Brasileiros treinam desminadores humanitários na Colômbia
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Brasileiros treinam desminadores humanitários na Colômbia

Pablo Pereira

13 de dezembro de 2015 | 01h06

Especialista em minas e explosivos, o capitão de fragata Wagner Dias, da Marinha do Brasil, é professor no assunto. Nos últimos cinco anos trabalha para desarmar bombas e explosivos de guerras latino-americanas como a que está prestes, se tudo der certo, a acabar na Colômbia. Desde janeiro, acompanhado pelo capitão de corveta Michel Silva, ele treina militares colombianos na base da “Armada da Colômbia”, em Coveñas, pequena cidade praieira da divisa dos estados de Sucre e Córdoba,  no mar do Caribe, a cerca de 200 quilômetros de Cartagena, e a menos de 70 quilômetros de áreas de conflito nas selvas de El Carmen, já em Bolívar (veja vídeo).

 

Peligro em Sonsón

Cariocas, habituados ao clima de insegurança das favelas e periferias do Rio, os militares brasileiros fazem parte de um seleto grupo de especialistas reconhecidos pela ONU como experts no ofício de detonar armadilhas abandonadas nos campos e vilas, atividade que o Brasil desenvolve desde 1993, principalmente a partir das desmobilizações da guerra civil em Angola. Segundo a embaixadora do Brasil em Bogotá, Maria Elisa Berenguer, o programa tem apoio com recursos de cerca de US$ 5 milhões, também visando o retorno dos pequenos agricultores para suas terras livres de minas (leia entrevista abaixo). Dias já fez esse trabalho na América Central. Desminou na Nicarágua, Guatemala, Costa Rica e Honduras. Esteve também em áreas de conflito no Peru e no Equador. Silva esteve em missão no Chile.

Desde janeiro, os dois trabalham nos campos minados colombianos. Lá já formaram grupos de cerca de 40 militares que vão aos campos cavar com as mãos ao redor de minas e outros artefatos explosivos improvisados abandonados que, ao explodirem, matam e mutilam milhares de pessoas sem distinção – soldado profissionais, guerrilheiros ou população civil.

“É preciso ter calma no trabalho no campo. Evitar a pressa pode ser a diferença entre viver e morrer”, afirma Dias, orientando alunos num dos campos de treinamento da base da “Armada”. Com uniformes de desminadores humanitários, os alunos em treinamento na base de Coveñas são profissionais experientes em batalhas nas matas do norte, área coberta pelos batalhões da Marinha. Durante uma aula de preparação do nitrometano sensibilizado, um meio copo de líquido, dentro de um saquinho plástico transparente, com poder de detonar minas ou armadilhas desenterradas, o capitão Silva demonstra aos colombianos os procedimentos de um protocolo internacional de desminagem.

 

Pedrito en Cocorná

“É importante fazer seguir integralmente o protocolo para evitar os acidentes com o desminador”, esclarece o militar brasileiro. Para um colombiano que lidera o processo de desminagem humanitária no país, os cursos dos brasileiros apontam uma realidade inversa à dos soldados, que estão em guerra há meio século. Metidos de corpo e alma no conflito, na dura realidade de combates em áreas inóspitas por meses, eles não raciocinam pelo desarme. Ao contrário, são guerreiros. São treinados para matar e para sobreviver com nada ao estresse da guerra nas selvas. E para eliminar a “ameaça” que estiver no alvo. “Quando o helicóptero descarrega a tropa, e vai embora, é você contra a mata e o inimigo que está lá”, diz um militar. Nos cursos de desminagem humanitária com os brasileiros, esses homens encontram um ambiente oposto. Aos poucos, aprendem o sentido da distensão embutido na ação humanitária da busca pelas minas “antipersonales”.

Seringa explosiva Bides

Mais ao sul e para o centro do país, em regiões já liberadas por acordos com a guerrilha ou conquistadas nos combates, batalhões de dedicados desminadores do Exército, do Bides, e técnicos das ONGs APN, da Noruega, e Halo Trust, da Escócia, também procuram por explosivos.

