. Vamos usar essas regiões que geraram a resposta imune que protege os pacientes. Por isso, a nossa estratégia pode demorar mais, porque vamos demorar meses estudando para identificar as regiões mais importantes. Hoje, o que estamos fazendo é testar o soro de pacientes em qual lugar da proteína “spike” do vírus, aquela que se conecta com as células, que esse soro reconhece. Identificado o pedacinho do vírus, em 100 pacientes, podemos dizer que no vírus a região que mais pacientes reconheceram é tal e tal. Então esses são os pedacinhos que vamos colocar na vacina. A gente fabrica um pequeno fragmento do vírus, que permite saber qual anticorpo ou célula T pegou em tal pedacinho. É como se estivéssemos forçando a resposta imune para aquele pedaço do vírus que a gente quer. Em paralelo com as coletas, há um componente adicional. A partir de trabalhos publicados recentemente, a equipe já fabricou fragmentos da proteína spike do vírus, para tentar induzir um anticorpo neutralizante – que bloqueia o vírus. Essa vacina vai gerar quatro respostas imunes:
1 – resposta do anticorpo neutralizante, ou seja, quais são os pedacinhos do vírus que estimulam o anticorpo que pode bloquear a entrada do vírus
2 – que pedaços do vírus podem gerar a resposta de anticorpos ligadores, que também podem ser eficazes contra o vírus
3 – células T-citotóxicas, que podem destruir as células já infectadas e que estejam replicando o vírus. Matando essa célula, você bloqueia a multiplicação.
4 – finalmente, as células CD4, que são as que auxiliam a produção de anticorpos e a geração de linfócitos T – citotóxicos.
Com isso, a gente quer fazer uma vacina multifuncional, que vai ter diversos pedacinhos favoritos dos anticorpos e células T de pessoas que tiveram a doença, tiveram boa evolução e se curaram.”

O PRAZO
“O cálculo foi de uma pesquisa entre dois anos e 2 anos e meio.”

O CUSTO
“No caso da vacina da dengue, que teve 17 mil voluntários, o custo do ensaio clínico de fase 3 foi de R$ 300 milhões. No caso do ensaio para sars-cov-2 talvez tenhamos um custo um pouco menor pois talvez sejam necessários menos voluntários, seguidos por menos tempo. Hoje temos já um financiamento de R$ 5 milhões, que vem do Ministério da Ciência e Tecnologia, mais alguns financiamentos menores. Isso parece uma quantidade de recursos grande, mas é limitada. Especialmente se a gente quiser dar a máxima velocidade, fundamental no caso da covid-19. Aí não se pode ter limites. os grupos que estão na frente tiveram dinheiro para dar uma velocidade que nunca houve. Para viabilizar o projeto, o nosso grupo espera também poder fazer captação de recursos na iniciativa privada. Estamos tentando obter doações privadas, porque aí podemos ser mais ágeis.”

A EMERGÊNCIA
“Ninguém sabe hoje o rumo que infecção vai tomar nas próximas semanas. Hoje o combate é pelo isolamento, mas a economia não aguenta um isolamento prolongado durante anos. é preciso termos uma solução biológica para que o mundo volte a funcionar haver o risco de milhões de mortes. apenas uma minoria de pessoas (estimada em cerca de 2-3% da população) se infectou e está teoricamente “imune” a novo contágio, pelo menos a curto prazo. a gente precisa muito rapidamente de uma vacina para os 97% restantes, de forma a acabar com essa epidemia. Uma vacina “fácil” costuma levar de 5 a 10 anos entre o início da pesquisa e a sua disponibilização. No momento, tentamos pela primeira vez encurtar consideravelmente esse tempo. A identificação de uma droga antiviral serviria para reduzir a mortalidade e poderia evitar a transmissão, como no caso do HIV, por exemplo, também pode ser uma saída.”

 

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