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Aécio reforça formação de militância tucana no País, diz Beto Richa

Reeleito no Paraná com 55,7% dos votos, Richa diz que o candidato à Presidência devolve força de mobilização nacional do partido

Pablo Pereira

07 de outubro de 2014 | 18h15

Pablo Pereira, enviado a Curitiba, e Julio Cesar Lima, Especial/Estadão

A passagem de Aécio Neves (PSDB) para o segundo turno da eleição presidencial muda um cenário no qual os tucanos enfrentavam dificuldades nacionais para vai fazer o debate político eleitoral contra o PT de Dilma Rousseff e Lula: a motivação de sua militância. A opinião é do governador Beto Richa (PSDB), reeleito no Paraná no primeiro turno com 55,67% dos votos. Com a eleição garantida no Paraná, Richa disse estar livre para se dedicar “de cabeça” na campanha do candidato Aécio Neves.

Em entrevista ao Estado, no começo da noite de domingo, acompanhado pela vice, Cida Borghetti (PROS), Richa comemorou quando um assessor anunciou na sala que não havia mais como os adversários, Roberto Requião (PMDB) e Gleisi Hoffmann (PT), reverterem o placar da apuração no Tribunal Regional Eleitoral do Paraná.

“Já fizemos a nossa parte. Agora é trabalhar para ampliar a votação de Aécio”, afirmou Richa, sendo cumprimentado pela vice. Àquela altura, 18h50 de domingo, ainda não havia a confirmação da presença de Aécio no segundo turno, o que só ocorreu mais tarde. Mas Richa já dava o fato como certo.

Com uma aliança partidária de 17 partidos no estado, o governador construiu sua base política abrindo brechas na guarda dos adversários. Atraiu para a aliança governista deputados estaduais do partido do próprio concorrente direto, o senador Roberto Requião, que ficou em segundo lugar nas urnas. A candidata do PT ficou em terceiro com cerca de 14% nos votos.

Para a reeleição, Richa conseguiu também o apoio do candidato Ratinho Junior (PSC), um ex-adversário que foi derrotado na eleição para prefeito em 2010, quando concorreu com o atual prefeito, Gustavo Fruet (PDT). Ratinho Junior foi o candidato mais votado para deputado estadual. Faturou cerca de 300 mil votos no domingo.

Filho do ex-governador José Richa, Beto, como é chamado nas ruas, foi eleito prefeito da capital paranaense em 2004 e reeleito em 2008. Em 2010, foi escolhido governador. Na entrevista, Richa reconhece que o PSDB nacional tem enfrentado dificuldades com militância partidária. Mas argumenta que sua reeleição mostra que essa debilidade tucana foi revertida no Paraná. Para ele Aécio é a novidade para devolver força nacional de mobilização ao partido. “Aécio conseguiu contagiar as massas”, declarou. Abaixo, trechos da entrevista.

O senhor ganha a eleição no primeiro turno, junto com o governador Geraldo Alckmin, e é hoje uma liderança no cenário eleitoral nacional. Qual será o seu primeiro ato neste novo momento tucano?

Meu primeiro ato será entrar de cabeça na campanha de Aécio Neves. Já fizemos a nossa parte. Aécio tem votação muito expressiva no Paraná. Agora, mais livres, para entrar exclusivamente na campanha, organizar nosso grupo, deputados, prefeitos, lideranças, para se engajarem na campanha de Aécio. E ampliar a vantagem no Paraná. Aécio tem chances reais de vencer a eleição. Dentro do partido, sempre me coloquei como um soldado. Quem me conhece sabe que nunca tive grandes aspirações. Cargos e posições me honram, mas não me envaidecem. Nunca disputei espaço com ninguém. Sempre apoiei aqui a campanha de Geraldo Alckmin, do Serra, duas vezes, para fortalecer o PSDB.

Lideranças nacionais, como o presidente Fernando Henrique, reconhecem que o PSDB tem dificuldades com a militância. O senhor não enfrenta isso no Paraná. Qual a receita?

