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A insubstituível mesa do bar

Pablo Pereira

04 Fevereiro 2011 | 16h17

Todo mundo sabe que muito já se fez pela humanidade em mesas de bar. Há restaurantes que mantêm a mesa predileta de famosos desocupada mesmo com a casa lotada e extensa lista de espera. No meu bairro, em São Paulo, há uma explosão de bares, centenas de mesas, uma beleza. Até uma padaria descobriu a importância desse rentável e divertido equipamento social urbano. Seus frequentadores passam horas curtindo o templo do pãozinho – só que na calçada.

Em Lisboa, um bar cultua a mesa que sustentava a solidão de Fernando Pessoa, e sobre a qual o poeta rabiscou pensamentos que viraram mantra para muita gente. Por aqui, bregas e modernos fazem o mesmo. Lupicínio Rodrigues pensou muito no assunto. Tom Jobim, tenho certeza, adorava uma mesa de bar. Vinícius, nem me fale. Outros artistas viveram dramáticos momentos em torno delas, seja na poesia, na literatura, nas artes plásticas. 

Tem gente que até se apaixona pela mesa do bar. Mora lá. Só sai para trabalhar, dormir, criar os filhos. Tenho um amigo boa-vida que mandou até colocar o próprio nome na garrafa de uísque. E a primeira coisa que faz quando vai em busca de sua identidade líquida é escolher a mesa. Sem ela, beber não faz o menor sentido.

É assim porque a mesa do bar não é só um lugar para colocar o uísque, o chopinho – ou o absinto dos antigos boêmios. Ela ampara espíritos. É um divã. Talvez nunca se crie algo que a substitua. Muita gente pode até abandoná-la para ir fumar na calçada, como obrigam as atuais leis paulistanas. Mas o sujeito não demora. Acaba voltando.

Daria muito trabalho contar quantos desses “refúgios” existem na cidade. Serão milhares, milhões. Mas em cada um deles, certamente, há pelo menos uma história interessante. Claro que há muito chato que passa da conta, dá vexame. É preciso ter paciência, ajudar no desapego, chamar o táxi. Mesmo esses fiasquentos lá estão por ela, a mesa do bar. Talvez seja, naquele momento, sua única ligação com o mundo.

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