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A “guerra” nossa de cada dia

Pablo Pereira

03 Novembro 2013 | 14h57

O Brasil ultrapassou a casa dos 50 mil assassinatos em 2012. 50.108 mortos! Reportagem do jornalista Bruno Paes Manso, do Estado, noticia a carnificina – uma mortandade absurda espalhada pelo país. A violência cresce, São Paulo puxa os índices e as autoridades, mais uma vez, fazem cara de paisagem, como se nada estivesse acontecendo.

São números assustadores. É uma epidemia. A estatística revela que o crime contra a vida já é hoje tão corriqueiro no cotidiano brasileiro que morrer de morte matada nem chama mais tanto a atenção. O povo se danando na mão da bandidagem e o Estado ainda ajudando a engordar a numeralha com seu despreparo. E, como diz o grande Milton Leite na TV, segue o jogo!

Lendo a notícia, lembrei do livro da professora Teresa Pires do Rio Caldeira, Cidade de Muros (Editora 34/Edusp), editado em 2000, que é uma aula sobre origens da criminalidade com o tema olhado do ponto de vista da cidade de São Paulo.

A matança estudada pela professora se refere a período das décadas de 1980 e 1990. Mas as conclusões dela estão mais do que atuais. O livro ensina por quais caminhos os brasileiros – paulistanos, principalmente – passaram para chegar ao espantoso número de assassinatos relatado por Bruno Paes Manso. “A vida cotidiana e a cidade mudaram por causa do crime e do medo”, escreve a autora na abertura da apresentação de sua pesquisa.

Alguém aí que anda por São Paulo nestes dias de 2013, portanto 13 anos depois de o texto ser lançado, passeia à vontade pelas ruas, para no trânsito sem se preocupar com assaltos ou sai da última sessão do cinema sem um friozinho na barriga? Ou ainda: vai a uma manifestação na Paulista, no Largo da Batata, na periferia, sem medo de bombas, tiros e black blocs?

A leitura de Cidade de Muros ajuda a entender esse clima nada ameno na cidade. O estudo mostra que o crime não é uma maldade pura e simples existente nas pessoas. Mostra que boa parte da cultura da violência urbana, que desemboca na matança, vem junto com o próprio Estado. Antigamente, lembra a professora, o Estado até autorizava o espancamento dos fora-da-lei. Foi assim com o cidadão medieval, com os escravos e, mais recentemente, com os presos políticos das ditaduras.

Por estes dias, a tortura e o castigo corporal ainda são usados em cadeias e nos interrogatórios policiais (cadê o Amarildo?). E, muitas vezes, quando o Estado, despreparado, não consegue enquadrar os fora-de-quadro (legal) só descendo o porrete ou atirando balas de borracha, usa a mesma ferramenta do bandido: mata!