De fato, nós temos uma militância muito forte, numerosa e aguerrida no Estado. Isso começou quando fui prefeito de Curitiba. Fizemos administração democrática, inovamos com as audiências públicas. Com isso, conquistamos a confiança das pessoas.

 Mas o senhor concorda que há essa dificuldade de mobilização nacional dos tucanos?

Sim. Mas agora, com a eleição do Aécio, vai mudar esse cenário. O Aécio conseguiu contagiar as massas. É um político com muito carisma. É a possibilidade de formar aí uma grande militância do PSDB. Foi o que nós fizemos em Curitiba, inovando com as audiências públicas. Eu gosto muito do contato pessoal. Minha equipe é assim. Não só eu, mas minha mulher (Fernanda), que faz um belíssimo trabalho na área social. E com isso fomos conquistando a confiança. Em Curitiba, que sempre teve disputas muito acirradas, nós tivemos 77% dos votos, o que me ajudou depois a ser governador do Paraná. Esse estilo de governar, aberto e respeitos no, levamos para todo o Estado. Essa militância se espalhou para todos os municípios. Fui o primeiro governador do Paraná a visitar todos os 399 municípios. Quando coloquei o pé na estrada, fiquei espantado ao saber que o governador havia anos não ia a cidades pequenas. Estabeleci como meta ir a todos os 399 municípios. E cumpri o desafio em novembro do ano passado. Isso, aliado às obras que levamos ao interior, sem discriminação de partidos. Posso te garantir, sem aqui declinar os nomes, que teve prefeito do PT que apoiou minha eleição por não querer abrir mão desse modo aberto de governar. Isso levou a reforçar essa militância aguerrida do PSDB no Paraná. Por outro lado, há hoje um clima meio ruim para o PT no estado. E o outro candidato (Roberto Requião), que não gostava de ir ao interior, nem tinha um tratamento respeitoso e educado com as pessoas, ao contrário.

O senhor enfrentou uma ex-ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que teve apoio do Planalto, depois de boa votação para o Senado. No seu governo, o senhor alegou dificuldades na relação com o governo federal. Muda alguma coisa a partir desta eleição?

Houve dificuldades durante o mandato. O entendimento não foi possível. Eu recorri ao Supremo Tribunal Federal, a coisa se tornou pública, a imprensa deu ampla divulgação. Foi a própria imprensa que levantou que o Paraná é o último estado do Brasil a receber recursos, e antepenúltimo a receber investimentos. Não podemos aceitar um tratamento indigno e desrespeitoso para um estado que tanto contribui para a economia nacional. É o quinto maior contribuinte de receitas para a União. A imprensa divulgou assim, com muita enfase. A liberação só foi possível pelas ações que impetramos no Supremo e isso também causou um desgaste para o PT aqui no Paraná.

O senhor tem planos de mudar essa relação, numa eventual vitória de Dilma Rousseff?