A Colômbia, segundo os mapas do departamento Acción Contra Minas, do Ministério da Defesa, é um enorme campo contaminado por explosivos. Uns poucos municípios, menos de uma dezena, já foram liberados. Sempre que os batalhões entregam uma área, a população faz festa. Mas o mapa das minas abandonadas mostra uma calamidade de minas presente nos 32 estados (departamentos) colombianos, muitos deles, como Arauca, Cauca, ainda com refregas militares, batalhas e tensão da guerra em andamento. E as vítimas dos acidentes com detonações chegam, em 4 de dezembro, a 11.233 vítimas. Em 2015, morreram 17 civis e 14 militares.

“É um trabalho delicado e para bastante tempo”, resume o comandante Dias, que espera, nos próximos dias, depois de formar mais uma turma, passar as férias no Brasil. Quando retornar, talvez os acordos entre governo e guerrilha já tenham avançado em Havana. E o país, belo e de população cordial com os brasileiros, possa viver em paz e democracia para tentar minimizar as dores dos mutilados e traumatizados por meio século de luta interna.

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Embaixadora do Brasil na Colômbia, Maria Elisa Berenguer.

 

“Brasil apoia esforço de eliminação de minas na Colômbia”, diz embaixadora
 A contribuição brasileira chega a US$ 5 milhões em programa de treinamento de militares colombianos; oficiais da Marinha brasileira dão aulas para desminadores humanitários na base de Coveñas 
 
O Brasil contribui com US$ 5 milhões para o programa internacional de ajuda à Colômbia no esforço de eliminação das minas no país, que tem seus 32 departamentos (estados) afetados pelo flagelo das minas após 60 anos de conflito armado. “As negociações (em Havana) vêm avançando a passos largos, algo que o governo colombiano e as Farc estão conseguindo sem mediadores”, diz a embaixadora do Brasil em Bogotá, Maria Elisa Berenguer. Em entrevista concedida ao Estado, por escrito, a diplomata explica que o programa de ajuda prevê ainda ações de apoio à agricultura familiar, uma preocupação na região marcada pelo combate ao cultivo e comércio ilegal de coca.
De acordo com a embaixadora,  há uma retomada de confiança de empresas brasileiras no mercado colombiano. Berenguer afirma também que as investigações da Lava Jato no Brasil, que atingem empreiteiras como a Odebrecht e OAS, empresas que têm contratos na Colômbia, não afetaram os negócios. “Empresas como Camargo Corrêa e Odebrecht lideram obras de grande envergadura, como a Hidroelétrica de Ituango, a rodovia Ruta del Sol e as obras para a navegabilidade do Rio Magdalena”, argumenta a diplomata. Leia abaixo a entrevista.
 
 
A Colômbia vive dias de forte tensão e debate político sobre um eventual acordo de paz discutido com a guerrilha em Havana. O Brasil participa desse processo?
O Brasil tem dado apoio firme e constante aos esforços de paz da Colômbia, respaldo que a Presidenta Dilma reiterou em sua visita de Estado, em 9 de outubro. Estamos sempre dispostos a contribuir para o processo em Havana, como foi o caso quando nos foi solicitado, em 2013, o envio de especialista para auxiliar as partes a chegar a entendimento no ponto da agenda de negociações sobre distribuição de terras e agricultura. A verdade, no entanto, é que as negociações vêm avançando a passos largos, algo que o governo colombiano e as Farc estão conseguindo sem mediadores, apenas países que prestam apoio, sobretudo logístico, às conversações. A ajuda brasileira se tem concentrado em outra dimensão da paz, a do pós-conflito. Temos dado contribuição importante para a superação dos efeitos do conflito por meio de nossa cooperação em agricultura familiar e desminagem humanitária. Esses programas incidem sobre áreas particularmente afetadas e que são fundamentais para trazer de volta a normalidade e o desenvolvimento. No caso da agricultura familiar, merecem destaque o projeto-piloto de compras públicas, financiado pelo Brasil, que está sendo executado pela FAO e pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU nos departamentos de Antioquia e Nariño e o Memorando de Entendimento celebrado entre o Ministério do Desenvolvimento Agrário do Brasil e o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural da Colômbia por ocasião da mencionada visita de Estado da Presidenta.
 
