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A TRAGÉDIA leva SP para os anos 1700

Pablo Pereira

27 de março de 2021 | 23h59

O Brasil vive tempos terríveis. A epidemia de coronavírus já causou a morte de mais de 310 mil pessoas. Uma tragédia. E moradores de São Paulo, cidade da histórica esperança de vida melhor para milhões de brasileiros, voltam a conviver com uma triste realidade de quase 300 anos. Sepultamentos noturnos.

Dias atrás, quando o país chegou ao escandaloso total de 300 mil mortos, a Prefeitura de São Paulo autorizou os enterros à noite. E os paulistanos retrocederam aos anos de 1700, quando a cidade sofreu com a mortandade pela varíola. “Durante o ano de 1735, a epidemia grassou implacável. Os enterros públicos e os cortejos fúnebres foram proibidos e os sepultamentos passaram a ser feitos somente à noite para evitar a propagação da peste”, conta a pesquisadora Maria Alice Rosa Ribeiro em seu excelente “A cidade de São Paulo e a saúde pública (1554-1954)” no livro “História de São Paulo (Volume 2)”, da Editora Paz e Terra (2004). É uma coletânea de textos sobre a formação da maior cidade brasileira, publicação organizada pela historiadora Paula Porta.

Outra coisa que a leitura do livro aponta é a ignorância de governantes, o que parece não ter mudado em quase três séculos. Com relatos pesquisados em documentos, como os escritos de Taunay, a historiadora mostra que o português Luís Antonio de Souza Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, que governou a Capitania entre 1765 e 1775, vivia agarrado à religião contra as epidemias – o que é até compreensível para a época diante do estágio da medicina setecentista, quando “sangrias e purgantes” se juntavam à reza na busca da cura. Mas Morgado de Mateus se superava em crendices e ações de governo, dessas que até hoje a ciência avançada é forçada a aturar no Brasil. Entre outras medidas, cita a pesquisadora no livro, o poderoso de plantão “mandou que rebanhos de bois e carneiros fossem postos a girar pelas ruas da cidade para atrair a peste sobre eles”.

E já naquele tempo medidas de isolamento enfrentavam resistências. Como na epidemia de 1797, que “fez desaparecer um décimo da população” paulistana. “O isolamento sempre se fazia com atraso, bem depois da eclosão da epidemia”, escreve Maria Alice Rosa Ribeiro.

 

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