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A calamidade da pedra de cocaína

Pablo Pereira

06 de janeiro de 2012 | 23h46

Quando ocorre uma grande enchente, um desabamento de morro, um incêndio de favela, terremoto, tsunami, calamidades de larga repercussão social, a sociedade costuma reagir rapidamente para tentar controlar os danos e abrir portas para a recuperação das perdas, sejam elas humanas ou materiais.

Aparecem mutirões, surgem rapidamente anúncios de dinheiro oficial, nascem iniciativas individuais de solidariedade – que podem não conter efetivas soluções, mas sempre serão elogiáveis por aliviarem o desconforto de alguns e servirem para disseminar a vontade coletiva de encontrar logo uma saída para a crise.

São Paulo, poupada até agora do drama das enchentes de verão, vive nos últimos dias o choque do crack. A iniciativa de mexer no problema concentrado bem no Centro da metrópole levantou o manto que estava sobre aquela chaga paulistana, largamente denunciada nos jornais, debatida dentro e fora do poder público, mas sem solução efetiva. Os usuários e seus abastecedores da droga derivada da cocaína agora estão perambulando pelas ruas aturdidos pela presença da polícia, que ocupa espaços nos quais os viciados convivem há muito com a leniência das autoridades (municipal, estadual e federal).

É certo que o problema é de grande complexidade. É certo também que antes tarde do que nunca. Mexer na ferida ajuda na cura. E cada uma daquelas pessoas que lá estão à mercê da degradação carrega um drama pessoal intenso. Cada um necessita de um tratamento que contemple sua condição humana, que ofereça oportunidade de recuperação, de alternativa de vida. É possível largar a pedra. Há exemplos de sucesso.

Na cracolândia de São Paulo, infelizmente, muitos dos viciados já estão com seus padrões sociais abalados, com suas convicções absolutamente atrapalhadas e, dizem os médicos especialistas, em muitos casos, até com prejuízos mentais irreversíveis. É um enorme pepino social que precisa ser descascado por ações de políticas públicas claras e abrangentes.

Qual é o ponto? O ponto é que essa iniciativa contra a expansão do crack deveria ter sido tomada lá atrás, bem antes que o problema atingisse tal escala, com milhares de envolvidos. Mas isso não ocorreu. Governantes e governantes, de diversos partidos e cores ideológicas, passaram ao largo da tragédia que grassava na cidade. A cracolândia só fez crescer. E se espalhou pelo país. Agora, é caso de tratamento de urgência.

Porém, mais uma vez, não aparece na iniciativa de São Paulo um sinal claro de ação salvadora para essa calamidade. O tsunami de cachimbantes, manipulados por aproveitadores, provoca mortes e danos bem nas barbas das autoridades. E precisou chegar o ano eleitoral dos municípios para que, com a campanha à vista, os poderes públicos começassem a se mover.

Os oportunistas vão, seguramente, propagandear as atuais ações na campanha até outubro. Por enquanto, a recente investida não mostra claridade além da ação policial.

É complexo? Óbvio que sim! É fácil? Claro que não.

Ainda se procura até um jeito adequado para tentar devolver normalidade à vida dessa comunidade bagunçada. Vai longe o debate sobre a melhor forma de combate, se com internação à força do usuário ou se com tratamento na rua mesmo, experiência que já tem algum tempo em andamento em algumas cidades.

O problema já tem anos, duas décadas, mas nem os poderes públicos (Executivo, Judiciário e Legislativo) sabem como agir coordenadamente. Engatinham, coagidos pela ignorância e por uma gestão de orçamentos pífios em um serviço público que não se entende.

Meses atrás, em setembro, encontrei no interior do Nordeste – e o Estado publicou – casos de pequenas cidades do sertão nas quais se espalha essa lamentável realidade da pedra. O diagnóstico, igualzinho ao de São Paulo. Pobreza e droga barata, juntas, desgraçando famílias e famílias, amputando sonhos, abreviando vidas. O quadro nacional do crack é igualmente dramático.

No caso paulistano, o tamanho do tumor deixa claro que não basta extirpá-lo com a repressão policial e o controle higienizante das áreas na base do jorro de água de mangueira e detergente. É preciso muito mais.

Cadê as clínicas, casas, abrigos (seja lá o nome que se queira dar), para internações? Cadê os profissionais de saúde treinados em número suficiente para cuidar de centenas de usuários? Onde estão os alojamentos limpos, a alimentação, a ocupação do tempo, as palestras? É preciso medicação apropriada e muita conversa para convencimento, paciência e perseverança. Bastam minutos de contato com qualquer um deles para se notar o tamanho da tarefa.

É preciso muito mais do que jogar a polícia sobre a turba enlouquecida pelo cachimbo. É preciso encarar o avanço do crack como uma tragédia social, uma catástrofe, e a partir disso pegar pesado nas ações complementares. Se não, passados os meses da marquetagem eleitoral, novas ondas da pedra de cocaína voltarão a soterrar as ruas de São Paulo.

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