Nós vamos trabalhar intensamente pela eleição do Aécio. E aí vai estar tudo muito bem. Ele próprio, todas as vezes em que esteve no Paraná, disse que vai pagar a conta que o Brasil tem com o estado. Não há o menor problema. Se não for ele, e eu não conto com essa hipótese, vamos tentar o entendimento. Eu sou um conciliador. Nunca deixei que eventuais divergências se sobrepusessem ao interesse público. Exemplo é o tratamento que dei aos prefeitos, inclusive do PT. Sempre tive elogios, rasgados, públicos. Gá prefeitos do PT que pediam para far em solenidades para dar depoimentos sobre o tratamento cordial recebido. Prefeitos de Mandaguari, de Campo Largo, com belos depoimentos. Quando fui prefeito de Curitiba, tive bom relacionamento com o governo Lula e tenho também com a presidente Dilma. Temos a maior parceria com o Ministério das Cidades. Eles reconhecem a parceria com o Paraná. Temos excelentes relações com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Até para desfazer a maldade dos meus adversários de que estávamos perdendo recursos: já estamos em obras de 20 penitenciárias. O ministro sempre diz que o melhor sistema prisional do Brasil é o do Paraná. Elogia nossa secretária, Maria Tereza (Maria Tereza Uille Gomes, secretária de Justiça). Os recursos demoraram porque nossa secretária sugeriu alteração do projeto para ter mais economia, e isso demorou um ano. Mas o o dinheiro já veio. Dos R$ 160 milhões, estamos em R$ 130 milhões, portanto com uma economia que beneficia o Brasil. Quando as relações são no âmbito técnico, as coisa fluem bem. Quando vão para o campo político, são travadas. Porque as coisas passavam pela Casa Civil. Quando convidei um delegado da Polícia Federal para ser meu secretário da Segurança Pública, e há 12 secretários de Segurança da PF, por exemplo. Marcamos a data. O Superintendente já havia liberado, mas, de repente, veio uma contraordem: não é para liberar. Ficou muito visível o jogo político mesquinho, ultrapassado. Mas com a presidente Dilma, o trato sempre foi muito cordial. Mas insisto: eu conto com Aécio presidente.

O senhor fez uma aliança grande, com 17 partidos. Como pretende acomodar a aliança no governo?

Não haverá dificuldades.

Mas o senhor vai fazer mudanças no secretariado?

Não pretendo, não. Um ou outro ajuste. As coisas no Paraná vão bem. Sou criterioso com o desempenho. Nunca deixei que partidos indiquem sem passar pelo meu crivo. Sem dificuldades. Na Assembleia, até o PMDB queria me apoiar. Não é de se desprezar 40% dos votos deles favoráveis à coligação contra um nome que já foi três vezes governador, um nome competitivo, o Requião. Todos os secretários assinam contratos de gestão, com metas a serem cumpridas. É o bom tratamento, respeito, que nunca teve do outro lado.

Qual a primeira meta de novo mandato?

Ao longo do mandato a gente vem ajustando as coisas. Saneando as finanças. Herdei o Paraná com R$ 4,5 bilhões de dívidas. Um número que nunca foi contestado. R$ 1 bilhão de Pasep, que não foi recolhido ao longo de oito anos. R$ 450 milhões de dívidas penduradas com a Caixa Econômica. Água, luz e telefone, R$ 100 milhões. Promoções e progressões de professores: dois anos não pagaram, R$ 70 milhões. Foi um sufoco colocar a casa em ordem e modernizar a estrutura de governo, que por uma visão ideológica, estava ultrapassada. Criar a Adapar, a Agência de Defesa Agropecuária, para abrir o mercado externo para exportação de produtos do Paraná. O Paraná era o único estado, ao lado de Santa Catarina, que não tinha uma estrutura de defensoria pública. Tivemos que montar, contratar. E houve o forte bloqueio federal. Agora, é continuar esse ajuste e intensificar, no começo do próximo governo, esse ritmo acelerado de obras por todo o estado. E ampliar a industrialização, que vai ser o maior legado do meu governo. É o maior ciclo industrial da história do Paraná. Não só as industrias, mas também das micro e pequenas empresas. Sebrae e CNI atestam que o Paraná é o melhor ambiente para implantação de micro e pequenas empresas. É o menor imposto.

Essa foi uma das críticas da Oposição na campanha, a substituição tributária.

Mas não confere, né? Sebrae e CNI dizem o contrário. E quem critica foi quem implantou a substituição tributária no Paraná. Ele colocou 17 produtos. E eu, 12, 13. Coloquei menos até do que ele. Mas estamos ajustando. Eu sou acessível. Já recebemos a Federação do Comércio e outros setores que se sentiam prejudicados. Não nos adianta matar o empresariado. A gente mata o emprego, prejudica a economia. Então, fizemos os ajustes, voltamos atrás, reduzimos sem dificuldades. E por que é o maior legado? Porque, além de gerar emprego e renda, ampliamos a receita do estado e municípios e isso se traduz em mais obras de qualidade.

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