A tosquice no caso das terras indígenas e o sumiço de Dom Phillips e Bruno Pereira
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A tosquice no caso das terras indígenas e o sumiço de Dom Phillips e Bruno Pereira

Pablo Pereira

12 de junho de 2022 | 07h48

O Brasil é mesmo um país com gente tosca. Boa parte da sociedade e governantes tornou-se isso. Em vez de proteger terras indígenas e seus ocupantes, para que no futuro tenham oportunidade de viver com dignidade e se desenvolver como povos, permanece sentado sobre preconceitos e prefere até apoiar a violência contra quem quer mostrar a ignorância das ocupações madeireiras ilegais, da exploração desregrada do agro, atos que acabam criando espaços para ações de grupos de narcotraficantes e outras atividades ilícitas. Esse é um cenário que está por trás do caso Dom Phillips e Bruno Pereira, jornalista e indigenista, desaparecidos no Vale do Javari. Como esteve, também, presente no caso do ambientalista Chico Mendes, em Xapuri, no Acre, que lutava contra fazendeiros, assassinado às vésperas do Natal de 1988.

Há casos, como o de Roraima, divisa com o Amazonas, com parque controlado pelos waimiri atroari, que, inclusive, fecham o acesso noturno à BR 174 como forma de proteção contra eventuais invasores. E do Xingu, mais famoso. Mas são reservas conquistadas a duras penas, depois de anos de batalha, tendo, em outras épocas, ajuda e proteção das Forças Armadas, Funai e Polícia Federal – hoje mais difícil -, além da contribuição de abnegados da causa, como os irmãos Villas Bôas e de um militar (!), o marechal Cândido Rondon (1865-1958), nascido no Mato Grosso, ele próprio um descendente dos bororo por parte de mãe.

Rondon dedicou a vida à proteção de diversas tribos, foi fundamental na criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que deu origem à Funai. Reconhecido mundo afora, chegou a ser indicado ao Nobel da Paz, como ensina biografia publicada na FGV.

Hoje, esses territórios pelos quais lutou Rondon, vivem sob constante cobiça e ameaça. O ideal do militar indígena Rondon  – “Morrer se preciso for, matar, nunca” -, parece abandonado. E essa situação não ocorre somente nos fundões isolados no mato, não. Comunidades guarani, como a das pessoas da aldeia tekoá, bem ao lado da rica São Paulo, travam lutas diárias para sobreviver e obter acesso a condições dignas de vida.

Agora, vejam: no exterior, o caso dos hualapai, que faturam com o espetacular Parque Nacional do Grand Canyon, nos EUA. É local que turistas brasileiros adoram visitar e depois postar nas redes sociais como conquistas de suas viagens internacionais. São comunidades que invertem o que foi um período de segregação e isolamento, de décadas, e atualmente exploram negócios com hotéis e o acesso ao parque, no Arizona, que, inclusive, não fica muito distante, menos de 500 km, de Los Angeles, onde esteve o presidente da República, em encontro da Cúpula das Américas. Pois, é terra de índio, protegida. Foi com luta? Sim, muita luta. Mas, hoje, são assim. Há mais desses parques pelos EUA, revertendo aos poucos um passado colonial miserável.

Ou, mais ao norte, no Canadá, onde há o bairro dos “First Nations” squamish, sob a vigília de seus totens coloridos de madeira. Esses indígenas canadenses vivem com padrão de consumo elevado, o que lhes proporciona meios de exploração de negócios, como a Universidade Capilano, além de ter propriedades, carros, restaurantes, investimentos imobiliários.

Imagens abaixo são de reserva do povo squamish na área urbana de  North Vancouver/Fotos Pablo Pereira

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Há exemplos às carradas pelo Canadá de gente indígena em terras mais afastadas das cidades, que luta por conquistas adicionais como os direitos à proteção ambiental. Qual a diferença entre os dois modos de fazer as coisas? A tosquice brasileira.

 

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