A solidariedade ali, bem ao lado
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A solidariedade ali, bem ao lado

Pablo Pereira

09 Fevereiro 2010 | 17h16

Ela chegou a São Paulo com a família, vinda de Franca, no Interior, com um ano de idade. E fez a vida na Capital. Walterlice Maria Pereira Caffer tem formação de educadora e está com 59 anos. Criou dois filhos, lecionou em colégios como Roldão Lopes de Barros, Lasar Segall, Maria Ribeiro Bueno Guimarães, escolas da Saúde e da Vila Mariana, região na qual foi morar em 1951. Hoje ela está aposentada.

Walterlice Maria Pereira Caffer, educadora: solidariedade nas ruas em SP

Walterlice Maria Pereira Caffer, educadora: solidariedade na rua em SP

Na última sexta-feira, 5 de fevereiro, a professora estava com a mãe, de 83 anos, Maria Aparecida, em uma agência bancária da Avenida Domingos de Morais, perto de onde moram, quando viu uma cena perturbadora: uma senhora sofreu um desmaio na rua, afetada pelo intenso calor das 11h. Estava desacompanhada e precisava de ajuda.

Walterlice deixou de lado o que estava fazendo, acomodou a mãe no interior do banco e foi socorrer a desconhecida. Três dias após o episódio, ela contou por que decidiu interromper suas tarefas para prestar socorro. E se recorda daqueles momentos de aflição com a comovente satisfação de quem acaba de praticar um ato de pura solidariedade.

 Abaixo, trechos de conversas com Walterlice, ocorridas na tarde de domingo, 7, e hoje:

 O que aconteceu com a senhora na sexta-feira pela manhã, quando a senhora estava no banco?

–Eu vi a senhora caída, naquele sol, e me deu uma aflição.

Como ela estava?

–Ela estava desacordada, no sol. Eu puxei uma cadeira pra ela. As pessoas diziam que era bom dar uma bala pra reanimar, mas falaram de diabetes, e eu disse: não dá bala, nada de açúcar. Pode ser pior para ela. Eu posso levar para o hospital, no meu carro.

A senhora a conhecia?

–Não. Nunca tinha visto.

E como foi?

–A gente sabe que não pode levar uma pessoa assim para hospital. Mas eu queria levar assim mesmo, já que não aparecia nenhum socorro. 

 E o que a senhora fez então?

 –Eu jogava água na mão e passava na testa dela, estava muito calor. Ela foi se reanimando. Naquela hora ia passando um carro de polícia. Eles não eram dali, eram do Centro. Nem sei o nome deles. Eles disseram que a levavam para o hospital. E eu fui com eles até o hospital. Porque quando ela começou a melhorar, ela falou o nome do hospital Santa Cruz, que eu sei onde fica, eu sou aqui do bairro. Eles não sabiam. Eu fui orientando. Eles foram muito gentis, atenciosos.  Foram demais, inclusive com ela. Eu até perguntei para um deles: você pode fazer conversão proibida, não? Ele respondeu: sim. E eu disse: então vai por aqui, e fui orientando. Eu nunca vi ninguém guiando assim tão bem. Fomos direto. E eu fiquei lá um pouco com ela. Até disse para ela: a senhora vai entrar no soro! E ela ficou no hospital. Foi a pressão que subiu, estava muito calor.

O que levou a senhora a ajudar?

–É um ser humano. Podia ser qualquer pessoa.Tinha muita gente falando, mas ninguém tomava a iniciativa. E eu já fiz muito isso. Primeiros socorros. Quando lecionava, levei muito aluno da escola para hospital, acompanhei até cirurgia. Naquele dia, eu estava no banco, com minha mãe. Minha mãe tem 83 anos. Eu nem tinha visto nada. Foi quando eu vi a mulher no chão, naquele sol. Eu disse: precisa cobrir a cabeça dela. E passei água com mão na cabeça dela. Corri lá, deixei a minha mãe no banco, com a minha bolsa, esperando, e fui com a senhora até o hospital. Ela também mora na Vila Mariana. Mas eu não sei o endereço. Mas eu peguei o telefone dela e já telefonei pra saber. Hoje ela está bem.

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