Certa vez a senhora disse que quando esteve em Bogotá, nos anos 80, a situação de insegurança pública era “assustadora”, palavras suas. O que mudou no país e em Bogotá de lá para cá?
A Colômbia passou por grandes mudanças nas últimas décadas, contrariando os que chegaram a chamar o país de “Estado falido” e mostrando sua capacidade para superar obstáculos que poucos países no mundo tiveram de enfrentar. A situação nos anos 80, e talvez até mais nos anos 90, era de grande insegurança pública, inclusive nos grandes centros. Era agressiva a confrontação entre Estado, narcotraficantes, guerrilhas e grupos paramilitares. Sucessivos governos vêm fazendo esforços desde aquela época para melhorar as condições tanto em Bogotá quanto no resto do país. A história colombiana é difícil de resumir e simplificar, mas, como exemplos dos avanços obtidos, poderíamos apontar que, já em 85, foram desmobilizadas algumas das guerrilhas, particularmente o M-19. Nos anos 90, se conseguiu enfraquecer o cartel de Medellín e derrotar Pablo Escobar, um dos maiores responsáveis pela violência que assolava o país naquele período. Os anos 2000 viram uma combinação de desmobilização massiva, particularmente – mas não apenas – dos grupos paramilitares, e de vitórias militares do Estado contra as guerrilhas.
O que vemos desde o primeiro mandato do Presidente Juan Manuel Santos é a estratégia de manter uma forte ofensiva militar do Estado contra os grupos armados ilegais, mas combiná-la com a abertura para processos de paz com as principais guerrilhas históricas (além das negociações com as Farc em Havana, há diálogos exploratórios com o ELN) e, paralelamente, implementar programas sociais e de desenvolvimento que visam a eliminar as causas fundamentais do conflito interno e incluir as populações marginalizadas, que são as que mais sofreram com a violência. Esse último ponto é de importância transcendente. Um aspecto essencial desse processo de inclusão é o esforço para levar as instituições e os serviços do Estado às regiões afastadas dos centros, uma vez que a presença débil do Estado em tais locais foi um dos principais motivos de crescimento dos grupos armados e de continuidade do conflito. Não é à toa que os integrantes do governo têm usado o termo de “paz territorial”. Nesse sentido, o apoio do Brasil à agricultura familiar e à desminagem é fundamental, uma vez que configura uma contribuição concreta para os colombianos resgatarem o pleno usufruto de seu território.  
  
