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Apelo ao ex-presidente FHC sobre a lei das empregadas

Pablo Pereira

04 de abril de 2013 | 18h05

Um respeitoso pedido ao ex-presidente Fernando Henrique. Caro presidente, por favor, chame lá o seu correligionário tucano deputado Carlos Sampaio e explique para ele que essa ideia, apresentada em projeto dele na Câmara dos Deputados em nome da bancada tucana, de detonar o FGTS das empregadas domésticas, é uma crueldade.  Se todo trabalhador tem direito, por que o digníssimo deputado do PSDB quer implodir o depósito e ferrar o pessoal da área de serviço durante e depois do emprego? Para beneficiar o pessoal da sala e varanda?

Diga a ele, por favor, presidente, que a tese é um equívoco,  que está comprando gato por lebre. A nova legislação trabalhista para as empregadas domésticas é um avanço, talvez seja finalmente a pá de cal num resquício daquela mancha da escravidão – que para mais de século foi revogada mas ainda suja a cozinha neste país.

Presidente, use lá sua maioridade cronológica, política e intelectual para relembrar aos seus partidários, se necessário, que o senhor não conseguiu – em seus 8 anos de mandato no cargo maior da República – eliminar essa chaga, ok. Mas o seu sucessor, Lula, o dito moderno pai dos pobres, também ignorou o assunto nos 8 anos dele. Não esqueça de ressaltar que todo mundo sabe que o senhor ficou contente quando o seu Plano Real deu condição para a sua empregada realizar um sonho – fazer uma viagem internacional, lembra?

E mostre ao deputado que Dilma, com nova conjuntura econômica e talvez por sua condição feminina, está tendo mais sensibilidade do que o senhor e Lula juntos ao iniciar o fim da centenária exploração das empregadas.

Não sei se o senhor concorda, presidente, mas talvez não se trate de medida meramente eleitoreira, embora, claro, possa essa novidade beneficiar a presidenta em 2014. Há questões nacionais que estão acima das conjunturas políticas – e acho que já ouvi até o senhor dizer isso quando estava no governo. Deixe isso claro ao deputado, presidente. E peça para que esqueça aquele absurdo escrito no projeto. É bobagem.

Posso lhe assegurar que a multa de 40% do FGTS para empregadas demitidas ou os 8% do recolhimento mensal do Fundo (tão útil ao trabalhador lá na frente) não vão quebrar a patroa – que quando muito vai ter de cortar um jantar no japonês ou uma ida ao shopping. Mas para andar na lei e ter dentro da própria casa uma profissional mais motivada, para dizer o mínimo, duvido que não abra mão desses “luxos”.

Aliás, lembre também a seu correligionário que esse conceito da multa do FGTS não foi criado pelos sindicatos de trabalhadores, não. Foi ideia de um empreiteiro cearense, eleito pelo Rio Grande do Sul, Luís Roberto Ponte, lá na Constituinte, como, aliás, relembra bem hoje no jornal (O Estado de S.Paulo, pág. A6) José Serra, outro de seu partido.

E se até um representante da sala e varanda, como era o empresário Ponte, acreditava na multa como política de compensação para um trabalhador demitido, incluída na Carta Magna com a sua assinatura, por que o seu colega tucano quer agora dar cabo da medida – e justo com as empregadas?

Presidente, se ninguém do seu partido chamar esse seu correligionário às falas para aconselhá-lo a esquecer essa sandice, as empregadas terão razão bastante para, do alto da digna beirada da pia, o eleger não mais como um “representante do povo” na Câmara dos Deputados, mas como o Pelego do Século.

Post-scriptum:

Se o senhor não quiser ter essa conversa por causa desse modesto apelo, por favor, faça-o por Nabuco!

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