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Carestia, antiga conhecida de SP

Pablo Pereira

02 de agosto de 2010 | 08h15

“A cidade de São Paulo apresentou a cesta básica mais cara do Brasil em junho”, dizia reportagem publicada dia 5 de julho no site noticioso estadão.com.br, citando o estudo mensal do Dieese em 17 capitais. O custo de vida paulistano superava o de Porto Alegre, líder na carestia ao longo de 20 meses.

Logo lembrei dos escritos de Affonso Taunay sobre a inflação na vila antiga. Em 1685, segundo documentos centenários do “Padre Gastador”, que anotava tudo o que era consumido no Mosteiro de São Bento, um frango custava 40 réis. Para ter uma ideia do valor, transformei o ovo em unidade monetária. A dúzia de ovos custava 10 réis – ou R$ 0,83 por ovo. Frango e ovos permaneceram à mesa do paulistano nesses 325 anos. As assadeiras, com a ave douradinha, estão pelas esquinas das padarias. E a pizza, à portuguesa, que chegar à mesa sem as rodelas de ovo deve ser devolvida de pronto.

Olhando-se os preços trazidos do passado por Taunay, vê-se que com o dinheiro de um frango comprava-se 48 ovos. Fui à geladeira do supermercado: um galeto pequeno, R$ 3,99. E uma caixa de 12 ovos, R$ 3,29 – R$ 0,27 por ovo. Ou seja, um frango hoje paga 15 ovos, três vezes menos do que nos seiscentos.

Então, de volta a Taunay, para deleite do observador do século 21, a realidade inflacionária da vila colonial parece familiar. Os registros do contador do Mosteiro permitem ainda ver que se podia trocar nove frangos por um par de sapatos: 360 réis.

À época, a cidade vivia surto de consumo. Era a caça ao ouro, e a carestia se acelerava. Em 1690, o frango disparou. Saltou de 40 réis para 80 réis. A arroba do toucinho foi às alturas: 512% de aumento, de 500 réis para 2.560 réis! E o vinagre então? Também 500% de reajuste: de 80 réis (a medida) para 400 réis.

Olhando ainda o custo de vida dez anos depois, nas Atas da Câmara de São Paulo, mais um susto: a galinha, que lá em 1685 era o dobro do frango (custava 80 réis), estava cinco anos mais tarde pela hora da morte: 160 réis. E, em 1700, já se tornava quase um desaforo: a variação do preço ia de 160 réis a 4.800 réis.

 

(Texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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