Qual a participação no processo de desminagem e qual volume de recursos do Brasil neste programa? O Brasil contribui também para a recuperação das vítimas de minas?
A Colômbia é, após o Afeganistão, o país com o maior número de vítimas de minas antipessoais (mais de 11.200 casos desde 1990) e se comprometeu, pela Convenção de Ottawa de 1997, a desminar todo o país até 2021. O Brasil apoia os esforços colombianos há uma década por meio de ações da Junta Interamericana de Defesa (JID) da OEA e, desde 2015, também pela via bilateral. A ação brasileira não se fundamenta na doação de recursos, mas sim no auxílio, por meio da transferência de conhecimentos, para que a Colômbia desenvolva capacidades próprias em todas as atividades relacionadas à desminagem humanitária, o que inclui a atenção às vítimas. Nesse sentido, é motivo de orgulho que praticamente todos os pelotões colombianos de desminagem humanitária se beneficiaram, em alguma medida, da cooperação brasileira. No marco da OEA, o Brasil contribuiu com a cessão de 42 dos 51 militares que já integraram o chamado Grupo de Monitores Interamericanos (GMI) e que, desde 2009, é conformado exclusivamente por brasileiros. Criado com os objetivos de auxiliar o governo colombiano a criar capacidades nacionais em desminagem humanitária e de assegurar o cumprimento dos padrões internacionais, o GMI capacitou todos os 8 pelotões do Exército colombiano e do até recentemente único pelotão da Armada. Também foi o responsável pelo apoio e pelo monitoramento da exitosa desminagem de 80 áreas civis e das 35 bases militares que haviam sido rodeadas por minas plantadas pelo Estado. Estima-se que, apenas em cessão de pessoal ao GMI, a contribuição brasileira supere os US$ 5 milhões. Na atenção às vítimas, há de se destacar o papel do GMI na elaboração de protocolos nacionais de investigação de acidentes e apoio médico, e de evacuação e treinamento, além da formação de dezenas de enfermeiros. O GMI também já ministrou cursos de apoio pré-hospitalar e executou diversas atividades de conscientização e de apoio às comunidades afetadas pelo flagelo das minas.
Ainda no marco da OEA, o Brasil tornou-se o único país do Hemisfério a ceder militares para o chamado Grupo de Assessores Técnicos Interamericanos (Gati), estabelecido em 2015. Esse novo grupo concluiu, em 27 de outubro passado, o 1º Curso de Monitores Nacionais de Desminagem Humanitária. A conclusão dessa atividade é de singular relevância estratégica, pois conferiu à Colômbia capacidade para, ainda que em escala limitada, executar todas as etapas da desminagem humanitária com pessoal próprio. Até o fim de 2015, o Gati capacitará supervisores nacionais responsáveis pelo controle de qualidade interno do Batalhão de Desminagem Nr. 60 do Exército (Bides). Para 2016, o Gati planeja ministrar ao menos mais 2 cursos de monitores externos, outros 2 de supervisores internos e uma capacitação para civis que farão o controle de qualidade dos trabalhos de desminagem executados por ONG credenciadas pelo governo colombiano. No marco bilateral, a Marinha do Brasil enviou à Colômbia, em 2015, dois especialistas que apoiaram decisivamente a formação, em abril passado, do segundo pelotão do Agrupamento de Explosivos e Desminagem dos Infantes de Marinha (Aedim). Um terceiro pelotão concluirá sua graduação nas próximas semanas e, até o fim de 2016, outros serão ativados. Ademais, prevê-se a graduação, no próximo ano, de contingente de supervisores internos. Por fim, o Exército brasileiro também mantém na Colômbia, desde o início de 2015, por acerto bilateral, dois militares que prestam assessoria técnica para o estabelecimento de um novo centro internacional de formação para a desminagem humanitária do Exército colombiano. Prevê-se o início das atividades na nova unidade de formação para fevereiro de 2016, com a participação de instrutores de diversos países, inclusive brasileiros.
 
Qual é o tamanho da relação comercial Brasil – Colômbia?
A corrente de comércio bilateral totalizou US$ 4,1 bilhões em 2014, registrando crescimento de 165% desde 2005 e os fluxos de comércio, desde 2012, têm superado a marca dos US$ 4 bilhões. Os principais produtos exportados pelo Brasil são veículos, químicos, preparados para bebidas, pneus e chassis para veículos. Importamos da Colômbia carvão, coque, plásticos e químicos diversos.O Brasil foi, em 2014, o sexto principal sócio da Colômbia globalmente, e a Colômbia é o sétimo sócio comercial do Brasil na América do Sul. Tendo em conta as dimensões de ambos os mercados e a complementariedade da produção, existe potencial enorme de expansão do comércio, assim como dos investimentos recíprocos.
 
Qual é hoje a política tarifária entre os dois países?
O principal instrumento vigente (desde 2005) na área do comércio é o Acordo de Complementação Econômica nº 59 (ACE-59), e envolve os países do Mercosul, Colômbia e Equador. No âmbito do ACE-59, em 2015, 77,5% dos bens exportados pelo Brasil e 83% daqueles exportados pela Colômbia já estão totalmente desgravados (tarifa zero). O ACE-59 prevê que até 2018 esses índices chegarão a 84% e 87%, respectivamente. O restante dos produtos (sobretudo siderúrgicos, têxteis e automotivos) tem margem de preferência fixa e foi objeto de negociações à parte, que estão em vias de entrar em vigor.
 
