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Cacarecos e Pernilongos

Pablo Pereira

22 Fevereiro 2010 | 12h57

Terminado o carnaval, feitos os desfiles das escolas de samba vencedoras depois de apurados os desempenhos quesito por quesito, resta o ano, propriamente dito, pela frente. Olhando biografia de um dos personagens mais interessantes da cultura da cidade dos últimos, digamos, 50 anos, o grande Adoniran Barbosa, ou João Rubinato, para os mais íntimos, e que tem primoroso prefácio de Alberto Helena Jr., encontrei a referência a episódio do final dos anos 50 que tem a ver com esse início de 2010 — carnavalesco e eleitoral.

Há meio século São Paulo protestava, irônica e frontalmente, contra os desmandos e desrespeitos da classe política deixando um claro recado: a eleição do rinoceronte Cacareco, com cerca de 100 mil votos. O belo livro de Celso de Campos Jr. Adoniran, da Editora Globo, lembra que a campanha do rinoceronte, um personagem da história paulistana, foi uma sugestão do jornalista Itaboraí Martins, de O Estado de S.Paulo, em protesto contra o baixo nível dos candidatos à Câmara dos Vereadores. O biógrafo de Adoniran escreve que Martins “sugeriu o voto no xodó da cidade”, recém chegado ao Zoológico de São Paulo, vindo do Rio.

Essa campanha “animal”, como dizem jovens de hoje, forneceu argumento para várias marchinhas de carnaval que fizeram sucesso ao lado da Aqui, Gerarda, de Adoniran. O livro tem várias delas. Cacareco continuaria na boca do povo por muito tempo, mesmo depois de sua morte, em 1962, como nos conta o excelente acervo de O Estado de S.Paulo. Cacareco virou sinônimo de desencanto. Gerarda também foi longe.

Ainda olhando o livro, lembrei de uma entrevista do então senador Fernando Henrique Cardoso, no final dos anos 80, na qual ele brincava com o tema, a eleição do Cacareco, e citava outro bicho que fez sucesso nas urnas: um pernilongo, no Espírito Santo.

Hoje os tempos são outros. Mas os políticos… Alguns continuam no tempo de Cacareco e Pernilongo.