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Canadá troca governo. Indígenas, os First Nations, falam em esperança

Pablo Pereira

21 de outubro de 2015 | 00h07

O parlamentarista Canadá fez domingo sua eleição e o governo do país vai trocar de mãos em novembro. Com a economia patinando, sai o líder do Partido Conservador, Stephen Harper, que há 9 anos é primeiro ministro, e entra o líder do Partido Liberal, Justin Trudeau, um jovem político, de 43 anos, filho do ex-primeiro ministro Pierre Trudeau.

Durante a campanha, além do desgaste de uma economia em baixa, Harper deu um tremendo azar. Lembram da foto do garotinho sírio morto por afogamento na praia da Grécia após o naufrágio do barco no qual a família tentava entrar na Europa? Pois é. A família já tinha pedido abrigo ao Canadá. Esbarrara na burocracia. A tragédia pegou mal na campanha dos Conservadores. É um país no qual o que acontece além das suas fronteiras tem impactos diretos internamente. Um outro debate intenso nos últimos dias, este até insuflado pelo governo para tentar embolar o debate econômico, foi o uso do véu das mulheres muçulmanas, o famoso niqab.

Entre os cidadãos canadenses das maiores áreas urbanas, de maneira geral, há uma cultura de aceitação dos estrangeiros, reconhecidamente construtores de boa parte daquele imenso país – com 9.970.610 km2, o Canadá só perde em área para a Rússia (17 milhões de km2) mas tem população de 35 milhões, que cabe inteira no Estado de São Paulo.

O Canadá é um país lindo, muita água, florestas, cidades funcionais e um tipo de vida bem distinto na América do Norte. Nota-se no povo uma cabeça voltada para a tolerância e o convívio com a diversidade. Há ursos frequentando os quintais das casas numa boa. Em vez de matá-los a tiros, assassiná-los para que não “ameacem” mais nas áreas urbanas, as famílias se protegem e aguardam que eles passem. Enormes alces, com suas galhadas na cabeça, costumam atravessar estradas asfaltadas – com os carros parados para lhes dar a preferência. E há as montanhas, belíssimas, verdejantes ou brancas de neve.

Os índios canadenses, os chamados de First Nations, são organizados e o crescente respeito por esses primeiros habitantes do lugar vai além da proteção legal. Sã0 cerca de 2% da população, mas são ouvidos. Em North Vancouver, na Colúmbia Britânica, uma aldeia indígena, à beira de um rio gelado e pedrento, fica dentro da cidade, bem ao lado da ponte que liga o bairro com o centro, atravessando o belo e agradável Stanley Park, o Ibirapuera deles.

O debate nacional sobre as terras dos índios no interior do país e os programas nacionais de educação infantil para suas comunidades, que são um sucesso educacional, são uma constante. Segundo dados do governo, mais de 80% das casas de famílias indígenas do país têm eletricidade. E eles não desaparecem como etnia, ao contrário, vivem cada vez mais organizados e fortalecidos. O país tem, ainda segundo dados oficiais, mais de 10 mil empresários que são cidadãos de origem indígena.

Se a vitória dos Liberais liderados por Trudeau sobre os Conservadores de Harper – os social-democratas do NDP, de Tom Mulcair, são a terceira força política relevante – vai melhorar a economia, afastando o fantasma da recessão, há que se esperar por Ottawa. Mas pelo menos para líderes indígenas parece ter sido uma boa. “É um grande dia”, disse ontem o chefe Derek Nepinak, de Manitoba, ao Vancouver Observer.

Já imaginaram os índios brasileiros, bem nutridos, fortalecidos politicamente, reunidos em assembleias, da Amazônia à Serra do Mar, de botocudo a guarani, discutindo eventuais apoios a este ou aquele programa de governo? E fazendo com que sua voz, a voz das diferenças, seja ouvida?

Sonhar não custa nada, já cantava o poeta da Mocidade.

 

 

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