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Bolt dá lição de respeito ao esporte ao pedir silêncio para competir

Pablo Pereira

16 Agosto 2016 | 15h34

Os brasileiros gostam de uma certa fama internacional de boa gente, povo festeiro e hospitaleiro. Mas nos Jogos do Rio a torcida confunde as coisas e revela falta de educação e desrespeito com os atletas, principalmente os estrangeiros. Nos estádios, esquecem da regra número 1 do anfitrião, que é proporcionar bem-estar e conforto ao visitante. E, tomados pelo bombado ufanismo televisivo, vaiam os atletas em momentos cruciais da competição.

O grande campeão Usain Bolt, por exemplo, sempre que vai dar a largada de sua nobre atividade, pede respeito. Bolt não está pedindo silêncio para ele. Pede respeito ao esporte, ao espírito limpo da competição. É comum vê-lo solicitando colaboração do público para uma atmosfera fundamental para quem vive de diferenças de décimos ou milésimos de segundo. Ficar em silêncio em arena esportiva quando o protagonista vai exercer sua especialidade olímpica não é favor da torcida, é sinal de respeito, de educação.

A primeira polêmica envolvendo essa mania brasileira de achar que alegria e satisfação têm de conter barulho e algazarra – e que isso até pode ser usado contra adversários, numa boa –  ocorreu na competição do tênis de mesa. E irritou equipes competidoras que precisam de concentração máxima para uma prática esportiva que beira a genialidade no quesito velocidade de reação motora.

Ontem, à noite, foi a vez de a torcida brasileira no Engenhão, em nome do patriotismo exacerbado, mandar às favas as boas maneiras e atacar o atleta francês do salto com vara, Renaud Lavillenie. Vaiavam e faziam barulheira contra um campeão olímpico porque o insucesso dele significaria o sucesso do brasileiro Thiago Braz, como ocorreu. O brasileiro saltou 6m3. O francês, que até já saltou 6m16, tentava os 6m8. Que falta de espírito olímpico!

O rapaz chegou a manifestar discordância com aquele comportamento rasteiro da arquibancada na hora do último salto. Não adiantou. Com o tempo do relógio correndo contra ele, saltou em meio ao desrespeitoso e mesquinho comportamento. Se isso o atrapalhou no desempenho, só ele pode dizer.

O que é certo é que Bolt e outros atletas de ponta, habituados com o alto nível das disputas, acham que o silêncio é fundamental para o trabalho. Bolt faz mais do que ganhar medalhas, dá lição de respeito ao esporte. Aquilo é diferente de futebol e de esportes coletivos de quadra, nos quais os atletas toleram a baderna – e até contam com ela.

Nestas modalidades de competição nas quais o atleta luta contra os próprios limites, a situação é outra. Dias atrás, uma gritaria, pouco antes de o genial Michael Phelps cair na água, levou organizadores da prova de natação a abortarem uma largada na piscina por causa da estridência inconveniente.

A tensão daquele momento é altíssima, a concentração é total e uma desatenção provocada por causas externas pode levar a uma queimada de largada, o que  significa que o atleta pode ficar de fora da prova. Fazer barulho é, no mínimo, indelicado, impróprio.

Torcer por compatriotas e comemorar com eles as medalhas conquistadas, é uma coisa. E como é muito bom ver brasileiro vencendo e ganhando medalhas. Mas faltar com a educação com competidores, desrespeitar os atletas em horas de extrema concentração, é outra. É como não esperar sua vez de falar, pegar o que não é seu, atender telefonema no cinema ou bater na mãe. É falta de educação e de polidez.

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