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A saída João

Pablo Pereira

23 Abril 2012 | 17h39

Num sábado recente encarei a tarefa, adiada várias vezes, de trocar o pano de cadeiras que já fazem parte da família. Seu João, estofador da Vila Mariana, foi o escolhido para o serviço. Quando assentos e espaldas estavam de roupas novas, fui à estofaria pagar e combinar a entrega. Como eu não podia carregar a encomenda – e Seu João só dirige máquina de costura – ficamos num impasse.

Pensei, pois, num amigo, que sempre quebra meus galhos.

– Pronto, o Severino vem buscar, disse-lhe.

Sem conhecer o Severino, Seu João pensa um instante, apanha uma caneta e um cartão da oficina e rabisca no verso: “Autorizo a entrega de 4 cadeiras ao portador”. E ordena:

– Assine aqui. Só entrego se ele me der o cartão.

Lembrei do João estofador neste final de semana ao reler o livro “Às margens do Sena”, de Reali Jr. (Ediouro, 2007). O grande jornalista descreve episódio que presenciou na França com um outro João, o rico e poderoso ex-presidente João Goulart.

Conta Reali que João Goulart, ao fechar uma venda de gado, num restaurante em Paris, ouve do comprador:

– Como eu faço para seu capataz da fazenda me entregar os bois?

– Tu podes dizer para ele que dei a ordem.

– Mas como?

Diante do “impasse”, relata Reali, Jango rasga um pedaço de papel e escreve:

“Fulano de tal, entregue, por favor, quarenta bois do lote X para este senhor que lhe traz este recado”.

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