Em 2012, o Brasil era o quarto maior investidor, atrás de EUA, China e México e havia cerca de 50 empresas brasileiras operando no país, um estoque de US$ 2,5 bilhões. Qual a situação neste ano?
O panorama dos investimentos bilaterais entre o Brasil e a Colômbia é bastante dinâmico e promissor. Em 2012, eram cerca de 40 as empresas brasileiras presentes na Colômbia. Atualmente, são aproximadamente 50, distribuídas em diversos setores. Empresários brasileiros vêm sendo atraídos pelo excelente momento por que passa a economia colombiana e pelas facilidades de se fazer negócios no país. Além disso, a posição geográfica e a gama de acordos de livre comércio incentivam empresas brasileiras a estabelecer na Colômbia hub para exportação, principalmente para os EUA e países da Aliança do Pacífico. Devem-se frisar, também, as perspectivas de fim do conflito interno, o que deverá favorecer ainda mais a economia do país. Destaco ainda o interesse crescente das empresas brasileiras em setores de grande potencial no país, como de tecnologia e informação, de beleza e cosméticos, de alimentos e bebidas, de máquinas e equipamentos, automotivo, de serviços de engenharia e construção civil, químico, farmacêutico, moda entre outros. Apenas em 2015, registram-se vários novos investimentos de empresas brasileiras no país, que, ou iniciaram operações, ou adquiriram novas plantas, como Ambev, Minerva Foods, Tivit/Synapsis, Inoar, WEG, Algar Tech e Carmen Steffens.
A Colômbia também tem ampliado sua presença no Brasil, especialmente, nos setores de energia, papel e celulose, combustíveis e mineração, comércio varejista, e na indústria de produtos para a construção civil.  Entre os investimentos provenientes do país vizinho, destacam-se os capitais colombianos dirigidos ao setor de energia e mineração, com a presença da ISA e da estatal petroleira Ecopetrol. Sobressaem, também, os investimentos colombianos realizados em 2015 pela Empresa de Energia de Bogotá-EEB, que comprou 51% das concessões de transmissão de energia Transenergia Renovável, Transenergia São Paulo, Goiás Transmissão e MGE Transmissão, e pelo Grupo Exito, que adquiriu 50% das ações do Grupo Pão de Açúcar. Em 2012, segundo dados atuais do Banco da República, o Brasil ficou em 11º lugar entre os principais investidores na Colômbia. A China não está entre eles: a acumulação de fluxos de capital proveniente do país asiático, de 1994 a 2014, foi de US$ 123 milhões (36º lugar), enquanto que, para o Brasil, foi de US$ 1,98 bilhão (16º lugar). Sempre de acordo com o Banco da República, o principal investidor neste país são os Estados Unidos, com estoque acumulado de US$ 26 bilhões de 1994 a 2014.
Em anexo, tabela com dados do Banco da República. Há de se ressaltar, no entanto, que as informações referem-se a fluxos de capital, pelo que entre os principais investidores figuram alguns centros bancários que não necessariamente realizaram investimentos produtivos. Isso porque muitas multinacionais, entre elas as brasileiras, valem-se de terceiros países para remeter recursos globalmente. Nessas condições, reinvestimentos em ampliação da capacidade produtiva, por exemplo, não são computados pelo Banco colombiano. Ademais, há de se registrar que o Banco da República revisa regularmente as cifras que divulga e que, a cada ajuste, podem derivar oscilações significativas, provocando alterações importantes no “ranking” de investidores de tempos pretéritos.
 
As investigações sobre corrupção no Brasil, na Lava Jato, por exemplo, atingem empreiteiras como a Odebrecht, que tem investimentos na Colômbia. Esses negócios foram afetados?
Pelo tamanho e potencial de sua economia, a Colômbia é um mercado estratégico para as empresas brasileiras há décadas e o ambiente macroeconômico favorável nos últimos anos tem contribuído para a intensificação dos investimentos brasileiros. A Petrobrás, por exemplo, iniciou sua internacionalização pela Colômbia (1972) e, em 2014, anunciou grande descoberta de gás em La Guajira, além de ser pioneira e até hoje única empresa a ter instalado poço exploratório em águas profundas no Caribe colombiano. As denúncias envolvendo as matrizes de empresas brasileiras sim ecoaram na imprensa colombiana, assim como em outros países da região, e obviamente há interesse por parte de concorrentes em fragilizar a posição das companhias brasileiras, que ocupam posições de destaque na Colômbia. O governo colombiano, contudo, tem sido bastante ponderado, ressaltando a independência jurídica das subsidiárias locais em relação às denúncias. Nesse sentido, o Ministério dos Transportes e a Agência Nacional de Infraestrutura declararam publicamente que, respeitando os princípios de presunção de inocência e do devido processo legal, esperariam o pronunciamento dos órgãos judiciais no Brasil antes de considerarem eventuais implicações para a atuação das empresas localmente. Desse modo, as investigações no Brasil não afetaram os empreendimentos em andamento de que participam construtoras brasileiras, nem as impediram de continuar a prospectar negócios no país. Atualmente, a Camargo Corrêa e a Odebrecht lideram obras de grande envergadura, como a Hidroelétrica de Ituango, a Rodovia Ruta del Sol e as obras para a navegabilidade do Rio Magdalena. As construtoras Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e OAS também têm escritórios no país. Esse posicionamento reflete, também, o reconhecimento da contribuição das empresas brasileiras ao desenvolvimento da infraestrutura colombiana e a expectativa de continuidade dessa relação, inclusive como vetor de integração regional. Há de se destacar, ainda, a percepção na Colômbia da elevação de patamar na atuação da Justiça criminal brasileira, em que empresários e políticos importantes têm sido responsabilizados por seus atos. Existe, nesse contexto, uma avaliação de que o Brasil está mais maduro no combate à corrupção e à lavagem de ativos, e de que a lei vale para todos. O Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, por exemplo, esteve recentemente em Bogotá para participar de evento da OEA, no qual apresentou esses avanços de forma muito convincente para todos os países da região. Entre os resultados da Lava Jato, destacou o montante de US$ 1,6 bilhão já bloqueados ou recuperados, boa parte deles no exterior. Já são mais de 40 condenados e 259 acusados, nenhum dos quais, ao que se sabe, envolvido em projetos de empresas brasileiras na Colômbia.
 
Qual a situação da Comissão de Vizinhança? Avançou?
Criada em 1993 e reformulada em 2012, a Comissão de Vizinhança e Integração Brasil-Colômbia é um importante mecanismo de diálogo que, ao reunir com assiduidade representantes de órgãos nacionais, regionais e locais, além de membros da sociedade civil, permite discussões sobre diversos temas de grande relevância para as populações fronteiriças, como educação, saúde, meio ambiente, pesca, navegabilidade, saneamento, cultura, temas indígenas e mineração ilegal. Os entendimentos alcançados se traduzem em uma verdadeira agenda de trabalho que é monitorada de perto pelas Chancelarias dos dois países. As reuniões têm ocorrido em base anual, alternando-se a sede de país a país. O mais recente encontro, o 17º, ocorreu em Bogotá, em 25 de agosto passado, e permitiu alcançar diversos entendimentos, alguns dos quais se traduziram em instrumentos firmados durante a visita de Estado da presidenta Dilma Rousseff à Colômbia, em 9 de outubro, como o Memorando de Entendimento em Temas Indígenas e o projeto de cooperação Caixa Econômica-Banca de las Oportunidades-Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) para a promoção da inclusão financeira, do microcrédito e do desenvolvimento de cadeias produtivas em Letícia e Tabatinga. Também como resultado das conversações mantidas durante essa última reunião, as autoridades de saúde dos dois países coordenaram ações de prevenção da dengue e da febre chikungunya, que estão sendo executadas de maneira simultânea dos dois lados da fronteira ao longo do mês de novembro corrente, aumentando sua eficiência e evitando a “exportação” de vetores de uma cidade para a outra.
 
No caso da Amazônia, que o Brasil divide com a Colômbia, qual o estágio da parceria na OTCA?
A OTCA é um foro ideal para discutir as questões relativas à Amazônia, uma vez que reúne todos os países da região e permite a coordenação eficaz entre eles. Nos últimos anos, a Organização experimentou processo de relançamento e de fortalecimento, impulsionado em novembro de 2009, por ocasião da Cúpula dos Presidentes Amazônicos, realizada em Manaus.  Junto com a Colômbia, estamos trabalhando na OTCA em mais de 20 programas, projetos e iniciativas relativos, por exemplo, ao monitoramento da cobertura florestal, ao manejo de recursos hídricos, à preservação de fauna e flora, à promoção da saúde ambiental e à proteção dos povos indígenas isolados, entre outros. Esses esforços convergem com os objetivos que Colômbia e Brasil compartilhamos em matéria de desenvolvimento sustentável e mudança do clima. A Amazônia colombiana corresponde a 6% da área total da região amazônica (pouco mais de 480 mil km²), apresentando o terceiro maior percentual, atrás apenas de Brasil e Peru. Aproximadamente 42% do território colombiano é amazônico. A Colômbia tem-se mostrado muito engajada com a organização, ocupando cargos importantes, sediando diversas reuniões e impulsionando várias das mais emblemáticas iniciativas. Juntamente com o Inpa (Brasil) e o IIAP (Peru), por exemplo, o Sinchi colombiano está apoiando o desenvolvimento do Sistema Integrado de Informação, que será a base do Observatório Regional Amazônico. O Brasil, a seu turno, como maior país da região amazônica e sede da OTCA, tem uma grande responsabilidade no fortalecimento da cooperação regional, o que se traduz em apoio a projetos nas mais diversas áreas. Recursos do Fundo Amazônia/BNDES, no valor de R$ 23 milhões, por exemplo, estão sendo canalizados para o Projeto “Monitoramento da Cobertura Florestal na Região Amazônica”, executado desde meados de 2011, em parceria com o INPE. Por meio da instalação de salas de observação nos países-membros e de capacitação e intercâmbio de experiências em sistemas de monitoramento, esse projeto contribui para a produção de informações sobre desmatamento e focos de calor.
 
Quando a senhora foi escolhida para o posto de Bogotá, em 2013, se trabalhava por um regime especial em Letícia/Tabatinga. Qual a situação das fronteiras Brasil-Colômbia?
Os 1.644,2 quilômetros de fronteira amazônica entre Brasil e Colômbia foram por muito tempo considerados uma barreira natural, um deserto verde, separando vizinhos cujas relações entre si eram cordiais, porém distantes. Ganharam alguma notoriedade entre os estudiosos, por exemplo, teorias sobre uma “proximidade distante” entre “vizinhos de costas um ao outro”. Felizmente, a situação evoluiu muito nas últimas décadas e o que antes separava hoje é um importante vetor de cooperação que une brasileiros e colombianos. A fronteira brasileiro-colombiana é tema de frequentes reuniões de alto nível entre as autoridades dos dois países, sempre no intuito de concretizar a determinação política de ambos os governos no sentido de promover o desenvolvimento e a atenção às populações lindeiras. Nesse sentido, além da citada Comissão de Vizinhança e Integração, cabe mencionar o fluido diálogo no âmbito da Comissão Binacional Fronteiriça (Combifron), em cujas reuniões representantes das polícias, das forças armadas e de órgãos de controle de atividades financeiras trocam informações de inteligência e estabelecem estratégicas conjuntas de combate a ilícitos na região, como a mineração ilegal, o tráfico de pessoas, drogas e armas, o desmatamento e a lavagem de dinheiro. A cooperação fronteiriça também contempla uma atenção especial a Letícia e Tabatinga, duas cidades reunidas em um núcleo urbano em plena floresta amazônica e onde a integração entre os dois países é uma realidade vivenciada diariamente. Os governos têm buscado reforçar a coordenação na educação, por exemplo, por meio da negociação de projetos de escolas e bibliotecas interculturais. Sobre o regime especial, existe um acordo para facilitar o trânsito de mercadorias, de 2008, já ratificado por ambos os países e que está em vias de ser promulgado no Brasil. Existe também um acordo de residência, estudo e trabalho para nacionais fronteiriços, de 2010, que está pendente de ratificação pelo parlamento brasileiro.

 

 

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